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Miguel Palma: (Ainda) O Desconforto Moderno

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Isabel Nogueira

A estabilidade é um convite à desaceleração

Miguel Palma (n. 1964) tem patente uma relevante exposição antológica — (Ainda) O Desconforto Moderno — no Museu Colecção Berardo, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez, que abarca um período de 30 anos de actividade artística e que apresenta diversos suportes, tais como a escultura, o desenho, o vídeo, a instalação, ou a performance.

Isabel Nogueira (IN): Gostaria que nos falasses da importância desta exposição para ti e para a tua carreira, uma vez que se reporta a 30 anos de actividade.

Miguel Plama (MP): Esta é terceira exposição em que tenho a possibilidade de mostrar o meu trabalho em diferentes momentos. Tive uma exposição na Culturgest, em 2007, que foi uma selecção mais restrita, mas que funcionou muito bem. Em 2011, tive outra exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, em que foi assumido o meu lado mais compulsivo de construir, que acabou por ser algo diferente do conceito da Culturgest. A actual exposição felizmente foi comissariada pelo Miguel [von Hafe Pérez] e não por mim. Teria mostrado mais trabalhos e foi melhor desta forma. A escolha foi uma surpresa, pois há alguns trabalhos que nunca tinha visto expostos desta maneira. A obra das peças em betão armado desperta-me um especial carinho, pois a primeira vez que a mostrei foi quando verdadeiramente senti que era artista, e era novo na altura, portanto, olhando para este trabalho, com distanciamento, acabo por sentir um carinho, que normalmente não sinto em relação ao que faço.

IN: Porquê?

MP: Porque nunca estou realmente satisfeito. O que faço com maior certeza e realização é a experiência. Ainda tenho um lado meio ingénuo de sentir que cada vez faço diferente e gosto de me surpreender.

IN: Mas é-te fácil perceber quando a obra chega efectivamente ao seu final, quando está concluída?

MP: Sim. Depende dos trabalhos. As obras são construídas como se se tratasse de uma máquina, isto é, têm que possuir determinado funcionamento, determinada estrutura e determinada imagem. Mas há muitos trabalhos que se vão fazendo. Acontece também no desenho. Há desenhos em que a colagem tem um papel principal e outros que são quase trabalhos de pintura, embora não me considere um pintor.

IN: Queres falar-nos um pouco da tua formação artística?

MP: A minha formação académica é incompleta. Pensava ir para arquitectura e só tardiamente decidi ir para Belas-Artes. Assim, tive de ir para o Funchal, e só posteriormente para as Belas-Artes de Lisboa. Ainda na Madeira, fui percebendo o que me interessava e o que nunca iria fazer. Quando vim para a escola de Lisboa senti que tinha vindo para um sítio importante. Eu não tinha andado na Escola António Arroio, não tinha feito o percurso tradicional. Tinha estudado num colégio, com outras referências. Porém, rapidamente as Belas-Artes de Lisboa perderam essa importância. Desisti no segundo ano. Todo o trabalho que fiz foi como autodidacta, que se reflecte muito no modo como fui trabalhando os objectos ao longo do tempo e que senti sempre que tinha pouca ligação aos meus colegas das Belas-Artes. Eles seguiram o seu percurso e só mais tarde os voltei a encontrar. E foi importante para mim esse distanciamento, esse crescimento mais individual, mas também foi relevante recuperar essas pessoas mais tarde, porque muitas delas tinham a mesma forma de comunicar e isso foi muito importante para mim.

IN: Voltando à exposição (Ainda) O Desconforto Moderno, podes falar-nos um pouco mais sobre ela?

MP: Trata-se de uma escolha de trabalhos importantes. Por exemplo, há uma peça que se chama Carbono 14, e que é um corte geológico com uma agricultura na parte superior. É um trabalho de 1998. Na altura, não sabendo bem a razão, a Terra preocupava-me. Até tirei um curso de agricultor nos anos 90. Queria plantar árvores. O director do centro francês onde mostrei esta peça disse-me que era uma obra optimista e pessimista. Na altura fiquei a pensar sobre isso. Percebi depois que é uma constante no meu trabalho. Por um lado, tenho fascínio pelo o que o Homem constrói para o seu conforto; por outro, sinto que se está a caminhar para outro lugar.

IN: Relacionado com o que acabas de dizer e com o próprio título desta exposição, o que é para ti a modernidade?

MP: A modernidade quando era criança tinha uma força grande. Durante o meu crescimento a modernidade era a minha paisagem. Lembro-me das conversas, acerca do Mundo vir a ser melhor. E eu acreditava.   

IN: Por definição, a modernidade é isso, na sua condição de progresso e de superação. Amanhã é suposto ser sempre melhor do que hoje.

MP: Sim. A modernidade tem que ver com o meu crescimento e com uma fase que foi fundamental, na qual os filtros estão limpos e tudo marca.

IN: Aproveitando o mote de ser início do ano de 2020, achas que efectivamente vai ser melhor?

MP: Tenho uma enorme desconfiança em relação a este ano. Parece quase ficção científica. São números que não aparecem no Cemitério dos Prazeres (risos). São números de ficção científica, porque nascemos no século XX.

IN: Como vês a actualidade na sua condição política, na sua eventual opressão, como situas o teu trabalho neste contexto?

MP: Qualquer pessoa que tenha consciência e sensibilidade face aos acontecimentos reflectirá isso no seu trabalho. Sim, claro que está presente no meu trabalho, embora não de um modo panfletário.  

IN: Há alguma questão, ou questões, que particularmente te inquietem?

MP: Preocupa-me a Natureza. Hoje há maior consciência, sabemos mais e, sabendo mais, obriga-nos a preocupar mais. Não se admite que tendo nós essa formação —não apenas na escola, mas do que lemos e vemos — continue a haver pessoas que não aderem, que preferem continuar como se vivêssemos nos anos 40.

IN: Toca-te, por exemplo, a acção de Greta Thunberg, inclusivamente eleita personalidade do ano, que agora terminou, por publicações de referência?

MP: Estou totalmente com a Greta. E estarei com outras pessoas que, num momento como este, consigam ignorar outros valores, que de facto não são os melhores. Preocupam-me várias outras coisas. Por exemplo, o Trump e a sua possível reeleição. Com esta gente que lidera devemos estar atentos.

 

 

IN: Mas também não vês isto como reflexo de alguma incapacidade, uma inoperância, de a política tradicional — digamos — resolver efectivamente os problemas das pessoas, abrindo espaço a estas figuras?    

MP: Sim. Por exemplo esta nova vaga de extrema-direita, que já está também no nosso país, mas quero acreditar que não irá longe. Vai haver um momento em que estes tipos vão ter que cair. Quero acreditar que sim.

IN: E o “Brexit”, por exemplo, como vês esta questão?

MP: O que sinto, sobretudo através das pessoas que conheço no Reino Unido, é que há muita preocupação e não se sabe o que vai acontecer, mas que vai ser certamente mau. No meio disto tudo, cada um a seu modo, temos o nosso espaço onde podemos contar as nossas histórias e preocupações e devemos estar conscientes e falar, através da pintura, da escultura, do que for.

IN: De um modo geral, como é o teu processo criativo? Inclusivamente, como produzes as tuas peças?

MP: Começa muito por encontrar objectos e guardá-los. Quando encontro algo já sei o que posso extrair daí. Esse é um caminho. Outros objectos estão guardados durante anos, vivem comigo, olhei várias vezes para eles. São seres e não consigo abandoná-los. Haverá um dia em que irão fazer parte de uma história qualquer. Depois, na parte da montagem trabalho com duas pessoas. Há ainda as pessoas que me trazem peças, que colaboram comigo a esse nível e é sempre um desafio. Cada objecto faz surgir um arranque para uma peça. Tenho muitos objectos e há muitas coisas que quero fazer. Na mecânica e no funcionamento tenho dois engenheiros que trabalham comigo, nomeadamente nas máquina pesadas. Existem pontualmente outras pessoas. A instabilidade cria-me vontade de amanhã acordar e vir para o atelier. É um lugar desafiador. A estabilidade é um convite à desaceleração.

IN: Por falar em máquinas, se não fosses artista eras aviador ou corredor de automóveis?

MP: Há muita coisa que gostava de ter sido. Mas é complicado. Fazer arte não anula as outras possibilidades. Tudo o resto interessa mas há uma efectiva impossibilidade de ser outra coisa. Se não existisse arte gostaria de ser um piloto de testes. O circuito é um percurso pré-definido, é um desenho lindo, uma coreografia. O piloto que testa o circuito faz também o seu bailado. A arte é uma forma de poder ser muita coisa. E isso é uma enorme liberdade.  

IN: Retomando uma situação mais antiga, em 1993, já tinhas trabalhado com o Miguel [von Hafe Pérez] na exposição Imagens para os Anos 90, inaugurada na Fundação de Serralves, na qual se juntou uma importante geração de artistas, como Daniel Blaufuks (n. 1963), João Louro (n. 1963), João Paulo Feliciano (n. 1963), João Tabarra (n. 1966), entre outros. Recordas-te como sentias o Portugal artístico desses anos?

MP: Recordo-me de querer fazer diferente do que tinha visto. Recordo-me de ser muito novo e de ter uma consciência diferente. Queria fazer coisas que não eram consideradas arte. Sentia que era possível fazer tudo. E que havia muito por descobrir. Havia a vontade de afirmação de uma geração. Gostava de voltar a ver esse exposição agora.

IN: Como vês o panorama artístico hoje?

MP: Acho que há muito mais pessoas a trabalhar. O país continua a ser pequeno e isso não é bom. Podia haver mais instituições, mais possibilidades. Há artistas que têm toda a hipótese de crescer mas muitas vezes é complicado continuar, manter. Significa, muitas vezes, um sacrifício tal que se desiste. É pena. É um equilíbrio, por vezes, difícil. Há muito ainda para fazer.

IN: Estamos no início do ano, a pergunta clássica: tens algum desejo artístico — ou não só — que queiras partilhar connosco?

MP: Desejo que aquela máquina [uma das peças mais recentes] que está aqui no atelier não pare. Ela faz 360 graus em 365 dias. Faz praticamente um grau por dia. Ainda não tem nome. É a projecção da luz, a velocidade do sistema solar. Gostaria também que acabasse o “Black Friday” e o consumismo intrínseco. Na exposição tenho inclusivamente uma máquina que destrói os electrodomésticos. Das vezes que mostrei a peça, as pessoas que descarregavam os electrodomésticos e que sabiam que iam ser destruídos ficaram um pouco incomodadas com a destruição. Percebo. Gostava ainda qua acabassem os tsunamis e esses fenómenos destruidores.   

IN: Obrigada, Miguel, e um bom ano de 2020.

 

Miguel Palma

Museu Coleção Berardo

Isabel Nogueira (n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

CF009921
CF010019
CF009990
CF010008
CF010023
CF010001

Miguel Palma: (Ainda) O Desconforto Moderno. Vistas da exposição no Museu Coleção Berardo. Fotos: Filipe Braga. Cortesia de Museu Coleção Berardo. 

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