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A necessidade de chorar em público 

Pedro Barateiro

 

I

No momento em que estou a começar a escrever este texto, preparo-me para mais uma reunião da Associação de Artistas Visuais em Portugal (AAVP). Irei, portanto, escrever este texto entre reuniões, talvez até durante um dos encontros via Zoom que têm acontecido semanalmente. Um grupo informal de artistas decidiu convidar outros, para formarem um colectivo, com o propósito de criar uma associação de artistas a trabalhar em Portugal. Fui um dos primeiros 10 a fazer parte de um grupo de discussão, que foi mudando muito ao longo do último ano. As primeiras reuniões (sempre virtuais) aconteceram em Abril de 2020, ao fim do primeiro mês de confinamento. No início, as discussões foram politicamente correctas, num tom de respeito e cuidado pelos outros, mas rapidamente, à medida que as opiniões se diversificaram e individualizavam, as mesmas opiniões tornaram-se mais claras, mas também mais agudas. Os elementos do grupo original foram-se incompatibilizando com a forma como a associação foi crescendo e, naturalmente, algumas pessoas foram saindo e outras juntaram-se de forma natural, ou seja, através de um convite feito pelos elementos que ficavam.

Dia 17 de setembro de 2020, fui ao registo da associação na hora, e com outro associado, formalizámos a AAVP. Desde então, o grupo foi crescendo e mudando, e com o objectivo único (até agora 16 Maio de 2021) de organizar as primeiras eleições de uma direcção que tomará lugar com a primeira lista de associados a ser eleita democraticamente pelos sócios (neste momento 87). A direcção provisória, da qual faço parte, tem como único objectivo tornar legalmente reconhecida e operacional a AAVP. Depois do registo, foi necessário trabalhar nos estatutos internos, um processo que demorou muitos meses, até ser possível apresentar uma lista de associados-candidatos à direcção.

Tive de aprender, tal como os outros, o que significa formalizar uma associação. Fiquei encarregado de tratar de assuntos como: falar com o contabilista e com o banco, responder a emails, fazer parte do grupo de admissão de novos sócios, mas também ir a algumas reuniões com a DGArtes, assistir e participar em diversos grupos de trabalho (entre eles grupos parlamentares) que se iam formando para dar o seu contributo em assuntos tão importantes como o Estatuto do Trabalhador Independente na Área da Cultura.

O facto de vivermos um momento particular da nossa história, no quadro de uma pandemia a nível global, fez com que a vontade de manter o contacto entre os diversos elementos do grupo, forçados a uma clausura e afastamento necessários, passasse a manifestar-se de outra forma. Provavelmente não teria sido possível juntar este grupo de pessoas se não fosse a pandemia. A pequena comunidade que se criou decidiu actuar, na medida do possível, sobre a incapacidade de gerir uma classe de “trabalhadores” que até então não tinham representatividade junto dos órgãos estatais, no momento em que o Ministério da Cultura estava a tratar de assuntos tão delicados como definir o novo Estatuto do Trabalhador Independente na Área da Cultura. Por esse motivo, entre muitos outros, pareceu-nos mais do que necessária a criação da associação.

O documento inicial da AAVP, que redigimos em conjunto, diz, logo no início, o seguinte:

A AAVP tem por objectivo principal divulgar e potenciar o reconhecimento do trabalho dos artistas enquanto atividade profissional com elevado grau de especialização. A AAVP existe também para que os artistas visuais constituam parte ativa e solidária do tecido cultural e social no seu todo, nomeadamente na discussão das decisões políticas e sociais por forma a apoiar a construção de uma sociedade crítica, sensível e criativa.

 

O trabalho a fazer junto das instituições governamentais é o maior desafio, por haver a necessidade de uma representatividade da classe dos artistas visuais no tecido social e económico do país. Habituados ao desinvestimento da área da cultura, as artes visuais foram por um lado complacentes com todo o tipo de políticas irresponsáveis dos sucessivos governos, até ao limite de todos os perjúrios como aquele que nos classificava como “subsídio-dependentes”. A verdade, aquela que todos os que trabalham em “cultura” em Portugal sabem, é que a educação cívica que os sucessivos governos têm adoptado, é insuficiente, centralizada e incapaz de dar à população formas de usufruto da cultura em toda a sua potência. Está mais do que comprovado que uma sociedade onde a arte está presente de forma constante, desde cedo na vida das pessoas, através da educação, é uma sociedade mais desenvolvida, mais cooperante, mais complexa e mais justa.

Desde muito cedo, o grupo de trabalho da AAVP foi-se reestruturando para trabalhar nos diversos projectos e demonstrou o quão complexo é manter relações interpessoais, baseadas na dedicação do trabalho individual e colectivo por um bem comum. E isso refectle-se nas nossas instituições que são geridas por pessoas, como nós. A dedicação necessária para desenvolver qualquer trabalho tem de ter um objectivo comum. O problema estrutural, analisado de forma mais brutal, no passado recente, por José Gil no livro Portugal, Hoje: O Medo de Existir (2005), mantêm-se: como pode funcionar um governo, um país, sem a responsabilização de todos? Portugal, o país que não teve — nem nunca terá? — uma regionalização, uma descentralização eficaz, transferiu aquilo que restava das propriedades feudais para a posse de sucessivos governos incompetentes, maquiavelicamente geridos pelos mesmos proprietários e que são agora vendidos ao desbarato. Portugal não se desenvolve porque o seu maior problema é o facto de ninguém estar disposto a passar o seu poder, num determinado momento, a outro agente.

II

O facto de ter nascido em Almada fez com que tivesse, desde cedo, consciência do contexto político em que vivo. Se por um lado tive a capacidade de me manter distante de manifestações partidárias, sempre estive bastante atento às movimentações ideológicas que fazem de qualquer agente humano — mas também não-humano — uma entidade política. Sempre gostei de manter alguma distância das formas mais óbvias de discurso, e por isso interessa-me a particularidade e especificidade das coisas e não generalizações. Revejo-me nas palavras de Yvonne Rainer quando diz que a sua prática artística nada tem que ver com movimentações políticas, apesar de ter consciência de que estão lá, e do que podem significar:

“A condição para fazer as minhas coisas está na continuação do meu interesse e energia. Assim como as questões ideológicas não têm influência na natureza da obra, também o teor das atuais condições políticas e sociais não tem influência sobre a sua execução. O mundo desintegra-se ao meu redor. A minha conexão com o mundo-em-crise permanece ténue e remota. Consigo prever um momento em que esse afastamento terá necessariamente de acabar, embora não consiga ver exatamente quando ou como essa relação irá mudar, ou que circunstâncias me incitarão a um tipo diferente de ação. (...) Esta declaração não é um pedido de desculpas. (...) O meu corpo mantém-se como uma duradora realidade."[1]

 

É uma questão que coloco e penso que outros artistas também: como, e porquê, continuar a trabalhar em momentos em que tudo parece supérfluo, quando a política age sobre tudo de forma tão brutal, onde tudo parece deixar de fazer sentido?

Para mim, a resposta é ampla, complexa mas simples, e particular: o espaço de liberdade que o processo artístico desencadeia é a melhor forma para lutar contra a ignorância dos agentes e movimentos sociais e políticos que se acham capazes de criar ordem no mundo, e que ao fazê-lo, utilizam a violência como forma de dominar o corpo dos outros. A necessidade de Rainer se manter distante — e sabemos que não está realmente — é na verdade a procura de lucidez no meio do caos, é a procura do não-sentido. Desenvolver a própria linguagem para não ter de se subjugar e ter de falar a língua do opressor. Desligar a televisão, ou por outro lado, mantermo-nos constantemente informados através da avalanche de notícias, não nos faz menos cúmplices de gestos autoritários com os quais compactuamos, nem que seja pelo silêncio. O nosso corpo é o espaço político mais real e o lugar de todas as lutas, e Rainer não se sente menos cúmplice por não ter um trabalho aparentemente político.

A minha adaptação ao contexto artístico foi sempre o de sentir que não faço parte de nada, nem de nenhum movimento, precisamente por me interessar a criação da minha própria linguagem. A aprendizagem foi-se fazendo por sucessivos embates, a maior parte deles comigo próprio. Interessam-me pensar formas de alienação conscientes. É necessário estar consciente dessas formas de alienação e o que está por detrás delas. É necessário entender os processos sociais e políticos como ferramentas de domínio e biopoder, que servem para controlar populações. É necessário estar abstraído e ao mesmo tempo presente. É preciso tomar a palavra desde de que a mesma venha desconstruída e descolonizada das estruturas linguísticas que tentam normalizar todos os discursos; entender que cada palavra carrega em si um sentido, transporta uma carga pesada que pode magoar. A violência que os discursos políticos transportam, está impregnada de uma narrativa mitológica que se baseia em falsos ideais de domínio e poder. Temos absolutamente que os desmantelar. É um trabalho enorme mas muito necessário.

O momento atual é o de um colapso do real. O sistema de crença que tem vindo a vingar nos últimos séculos na cultura ocidental, baseado no progresso financeiro burguês de um modelo económico que usa os avanços científicos em prol da evolução da espécie humana — castigando e subjugando todas as outras formas de vida — encontra-se em declínio acelerado. A ciência é incapaz de dar uma resposta com a rapidez necessária ao sistema financeiro global vigente, baseado em trocas de mercadorias e de pessoas. A aparente liberdade que os corpos ganharam com os avanços técnicos da ciência encontram neste momento um beco sem saída, especialmente para aqueles que acreditam que a transformação exterior é a solução.

O convite para participar nesta série de workshops e desenvolver algum tipo de pensamento para publicação na revista Contemporânea, em formato online e num jornal a ser impresso, foi um privilégio e fez-me pensar obviamente no privilégio que temos em pudermos expressar-nos dessa forma. O espaço que vamos construindo, o tal safe space que precisamos tem de ser alargado ao maior número de pessoas com comunidades formais e informais de ajuda e apoio. O mundo à nossa volta desintegra-se, como diz Yvonne Rainer, mas continuamos a precisar do espaço público de discussão que não seja manipulado por algoritmos gulosos alimentados pelos vectores do capital abstracto. Devemos desenhar lugares possíveis de encontros furtivos e engajados, sejam eles online ou offline, mediados por ecrãs ou por pessoas. Devemos poder chorar em público, se nos apetecer, sem sermos julgados por sermos demasiado frágeis, ou sentir que somos incapazes de produzir um discurso. É necessário acabar com a ideia da aparência como a forma da totalidade. Mais do que ver, é necessário ouvir, ouvir com o corpo todo, sem reproduzir vozes que achamos estarem correctas por serem bem falantes e autoritárias. É necessário fazer o exercício de ensinar o corpo a expressar-se de forma particular e específica, sem padrões, sem coreografias preconcebidas de lógicas estabelecidas.

 

 



 

Pedro Barateiro (Almada, 1979) vive e trabalha em Lisboa. Trabalha com uma variedade de técnicas que vão do desenho à escultura, passando pelo filme, performance e escrita. O seu trabalho tem-se centrado na tentativa de desconstruir as narrativas binárias do pensamento e cultura ocidentais. Realizou exposições individuais em museus e instituições como: Kunsthalle Basel; Museu de Serralves; Kunsthalle Lissabon; REDCAT; Museu Coleção Berardo; Pavilhão Branco - Museu da Cidade; Netwerk Aalst; Basement Roma; Kettle's Yard; Parkour; Lumiar Cité; e Spike Island. Participou em exposições coletivas como: 13ª Sharjah Biennial; 29ª Bienal de São Paulo; 16ª Bienal de Sidney; e 5ª Bienal de Berlin. As suas performances foram apresentadas no Centre Pompidou, Théâtre de la Ville, L’école nationale supérieure des beaux-arts - ENSBA e Fondation Ricard (Paris); 98Weeks (Beirute); ZHdK (Zurique); Teatro São Luiz (Lisboa); SESC Pompeia, Centro Cultural São Paulo e na Galeria Vermelho (São Paulo). O seu trabalho está presente em diversas coleções privadas e públicas, tais como: Deusche Bank Collection; Fundação EDP; Museu de Serralves; Fundación ARCO; Fundación “la Caixa”; e Fundação Calouste Gulbenkian. Barateiro organiza eventos e exposições no espaço Spirit Shop iniciado por si e anexo ao seu atelier na Rua da Madalena em Lisboa.

 


[1] Escrito em março, 1968, este texto for distribuído no programa que acompanhava “The Mind is a Muscle” [A Mente é um Músculo] de Yvonne Rainer. De acordo com Rainer, “não é necessário ler antes da observação” da performance. O texto foi publicado posteriormente em Yvonne Rainer: Work 1961–73 (Halifax: The Press of Nova Scotia College of Art and Design, 1974), p. 71. A tradução deste excerto foi feita pelo autor do texto, por não existir tradução do texto para Português.

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