Lisbon Roundup #14

É o primeiro Roundup do ano. Qualquer ano inicia com legítimas expectativas, que se sustentam no impulso de estar vivo. Janeiro é o mês mais longo do ano, mesmo que não o seja. Janeiro traz consigo inaugurações, na retoma do movimento que o começo do ano suspendeu. A suspensão é importante, sobretudo numa época de ruído, inclusivamente do ponto de vista cultural e artístico. Ruído é distinto de vibração e, neste sentido, existem propostas que se diluem no ruído e outras que, por algum motivo, se destacam. Esta rubrica parte, uma vez mais, de uma vontade pessoal e livre de, por motivos diversos, se conferir destaque a algumas exposições. Uma reflexão crítica é uma sugestão de leitura e de enquadramento, afastando-se, naturalmente, de qualquer dogma, paternalismo professoral ou afunilamento. Pelo contrário, escreve-se em liberdade e convida-se à mesma liberdade no acto de ler e de, eventualmente, não ler.
As três exposições deste Roundup têm em comum uma escolha que assenta num critério de qualidade objectivável (coerência do conjunto, leitura curatorial, respiração do espaço, novidade no campo expositivo, desenvolvimento do percurso do artista, materialidade das peças, etc.) e, claro, de gosto subjectivo, de herança kantiana, no qual, e independentemente de especificidade de contornos, sobretudo assenta a actividade crítica. Kant, na obra Crítica da faculdade do juízo (1790) desenvolveu a analítica do belo, afirmando que o juízo de gosto é efectivamente estético e subjectivo. Pouco mais de um século depois, Theodor Lipps propôs um conceito operativo, portanto interessante, de “gozo objectivado em si”, quer dizer, quando o prazer da fruição e o objecto se juntam num acto único. No excelente texto As oscilações do gosto: a arte de hoje entre a tecnocracia e o consumismo (1989), Gillo Dorfles também afirmaria a este respeito: «O conceito de “gosto” é finalmente o único sobre o qual nos podemos basear para chegar a um imediato e plausível juízo crítico sobre a obra de arte, embora esta especial “faculdade” humana não possa ser avaliada senão empiricamente e considerada essencialmente subjectiva. Tratar-se-á, pois, quase sempre de um juízo que escapará à exactidão e à racionalidade dos juízos científicos». O acto de escolha comporta implicitamente a exclusão. Esta exclusão prende-se com três aspectos. O primeiro, e mais evidente, porque as exposições não são suficientemente problematizantes para a elaboração de um pensamento crítico; o segundo, porque, apesar da validade, preferiu-se, legitimamente, discorrer sobre outras; o terceiro, porque não se viu — nem é suposto ou possível ver — tudo. Debrucemo-nos de seguida sobre as três exposições escolhidas.
António Palolo
António Palolo na Coleção Manuel de Brito
@CAMB - Centro de Arte Manuel de Brito
É uma exposição necessária, porque faz uma retrospectiva consistente de António Palolo (1946-2000), um dos artistas mais originais e importantes da segunda metade do século XX. Palolo nasceu em Évora e foi um autodidacta, revelando desde cedo inequívoco talento. Começou a expor individualmente em 1964, precisamente na Galeria 111, fundada nesse ano por Manuel de Brito. Ao longo dos anos 70 e 80, marcou presença em algumas das mais importantes exposições colectivas do momento, tais como Alternativa Zero: Tendências Polémicas na Arte Portuguesa Contemporânea (1977) ou Depois do Modernismo (1983), num acompanhamento das tendências artísticas internacionais do momento, nomeadamente, da neovanguarda e do pós-modernismo. Participaria ainda, a título de exemplo, noutros eventos colectivos relevantes e definidores do momento artístico português, tais como Onze Jovens Pintores Portugueses (Lisboa, 1984) ou Atitudes Litorais (Lisboa, 1984).
Palolo recebeu reconhecimento merecido ao longo da sua carreira, como o importante prémio da Sociedade Química Industrial (SOQUIL) — o Prémio SOQUIL (1968-1972) ou Prémio da Crítica —, directamente reportado à crítica de arte, já que o júri era constituído por três membros da Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte, que se reunia anualmente no intuito de premiar e de atribuir menções honrosas sem concurso. Em 1971, a Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos de Arte foi convidada a intervir na nova decoração pictórica de “A Brasileira”. As obras de 1925, entretanto deterioradas, seriam substituídas por pinturas executadas por artistas, entre os quais António Palolo. Segundo José-Augusto França, estes artistas eram “representantes maduros dos artistas portugueses” (Os quadros de “A Brasileira”, 1973). António Palolo foi ainda um dos artistas cuja obra foi seleccionada para aquisição pelo denominado “Clube dos 100/100”, criado em 1966 com a cota de 100 escudos, com o objectivo de activar o mercado, praticamente inexistente, de arte moderna em Portugal.
Esta bela exposição no Centro de Arte Manuel de Brito faz uma retrospectiva importante da obra de António Palolo, com curadoria de Maria Arlete Alves da Silva, abrangendo o leque temporal de 1961 a 1984. A mostra assinala também os 25 anos da morte do artista. A sua obra tem efetivamente o experimentalismo e a exuberância da cor como matrizes. Nos anos 60, verifica-se uma conexão ao informalismo e à Pop art, nomeadamente, a Robert Rauschenberg e a Andy Warhol, período em que também utilizava a colagem. A década de 60 foi inequivocamente importante no rumo das artes plásticas em Portugal, marcando o acompanhamento das tendências internacionais do momento. Por um lado, as obras situaram-se entre o abstraccionismo, sobretudo o informalismo (movimento genericamente abstracto e poético, que surge na Europa a seguir à II Guerra Mundial), e a nova figuração (movimento de cariz figurativo); por outro, e num momento seguinte, desenvolveram linguagens e estéticas já conectadas com o movimento geral da neovanguarda internacional e da Pop art. E é precisamente nesta transição para uma gramática Pop vibrante que Palolo se localiza. A cor intensa, de resto, nunca seria abandonada. Talvez neste aspecto visualmente tão forte e sedutor resida o facto de ser o artista português mais falsificado.
Portugal, e apesar da existência de artistas com obra notável, era um país geograficamente periférico, fechado e ruralizado, com um regime ditatorial, colonialista e esteticamente reaccionário, traduzindo-se num expectável acesso limitado a informação e a difíceis condições da vida cultural e artística. Desde precisamente 1961, que Portugal se envolvera numa guerra de guerrilha contra os movimentos independentistas, perdendo oficialmente a vida quase 9000 indivíduos, num drama humano de ambos os lados e num esforço de guerra incomportável. Palolo, tal como tantos da sua geração, foi mobilizado para Angola. Nesta década pinta obras que, em laga medida, misturam figurativo com abstracto. Posteriormente, a cor permanece, mas a pintura toma a forma abstractizante de riscas e geometrias ainda mais intensas. Nos anos 80, incorre num neo-expressionismo poderoso no contexto do regresso à figuração. Finalmente, nos anos 90, verifica-se um retorno a uma abstracção depurada e de cariz mais gráfico.
Mas, apesar de ser sobretudo um pintor, Palolo explorou vários suportes e linguagens, como colagem, filme experimental ou a colaboração com o grupo musical “Telectu”, fundado em 1982 por Jorge Lima Barreto e Vítor Rua. Todas as obras desta exposição denotam uma escolha consistente e plausível, que efectivamente permite ter uma visão representativa da obra e versatilidade de Palolo. Destacamos a excelente pintura O jardim das delícias (1970), evocativa do tríptico O jardim das delícias terrenas, a célebre pintura de Hieronymus Bosch de início do século XVI, ou, numa linha e temporalidade distintas, o traço intenso e gestualista das obras do designado movimento de “regresso à pintura”. Esta exposição é uma bela viagem de cor, vida e encantamento.
António Palolo, António Palolo na Coleção Manuel de Brito. Vistas da exposição no CAMB - Centro de Arte Manuel de Brito, Lisboa. Cortesia da Galeria 111.
Marco Franco:
Ângulo Vivo
Foi precisamente há dois anos que dedicámos uma das escolhas do Roundup a uma exposição individual de Marco Franco (n. 1972) também na Galeria Bruno Múrias. Regressamos com prazer a este universo — Ângulo Vivo — e ao trabalho escultórico do artista. Há uma delicadeza constante e subtil no modo como as peças metálicas se desenvolvem no espaço. A palavra é esta: desenvolver, recordando o futurismo de Umberto Boccioni tanto na sua persistente captura do movimento como na proposta de materiais metálicos na arte escultórica moderna. Conferir desenvolvimento espacial à escultura é desafiador, porque se trata de uma peça materialmente circunscrita e finita na sua materialidade. Como fazê-la voar?
É precisamente isto que Marco Franco consegue. Ângulo Vivo é uma exposição em que ela própria se desenvolve espacialmente como objecto, quer dizer, como uma peça totalizante em forma de “U” que serve de suporte às esculturas e que ocupa todo o espaço. Sobre esta estrutura a sinfonia vai então acontecer. As esculturas em chapa metálica, portanto a forma plana, vão desenhar-se no espaço, contorcer-se, revirar-se, estirar-se. As duas séries apresentadas Treamero (chapa de 1mm de aço galvanizado, 2024) e Inversões de giz (chapa de 1 mm de cobre oxidado, 2024) são notáveis na sua elegância, beleza e musicalidade.
A matriz é a da linha e do plano, levantando a possibilidade de fusão entre desenho e escultura, numa clara herança minimalista depurada. A escultura minimal, surgida nos anos 50, procurou criar emoção estética a partir de uma intelectualização do objecto, retirando-lhe propositadamente toda a expressividade e interpelando os planos na sua verticalidade e horizontalidade. As esculturas de Marco Franco constituem um inegável prazer estético de fruição, contemplação e imaginação. Estes objectos são comparáveis a uma proposta de poesia visual, na qual a linha da palavra revela uma materialidade visual e um sentido conceptual e emotivo.
A escultura ao incorporar a leveza matérica torna-se etérea, esvoaçante e quase mutável, desafiando os limites materiais da obra. Ao olhar atentamente o conjunto parece tratar-se de um fosso de orquestra, com instrumentos musicais, movimento, notas e pausas escritas numa partitura. A arte e a sua capacidade de ainda nos surpreender e de criar novidade, inclusivamente numa vertente minimalista revisitada sob diversas formas e apropriações, num claro ângulo orgânico e definitivamente vivo.


Marco Franco, Ângulo Vivo. Vistas da exposição na Galeria BRUNO MÚRIAS, Lisboa. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia do artista e Galeria BRUNO MÚRIAS.
Pedro Tudela & Sérgio Fernandes:
YESPEN(S)
Yespen é o título de uma fotografia a preto e branco de Pedro Tudela (n. 1962) representando o interior côncavo de duas mãos juntas, e que confere também o título a esta exposição. A primeira sensação é a de uma cuidada e bem conseguida ocupação do espaço, quebrado obliquamente por uma peça possante, mas, simultaneamente leve e desmaterializada (Tam-po-clock, 2024), de Pedro Tudela, que pode funcionar como ponto de união das peças dos dois artistas (Sérgio Fernandes, n. 1985), ao permitir que o olhar abarque o espaço através da transparência das campânulas gigantes de vidro soprado. É das melhores obras e congrega outro elemento importante neste enquadramento: o som. Tudela é também um artista sonoro, tendo produzido ao longo do seu percurso objectos que operam uma conexão entre a escultura e a sonoridade. Mas outra referência nos evoca esta peça. Trata-se da peça histórica La mariée mise à nu par ses célibataires, même, de Marcel Duchamp na qual trabalhou ao longo de mais de uma década, e que também comporta as transparências, a flutuação sensual de elementos, ou a codificação de possibilidades operatórias. Em suma, este “grande vidro” de Pedro Tudela define — bem — a espacialidade da exposição.
A musicalidade e a temporalidade encontram eco também em algumas propostas de Sérgio Fernandes, inclusivamente pelo título Adagio, conferido a uma pintura e reportando-nos, como se sabe, a um andamento musical lento. A pintura de Fernandes é espacial, abstracta e de cromatismo denso, convocando algo precisamente de expressionista abstracto, sobretudo de Clyfford Still, quando materializa as manchas de cor pastosas, ou de Jackson Pollock, quando o gestualismo performativo se vislumbra na tela. As melhores pinturas são Adagio, O Sol herdado pela minha geração (2024) e Hearbeat (2024). Por outro lado, a peça de Sérgio Fernandes que menos bem funciona é Tempo (2024), porque não se relaciona organicamente com este conjunto expositivo. Há ainda uma pintura que se reporta às referências modernistas, nomeadamente à pintora norte-americana Georgia O'Keeffe, propondo uma forma de pensar a pintura também de modo historicista.
A ideia da temporalidade na pintura de Fernandes afere-se ainda pela tinta que vai deixando o seu rasto, formando grossas pinceladas, rugas matéricas ou sobreposições pastosas bem conseguidas, por vezes de apreciável intensidade e expansão. Os tons quentes interceptam os tons frios e, neste encontro, a pintura ganha escala, movimento e inquietação. Nesta exposição as telas respiram convenientemente, porque se trata de pinturas que necessitam efectivamente dessa respiração, desse intervalo visual, temporal e musical.
Mas outros objectos escultóricos de Pedro Tudela chamam ainda a nossa atenção. Trata-se das peças da série Nat-sound (2024). São objectos inusitados, misteriosos e de grande elegância, trabalhados em metal e madeira. Água é uma bela escultura, situada algures entre um primitivismo e uma modernidade estilizada. Finalmente, também de Tudela, o vídeo em loop (Tialtngo, 2024) com um efeito estroboscópio que, uma vez mais, nos remete para o tempo e o espaço, confluindo para um lugar de fruição hipnótico e cadenciado. Yespen(s) é uma exposição que mostra o som e faz ouvir a pintura.
Pedro Tudela & Sérgio Fernandes, YESPEN(S). Vistas da exposição na Kubikgallery, Lisboa. Fotos: Francisco Zenha Preto. Cortesia do artista e Kubikgallery.
Isabel Nogueira [n. 1974]. Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte [Universidade de Lisboa] e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem [Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne]. Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014]; "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" [Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015]; "Théorie de l’art au XXe siècle" [Éditions L’Harmattan, 2013]; "Modernidade avulso: escritos sobre arte” [Edições a Ronda da Noite, 2014]. É membro da AICA [Associação Internacional de Críticos de Arte].
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.
