Gabriel Abrantes: Bardo Loop

O paradoxo da dita cultura pós-apocalíptica dos séculos XX e XXI revela-se até na própria designação. Será possível conceber um “pós” daquilo que se entende ser o fim de tudo? A cultura pós-apocalíptica, que pressupõe o testemunho impossível de pelo menos um ser humano que tenha assistido à extinção da sua espécie, parece ser o produto de uma civilização que já não acredita no poder que o fim contém.
No cenário de fim de mundo que Gabriel Abrantes imaginou para as quatro animações de vídeo que compõem Bardo Loop, encontramos criaturas não humanas que enfrentam situações muito humanas num espaço-tempo sem fim. O título da obra fornece as coordenadas desta dimensão suspensa: as criaturas, que se assemelham àquilo que, no imaginário coletivo, será um fantasma — um lençol branco com buracos para os olhos e a boca —, encontram-se aprisionadas no bardo, uma espécie de limbo, confinadas num eterno retorno do mesmo caracterizado por um ciclo fechado de repetição de ações com a duração de poucos minutos. Em segundo plano, desenha-se um mundo ermo, destruído por chuvas, inundações e incêndios.
Daqueles fantasmáticos habitantes de um futuro que parece ter chegado às derradeiras páginas da sua história, e no qual a espécie humana provavelmente já se extinguiu, esperar-se-ia uma reflexão sobre o fim, ou palavras de alerta ou de saudade pelos tempos idos. Contudo, os espetros, alheados da destruição do mundo que os envolve, concentram-se apenas nos seus dramas pessoais: eles lutam, discutem, choram, cantam sobre a solidão e o arrependimento, terminam relações, fazem sexo — sempre sem parar, num ciclo sem saída.
As quatro animações de vídeo — Sad Singer, I want to have a baby, Victims e Break-up — constituem uma série de obras autónomas que exploram diferentes vertentes de um discurso que é central para a prática de Abrantes. Como se relacionam as experiências autobiográficas e tragédias pessoais com a sociedade contemporânea, e também com questões existenciais mais alargadas, como as alterações climáticas e as ansiedades de um mundo dominado pelas tecnologias digitais? Até que ponto é que os desejos e vontades individuais se encaixam no fluxo geral do mundo? Poderão aqueles alterar o futuro do planeta? Será que os dois domínios se influenciam mutuamente?
Os vídeos de Bardo Loop apontam para a complexa relação entre as diferentes esferas da existência pessoal e global através de inúmeros contrastes, começando pelo movimento paralelo dos diálogos ou ações e da paisagem que lhes serve de pano de fundo. O mundo vai-se encaminhando para a sua própria destruição, alheio ao sofrimento dos seus habitantes, enquanto estes, imersos nos seus problemas, ignoram o colapso que os rodeia. Os dramas da humanidade surgem condensados em breves diálogos ou monólogos carregados de pathos. Interpretados por fantasmas fofos que fazem lembrar personagens de desenho animado ao estilo de Betty Boop, os sentimentos trágicos que aqueles manifestam transformam-se facilmente no seu total oposto. Para lidar com situações como a morte de um filho, o desejo de ser mãe, o fim de uma relação amorosa ou a solidão, os rostos cartunescos assumem expressões patéticas e desfasadas do acontecimento. Este absurdo provoca sorrisos; mas, ao mesmo tempo, o ato de observá-los assemelha-se ao de se estar diante de um espelho, e os sorrisos convertem-se no seu contrário. Frequentemente, na linguagem visual de Abrantes, a comédia e a tragédia recaem uma sobre a outra.
Não é a primeira vez que surgem fantasmas com estas características na obra do artista. Já numa série de pinturas iniciada em 2022, estas figuras são retratadas a executar ações "humanas" — ou, melhor, ações artísticas — num mundo inundado e fluido em que os seres humanos parecem ter desaparecido. Numa entrevista que deu ao GPT-3 da OpenAI para a sua exposição individual Nobody Nowhere, apresentada na Galeria Francisco Fino em 2022, Abrantes explica: "Os fantasmas são uma imagem que representa o artista como um avatar digital, dissociado de uma manifestação física, podendo sugerir noções de vazio, angústia existencial e ausência de sentido. Podem também representar ansiedades relativas ao papel do artista numa sociedade fraturada, partidária e extremista que está sob ameaça de extinção."
À medida que a inteligência artificial se vai desenvolvendo, que futuro se desenha para o artista, o escritor, o autor, de forma geral? As pinturas reproduzem, em óleo sobre tela, imagens que o artista cria com programas de modelação digital 3D, invertendo paradoxalmente os papéis: a máquina é responsável pela conceção/visualização da obra, ao passo que o artista se encarrega da sua execução. Ao pintar o seu avatar a pintar na tela (por vezes a sua própria imagem), Abrantes cria um loop, um curto-circuito em torno da questão da autoria num mundo automatizado.
Na série de vídeos, desenvolvida com tecnologias digitais, esta reflexão é transportada para a problemática das ações. Talvez a pintura na parede e o livro a flutuar na casa inundada de Break-up, assim como o piano de Sad Singer, evoquem o fado desolador da arte num mundo em que os seres humanos já não existem.
No diálogo de Victims surge o tema da genética, desencadeando uma intensa discussão entre um fantasma que defende a importância da sua aplicação, por exemplo, no apoio a crianças com mutações genéticas debilitantes, e outro que lhe lança acusações de eugenia e racismo. As vozes dos dois fantasmas vão subindo de tom, sobrepondo-se uma à outra como numa conversa online em que a invisibilidade dos interlocutores se torna um elemento de desinibição, eliminando qualquer réstia de empatia e culminando num sentido geral de agressividade. Neste que é o vídeo mais político da série, o artista parece criticar o carácter obtuso e desfasado de alguns extremismos woke a partir do momento em que se cristalizam em atitudes cliché. Trata-se de uma crítica que ressoa com a denúncia da hipocrisia e da ignorância enquanto alicerces sobre os quais, por vezes, assentam boas intenções, naquela que é uma questão abordada por Abrantes em várias das suas obras.
Bardo Loop foi uma encomenda da Fundação Gulbenkian para apresentação na recente reabertura do Centro de Arte Moderna, tendo passado a integrar a sua coleção. A obra faz parte da exposição Linha de Maré, que se condensa em cerca de oitenta obras da coleção e reflete, partindo da data emblemática de 25 de abril de 1974, sobre a constante e atual necessidade de se fazer uma revolução — no sentido político, pessoal e social, mas também enquanto reação ao grave estado de saúde do nosso planeta.
Se a exposição narra uma história de consciencialização para os riscos associados à exploração da Terra e para as ameaças das novas tecnologias, o trabalho de Gabriel Abrantes, por sua vez, olha para o futuro. E Bardo Loop situa-se num futuro em que aquela desejada revolução não aconteceu.
O mundo que aparece nos ecrãs, desfigurado por incêndios e inundações, é assustadoramente parecido com o nosso presente, como o próprio artista comentou na inauguração da exposição, em setembro — um mês em que a Europa se viu assolada, por um lado, por chuvas e inundações e, por outro, por incêndios devastadores, particularmente em Portugal.
No entanto, o bardo também sugere uma possibilidade de renascer. Na filosofia budista, este conceito designa um intervalo, um hiato, uma lacuna, um espaço entre, um lugar de transição entre a morte e o renascimento. Pode funcionar como uma fronteira que divide e separa, marcando o fim de uma coisa e o início de outra, mas também como um elo — uma ponte ou um ponto de encontro que une e congrega.
A referência ao bardo no trabalho de Gabriel Abrantes provém do romance Lincoln no Bardo (2017), de George Saunders, citado pelo artista como uma das fontes para a sua iconografia de fantasmas presos no limbo. O romance começa com o falecimento de Willie, o filho de 11 anos de Abraham Lincoln, então presidente dos Estados Unidos. Os jornais da época dizem-nos que Lincoln visitou o seu túmulo e abriu o caixão para abraçar o filho morto; e Saunders, a partir deste episódio histórico, inventa toda uma vida após a morte habitada por almas paralisadas, inspirando-se no conceito tibetano de bardo, esse estado intermédio em que a consciência se encontra suspensa entre vidas passadas e futuras. No bardo, Willie, que não consegue separar-se do pai, e Lincoln, que não consegue separar-se do filho, permanecem em contacto. Neste limbo vagueia uma imensidão de criaturas demasiadamente apegadas à sua existência anterior, como o próprio Lincoln, que, embora tão morto quanto os outros, tem de continuar a viver pelo bem do seu país. As vozes petulantes, nostálgicas e emocionadas desses espíritos fazem ecoar o contracanto da história.
Nesta conciliação da lógica e do absurdo, da ironia e do desespero, de factos reais e acontecimentos inventados, a tragédia e a farsa condensam-se numa realidade indiferenciada e contraditória. Como viver, amar e alcançar “algo grandioso”, sabendo que tudo acaba em nada? Talvez o nada seja precisamente a substância dos espetros de Bardo Loop na sua errância cíclica — sem propósito, sem fim. Será que algum dia conseguirão morder a cabeça da serpente?
CAM Fundação Calouste Gulbenkian
Sara De Chiara é historiadora de arte, crítica e curadora de arte contemporânea. Doutorou-se em história da arte pela Universidade Sapienza de Roma em 2022. Desde 2019, é responsável pelas publicações do Centre d'Art Contemporain Genève, onde também colabora em alguns projetos expositivos como investigadora e assistente curatorial. Contribuiu com ensaios para numerosos catálogos e monografias, colabora com diversas revistas de arte, entre as quais a Contemporânea, Frieze, Flash Art International e escreve no suplemento cultural do jornal italiano Il Sole 24 Ore.
Tradução do EN: Diogo Montenegro
Gabriel Abrantes, Bardo Loop (2024). Vistas da instalação no CAM — Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 2024. Fotos: Carbonara Studio. Cortesia do artista e Galeria Francisco Fino.
