Ed. 11 / 2018
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Ana Santos | Fernando Lanhas

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Carlos Vidal

Quando nos propomos visitar e analisar a presente exposição apresentada pela Quadrado Azul (Lisboa), de Fernando Lanhas (1923-2012) e Ana Santos (n. 1982), que é sobretudo uma “individual” a dois mais do que uma colectiva, sabemos que teremos diante de nós dois autores separados em práticas e carreira por várias décadas (ou, de outro modo, cerca de cinco gerações, pois assim, geracionalmente, também designamos formas diferentes de pensar e fazer). Ou então, sabendo que um destes artistas (Lanhas), foi um estudioso do tempo e da duração abordando a pintura como objecto de conhecimento (e não de prazer), podemos concluir que estamos diante de dois artistas de hoje, contemporâneos.

Creio mesmo que é assim que Ana Santos vê Fernando Lanhas, um dos seus interlocutores do (seu) tempo actual e, sobretudo, interlocutor na forma e génese das obras, pois ambos os autores são artistas da sedimentação das formas e das múltiplas experiências que geram formas: Lanhas cruzando gnosticismo, arte e arquitectura, Ana Santos cruzando escultura, desenho, instalação e um novo espaço e mundo táctil que é tanto de natureza artística quanto cultural. E é aqui que a sua obra, curta mas já muito longa e deveras impactante, ganha uma dimensão original: os seus problemas são mais “culturais” que exclusivamente “artísticos”, pois não há na autora forma sem uma busca incessante nas matérias, quase diria fenomenológicas, pois estas, as matérias, não se psicologizam nem apontam caminhos do que podem ou não vir a ser.

Ana Santos coloca-se como a autora que descobre a “vontade” de ser das matérias, um desígnio autónomo que a leva a apropriar-se do universo das coisas ou formas que não são propriamente esculturas. Lanhas, por seu lado, apropria-se de um sedimento de conhecimentos, científicos ou subjectivos, mas como um enciclopedista que, simplifiquemos, baralha e dá de novo.

Ou seja, investiga e cria, inventando uma arte-ciência-religião única onde tudo parece fugir a toda e qualquer arrumação disciplinar. Do mesmo modo sem classificação são as exposições e os objectos de Ana Santos, pois é o seu conjunto de objectos heteróclitos que faz esta obra ser aquilo que é, sendo aqui o carácter heteróclito, quer de um ou outro autor (e ambos o são, heréticos ou heterodoxos), evidente na obra parietal de um e espacial da outra.

Vejamos: há nesta exposição apenas duas obras de Ana Santos, como sempre rejeitando a titulação. O Sem título não é, como não é na restante produção da autora, um expediente, mas antes um convite à sensibilidade do espectador — este, acompanhado ainda de quatro telas de Lanhas, sente-se numa sala despovoada, pois as pinturas de Lanhas são invariavelmente de tonalidades terrosas, tons violeta rosados, ocres, azuis acinzentados, como se a terra os velasse: as formas são linhas rectas, permanentemente verticais e de largura mínima (diria, minimamente “informativas” de si mesmas), aparecendo por vezes linhas curvas ou círculos apenas para que os sintamos cada vez mais deslocados desta realidade; as obliquidades são severamente subtis; as cores terrosas advêm por vezes de tintas obtidas de pedras moídas, as mesmas que, de outras vezes, são intervencionadas como telas, também apenas com composições lineares (anos 50).

Uma única pintura parece aludir a uma imagem figurativa: um pássaro-cisne sempre geometricamente definido, por triângulos e um círculo ao centro. Do mesmo modo, Ana Santos promove uma e a sua extrema contenção (ou rarefacção — quanto a obras e montagem), mesmo quando os seus objectos parecem possuir algum “ruído”. Sublinho: as suas montagens, instalações ou objectos tendem permanentemente a funcionar por subtracção.

Aqui mostra duas esculturas, ou estruturas, tubulares em forma de “u” invertido (canalizações ou espaços de fluxos dispersivos nos extremos): mais do que algo identificável, ou com nome, são matérias — como sempre — desta feita de aço inox que parecem terminar em jorros ordenados de líquidos (ou “linhas” paralelas, estranhamente), em fios de poliéster coloridos. Vemos aqui apenas duas esculturas e três pinturas de Lanhas, o nosso gnóstico herético da abstracção, autor de uma pintura-estrutura-arquitectura que se transcende a si mesma na inclassificabilidade de vastas hipóteses de uma original abstracção “naturalista” (com seu ambiente cromático sempre terroso), Lanhas que avançou na realidade portuguesa contra todas as evidências e opiniões (e neste ponto é muito curioso ouvir o pessoano Adolfo Casais Monteiro que, valorizando apenas Vieira da Silva, dizia ser a abstracção uma impossibilidade em Portugal).

Noutro ponto de vista, esta exposição, ela própria, parece dobrar-se sobre si mesma, recorrendo apenas a uma sala da ampla galeria, o que nos conduz a atenção do espaço para cada peça exposta. Mas isso já Ana Santos teria feito na sua individual matryoshka (Quadrado Azul, Porto, 2017): em sala ampla e galeristicamente branca (citando Brian D’Oherty), apenas divisávamos três objectos, um deles, no espaço, anunciava estas estruturas tubulares, ou “canalizações” que terminam, num extremo, em fios amarelos de poliéster; numa longa parede, apenas uma estrutura-módulo, curiosamente seguindo uma matriz formal de Donald Judd, mas totalmente danificada e quase desfeita; a outra obra elevava, por meio de uma fita muito fina, dois parassóis, obra em movimento impulsionado por motor.

 Curioso: não poderíamos encontrar ou juntar três objectos mais distintos uns dos outros numa sala quase vazia. Na autora, também nesta exposição, os fios de poliéster juntam-se e completam objectos encontrados, um regular desenho bizarro que completa o que há para completar em estruturas familiares. Umas vezes regulares outras irregulares, estes fios já aparecem em obras de 2015 (mostradas no Porto e em Madrid).

Obras de depuração evidente que já marcavam a anterior exposição na lisboeta Quadrado Azul (2015): trabalhos de pequeno formato, como um desenho parietal de rocha granítica, deixando o espaço galerístico “respirar” entre as obras num tenso vazio.

A autora desta notável investigação, entre a depuração e a organicidade, adquire reconhecimento institucional desde 2012, com uma exposição individual no Chiado 8 (Lisboa) a que posteriormente junta as colectivas, muito significativas, 12 Contemporâneos — Estados Presentes (Serralves, 2014) e, antes, o Prémio EDP Novos Artistas 2013 (que vence).

Tanto em Lanhas como em Ana Santos as obras parecem inatas com intervenção mínima do seu autor, mas um elemento significativo parece-me separá-los: a preocupação, em Lanhas, com a ideia divina da “origem do Conhecimento” bifurca um caminho entre o pintor-astrónomo e a escultora objectualista. Mas uma poesia insondável da matéria volta a aproximá-los, num onirismo metafísico, digamos, que parece fazer com que as formas reedifiquem a natureza na galeria, uma natureza geometrizada, controlada, mas livre.

Ana Santos

Fernando Lanhas

Galeria Quadrado Azul

A exposição está patente até ao próximo dia 10 de novembro.

Carlos Vidal. Artista, crítico e professor. Trabalha entre Lisboa e Madrid. Licenciado em Pintura pela FBAUL, onde lecciona Temas da Arte Contemporânea, Pintura, Estudos de Pintura. Doutorado em Pintura com a tese "Invisualidade da Pintura: História de uma Obsessão (de Caravaggio a Bruce Nauman)", publicada em Portugal e Espanha (2 edições, Brumaria, Madrid). Representado em colecções particulares e institucionais (Museu de Arte Contemporânea-Serralves, Porto; MEIAC, Badajoz; CAV, Coimbra, etc). Publicou recentemente "Deus e Caravaggio: A Negação do Claro-Escuro e a Invenção dos Corpos Compactos" (1ª edição: 2011; 2ª edição: 2014; duas
edições espanholas: 2016, 2017).

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Ana Santos Fernando Lanhas. Vistas gerais da exposição. Quadrado Azul, Lisboa, 2018. Fotos: ©João Ferro Martins. Cortesia de Quadrado Azul. 

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