Ed. 10-11-12 / 2019
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 Ilhéstico: um roteiro de arte contemporânea para a cidade do Funchal

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José Marmeleira

 

No Funchal, uma comoção diante paisagem que cresce defronte. Não é a da natureza, mas a que os homens impuseram à ilha nos últimos quarenta, cinquenta anos. Encosta acima, sobre as vertentes e as ladeiras, desmesurada, cavada. Ali, com excepção da gravidade, nada resistiu à arrogância e ao orgulho humanos: pedra, rocha, solo, terra esventrados. Paisagem adentro e eis que se descobre outro tipo de gesto: mais delicado, discreto.  Que acrescenta, ou melhor, (re)pousa coisas novas sobre as que já existem. Um encontro, portanto, mas não apenas entre coisas. Afinal uma exposição de arte não se faz (ainda) sem o espírito e a convivialidade dos humanos. Ilhéstico a grande coletiva que celebra os 30 anos da Porta 33, espraia-se pelas ruas da cidade, entrando e saindo de museus, edifícios e casas, aparecendo em varandas, vitrines, jardins. Ilhéstico: a palavra nasceu da imaginação do curador, Miguel von Hafe Pérez.

Numa alusão ao termo que Álvaro Lapa cunhou para uma série de pinturas — Campéstico, uma conjugação de “campo” e “doméstico” — o título evoca a relação entre a Porta 33 e o espaço da ilha, representada pela cidade do Funchal. A primeira representa a casa, o espaço na qual todos se reúnem, enquanto a cidade é, em termos físicos, o lugar onde os trabalhos são colocados e, por assim dizer, libertados. Na esperança de virem a dar à costa, recebidos, vistos, lidos. O trabalho com a cidade não é uma actividade estranha ao comissário. Recorde-se que, enquanto responsável pela área das Artes Plásticas, Arquitectura e Cidade do Porto 2001, Capital Europeia da Cultura, comissariou Squatters/Ocupações, colectiva que, precisamente, levou uma série de projectos artísticos a apartamentos, lojas, espaços públicos, armazéns da cidade (para além da Casa de Serralves). Embora tal exposição e a presente se distingam, pressente-se a mesma sensibilidade mundana à vida na cidade, o gosto pelo trabalho coletivo, a espontaneidade na relação com os artistas. Mas Ilhéstico não poderia acontecer sem o estado de enamoramento em que Cecília Vieira de Freitas e Maurício Pestana Reis permanecem. Ao fim de tantos anos, este casal continua apaixonado pelas ideias, as obras e os artistas. Mostra, organiza, apresenta, convida, apoia. Em resumo, presta socorro. Grande parte da exposição está na cidade, mas começa e acaba na Porta 33.

São quarenta e cinco os nomes de Ilhéstico, todos com ligações fortes à Madeira. Alguns vivem no continente ou fora de Portugal, outras permanecem na Ilha. Sujeitos de origens e percursos desiguais, exploraram universos, questões, espaços, materiais, experiências. A cidade foi não apenas o pano de fundo, mas o mapa no qual criaram, inventarem outros mapas, de uma outra cidade. A intervenção Por um fio de Dayana Lucas (Caracas, Venezuela, 1987) é disso exemplar. A artista nascida na Venezuela (e atualmente representada pela Lehmann + Silva, no Porto) transfigurou a presença e a experiência do edifício Porfírio Marques Lda, na rua Conde Canavial. Com tecido de lona e aproveitando a estrutura de ferro existente, criou uma estrutura com a qual escondeu e recriou a varanda. Vemo-la e não a vemos. Sobre o tecido, linhas geométricas, pintada com a cor do dragoeiro, replicam os motivos botânicos da estatuária do edifício e expandem com o desenho, a arquitectura.

Entre o ver e o não ver, encontram-se, também, as propostas de Sara Tristão (Funchal, 1992), Roger Paulino (Funchal, 1986) e Bruce Paulino da Silva (Pretória, África do Sul, 1990). Sublinham sítios que a memória (colectiva e individual) nem sempre salva, espaços vulneráveis ao desaparecimento (no fluxo que tem como fim, sem fim, a acumulação do capital) ou à mutação violenta da cidade. No Mercador dos Lavradores, encontra-se a pintura de Roger Paulino, vibrante no seu grafismo pictórico, aproximando-se dos códigos da arte urbana, mas sem os reproduzir. Há nela uma desenvoltura e uma síntese, reminiscente de outro artista da ilha (Rigo 23), e um emprego da cor e do traço que dialoga com o bulício profano do lugar e com as imagens que o decoram (como a pintura em homenagem às vítimas da aluvião de 2010). Horizontal, sugere a presença de uma paisagem da qual vão despontando aqui e ali elementos escultóricos e pictóricos. Bruce Paulino da Silva opta por uma escala mais discreta, por meio de materiais que despertam o sentido háptico do espectador. Nas vitrines interiores e exteriores do Café Estoril, na Rua Major Reis Gomes Major, colocou objetos feitos de pigmentos e gesso. Coloridos, informes, remetem tanto para as ruínas reveladas de uma obra (ou de construção), como para um objeto artificialmente modelado. Sob o título de Stoneheld aparecem e desaparecem no estabelecimento, interpelando a atenção dos que entram e passam. A sua autonomia não é absoluta: isto é, o sentido da sua presença faz-se também com a descoberta do tempo que se foi sedimentando no mobiliário, nas paredes, nos objetos do café. 

Ilhéstico envolveu a cidade e se deixou-se envolver pela cidade.  

No jardim do Museu Quinta dos Cruzes, decorreu a performance Flutuações de Rodrigo B Camacho (Funchal, 1990) e Sara Rodrigues (Porto, 1990). A dupla foi recolhendo, em movimentos pausados, amostras de várias espécies vivas, de elementos orgânicos. Mediante tais gestos e a encenação associada – envergavam fatos protetores dos quais pareciam sair melodias de um requiem — convidaram os espectadores a assistir a uma elegia pela terra, pela ilha. Mais exuberante e telúrico, o concerto/performance de Daniel Melim (Coimbra, 1982) e Mariana Camacho (Funchal, 1993), congregou tradições e narrativas locais, improviso, música noise, Maximiano de Sousa, referências ao fluxus, à poesia Herberto Hélder. E assim, consagraram, na Capela de São Luís do Museu de Arte Sacra do Funchal, uma oferenda poético-musical à memória da Ilha, às suas despedidas e regressos.

A memória surge, também, na proposta de Martinho Mendes (Madeira, 1981) na Torre do Edifício dos Paços do Concelho da Câmara Municipal do Funchal. Trata-se de Na Condição de Ver Navios, composta de vários elementos e em que se cruzam a leitura poética do real e o trabalho com a memória social da Ilha. Melancólico, leve e ao, mesmo tempo, grave, inclui um volume tridimensional pintado de cor azul anil que reproduz a forma de uma rocha, e pequenos desenhos de monogramas que eram bordados para a estampagem de lenços de bolsos (numa invocação da atividade das bordadeiras da Ilha). Da Torre, onde foi colocado a exposição, avistam-se as ruas e as casas do centro da cidade e, ao fundo, o mar. Mas tal contemplação não se faz isolada do mundo. É mediada pela escultura e os desenhos, tem a companhia das vozes e das pessoas que Martinho Mendes invoca. 

Artista que terá em breve uma exposição no Módulo, em Lisboa, Nuno Henrique (Funchal, 1982) trabalhou com recortes curvilíneos em chapa de vidro, areia das praias do arquipélago da Madeira e luz natural. Destes materiais, e recorrendo à fundição e à gravura, produziu Mar Vertical, conjunto de esculturas a que o desenho, a cor e a superfície vítrea dão a o aspeto de pequenos vitrais. Vemo-los na Casa Museu Frederico de Freitas, seguros pela areia das praias, sobre plintos baixos, rentes ao chão. Dos trabalhos de Ilhéstico, é um dos que mais afirma a ligação ao espaço museológico, não deixando, por isso, de remeter para experiência da paisagem e para os elementos naturais do lugar. Dir-se-ia que aparece entre a ilha e os protocolos da arte. Ora é precisamente esse intervalo que surge representado na exposição na Porta 33. No interior da galeria (que é um lugar residências artísticas) e estes e outros artistas mostram os outros lados, caminhos e possibilidades das suas obras. Regressam ao espaço da arte, afastam-se um pouco do quotidiano, da vida de todos os dias, dos outros objetos. E, assim, lembram-nos que o que fazem também existe para lá da Ilha.

Longe ou perto desta, dos seus elementos naturais ou histórias, Ilhéstico é uma paisagem construída, mas consciente da sua discrição, da sua inefável efemeridade. Existe apenas para ser vista, percorrida, encontrada. Sem desmesura ou arrogância.

Porta 33

José Marmeleira. Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação Para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

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Ilhéstico: um roteiro de arte contemporânea para a cidade do Funchal. Imagens de várias iniciativas e actividades. Funchal, Madeira, 2019. Cortesia Porta 33. Foto nº 9 do slideshow: © João Almeida.

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