4 / 16

Tempo líquido – Um diálogo de vídeos das colecções Maria & Armando Cabral e Cal Cego 

upload-47c13a80-b354-11e7-913a-098086cab703.jpg
Isabel Nogueira

O Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas, em São Miguel, Açores, tem patente, sob curadoria de Carolina Grau, a primeira exposição exclusivamente dedicada ao vídeo. Esta mostra reúne uma escolha cuidada, realizada a partir das Colecções Maria & Armando Cabral (Lisboa) e Cal Cego (Barcelona), integrando obras dos seguintes artistas: Alicia Framis, André Romão, Bruce Nauman, Cory Arcangel, David Bestué & Marc Vives, Doug Aitken, Douglas Gordon, Ignacio Uriarte, João Onofre, Muntadas, Nuno Cera, Perejaume, Peter Fischli & David Weiss e Rui Toscano. A escolha das obras e a montagem apresentam-se coerentes e oportunas.

Do ponto de vista conceptual, a modernidade e a sua complexidade são os fios condutores desta exposição, nomeadamente, e também, pela assumida evocação de Zygmunt Bauman e da sua conhecida obra Liquid Times: Living in an Age of Uncertainty (2006). Neste texto, o filósofo polaco questiona a modernidade, e eventualmente a pós-modernidade – que entendemos como uma fase da modernidade, de autoconsciência crítica da própria modernidade, e não propriamente uma nova época histórica –, nas relações políticas, amorosas, vivenciais, na própria relação com a arte. Aliás, a questão da volatilidade inerente ao “estado líquido” ocupa um lugar de destaque no pensamento de Bauman. Atentemos, por exemplo, nas obras Liquid Modernity (2000), Liquid Love: On the Frailty of Human Bonds (2003), Liquid Life (2005).

Quanto à questão da modernidade, Anthony Giddens, por exemplo, responde a “o que é a modernidade?” como os modos de organização social que emergiram na Europa, cerca do século XVII, e que adquiriram uma influência mais ou menos universal. Trata-se da crença no progresso e na ideia linear e irreversível do tempo. Embora, claro, não necessariamente de um “tempo líquido”. Mas, a verdade é que já Baudelaire tinha definido – e bem – a modernidade como algo de transitório, fugidio, mutável. Ou seja, será que a liquidez é apenas uma característica do nosso tempo, sobretudo desta pós-modernidade, como entende Bauman? A história e a arte são orgânicas, nada está em repouso, como também nos dá a ver esta exposição. Nesta senda, se atentarmos, por exemplo, no capítulo “Morte ou ocaso da arte” (La fine della modernità, 1985), Gianni Vattimo chama a atenção para o “fim da arte”, no seu sentido tradicional, naturalmente, ser algo com que temos de contar, quase com um carácter profético. A arte já não existe como fenómeno específico, recusando enquadrar-se nos limites preconizados pela tradição, nomeadamente na sua forma e na sua apresentação, além da sucessiva superação dos limites conceptuais. É também este um aspecto que podemos conectar com a mostra em causa, com os vídeos a pontuarem geografias e momentos históricos, sociais, vivenciais.

O questionar a modernidade, sobretudo através da perspectiva da pós-modernidade, é recorrente desde o final dos anos setenta, nomeadamente com o lançamento público deste debate, com Jean-François Lyotard, Jürgen Habermas, Richard Rorty, David Harvey, entre outros. A inquietação paira no ar. Sabemos que Hegel e Karl Marx admitiram o “fim da história” — num sentido teleológico — que ocorreria no momento em que as sociedades atingissem a sua plenitude evolutiva. Para o primeiro, este estádio coincidiria com o liberalismo; para o segundo, com o comunismo. Daqui podemos aferir que a meta-narrativa marxista terminou, como também entendeu Lyotard, já que a meta das sociedades pós-industriais seria o triunfo do liberalismo económico e político nas sociedades ocidentais, como Francis Fukuyama de um modo auspicioso observou num artigo de 1989. Marshall Berman na obra All that is solid melts into air: the experience of modernity (1982), e segundo uma visão sobretudo neomarxista, debruçou-se sobre a modernidade enquanto algo orgânico, em permanente desintegração e integração, em angústia de ser e deixar de ser, ou, por outras palavras, o indivíduo fazer efectivamente parte de um universo no qual “tudo o que é sólido se dissolve no ar”. E voltamos, por conseguinte, às ideias de estilhaçamento, dissolução, liquidez.

upload-45b34210-b354-11e7-913a-098086cab703.jpg
Tempo Líquido. Vista da exposição Arquípelago - Centro de Artes. Na imagem: vídeo de Douglas Gordon e Alicia Framis. Foto Rui Soares. Cortesia de Arquípelago - Centro de Artes.

Neste contexto e problemáticas situamos os vários artistas desta exposição e as suas obras. Um vídeo de Ignacio Uriarte apresenta uma estante a ser preenchida e esvaziada com dossiês/arquivadores, numa qualquer aceleração burocrática de um determinado quotidiano. De Douglas Gordon é mostrado um feliz vídeo com um infeliz elefante de circo a obedecer às ordens repetitivas que lhe são dadas. Um vídeo de Nuno Cera apresenta a decadência de um edifício modernista icónico, o Unité d’Habitation, de Le Corbusier, em Berlim. De entre as peças, todas, a seu modo, artisticamente relevantes, destacamos duas. A primeira, o magnífico Der Lauf Der Dinge (The way things go, 1987), de Peter Fischli & David Weiss, uma instalação montada num grande armazém e posteriormente filmada, de modo a que cada acção tem uma reacção, e assim sucessivamente, durante cerca de trinta minutos. A segunda, o belo vídeo de João Onofre (Untitled/n'en finit plus, 2010-11), mostrado na cave do edifício, que faz ecoar a canção La nuit n'en finit plus, da autoria de Jacques Plante e originalmente interpretada por Petula Clark. O tempo fica suspenso numa modernidade subitamente sem tempo.

E voltamos ao início de tudo. Voltamos a questionar a modernidade, os seus desígnios, os seus filões políticos, sociológicos, humanistas, ecológicos, artísticos. Voltamos à ideia linear e irreversível do tempo que, independentemente de ser líquido, é seguramente implicativo, orgânico, desafiador. Por falar em tempo, é menos uma hora nos Açores.

 

Isabel Nogueira

(n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

a autora escreve de acordo com a antiga ortografia

 

Arquípelago - Centro de Artes Contemporâneas

 

Encontra-se, igualmente, patente no Arquípelagoa exposição "Catarina Branco". + info

 

A autora viajou a convite de Arquípelago - Centro de Artes Contemporâneas.

Voltar ao topo