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Inés Moldavsky: WALL גדר جدار 

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Sara Castelo Branco

 

 

Numa experiência realizada sob o signo do limiar (não apenas pela sombra do limite, mas do princípio e ponto de partida de algo), a artista e cineasta argentino-israelita Inés Moldavsky (1987, Buenos Aires) recorreu a aplicações de dating para estabelecer contactos com homens palestinianos que vivem em Gaza e na Cisjordânia, enquanto esta se encontrava em Israel. O muro entre os dois estados foi assim superado pela virtualidade desterritorializada da Internet e das conversas telefónicas, e posteriormente através de diversos encontros presenciais que a artista teve com alguns destes homens. Esta é a base de Wall גדר جدار, exposição de Inés Moldavsky na Galeria Municipal do Porto, uma curadoria de Guilherme Blanc, onde a condição do encontro é assinalada na própria forma do título da exposição, onde num mesmo plano se deparam o inglês, o hebraico e o árabe palestiniano. Mas a maior expressão desta ideia de encontro talvez aconteça num dos vídeos em que a artista pede a Ahmad, um dos homens com quem se encontra em Nablus, que traduza para árabe palestiniano diversas palavras inglesas: a tradução de expressões como ‘injustiça histórica’, ‘dor’, ‘ansiedade’, ‘amor’, ‘medo’, ‘solidão’, ‘poder maior’, ‘relações de poder’, ‘vingança’, ‘compaixão’, ‘humilhação’, ‘compaixão’ ou ‘trauma’ parece inscrever uma experiência comum na forma como as culturas lidam transversalmente com fenómenos enraizados na memória colectiva. A tradução é uma dimensão constitutiva e um espaço simbólico de identificação que ocupa um lugar de passagem, de um a outro, sendo inerentemente mediadora entre culturas distintas. A partilha de palavras e sentidos entre uma israelita e um palestiniano convoca assim o que se pode comunicar e o que não é comunicável, mas também o que se (re)produz como significado no processo de tradução: a possibilidade de construção de sentidos e de relações.

Numa observação sobre a sedução, o respeito e a igualdade nas ligações humanas em contexto de conflito, Wall גדר جدار propõe, de forma sensível e livre, um incitamento desta potencialidade da comunicação e do encontro, procurando desta forma transpor fronteiras sociais, culturais, políticas ou espaciais.

A exposição Wall גדר جدار resulta de um convite feito a Inés Moldavsky para revisitar e expandir instalativamente o seu filme de expressão documental The Men Behind the Wall (2018), vencedor do Urso de Ouro na Berlinale: Festival Internacional de Cinema de Berlim. O filme realiza-se num tensionamento físico e simbólico entre a proximidade e a distância; a artista encontrou-se com diversos homens a viver na Palestina através de aplicações de dating, como o Tinder e o OkCupid, que ignoram noções de etnia, religião ou nacionalidade, para usarem o motivo da localização como factor de encontro. Embora esta proximidade geográfica esteja inviabilizada neste território por limitações geopolíticas, a dupla nacionalidade de Moldavsky permitiu-lhe usar o seu estatuto internacional para conseguir passar a fronteira e ir a território palestiniano. Nos encontros telefónicos ou presenciais que deteve com estes homens, a artista desenvolveu um conjunto de conversas enternecedoras, engraçadas, tristes e provocadoras. Embora houvesse uma tensão contínua na forma como cada palavra era colocada e ouvida, e a própria artista se tenha tornado objecto da sua investigação ao experienciar sozinha o espaço desconhecido da Palestina, nunca houve um sentido de ameaça ou discriminação por parte dos homens com quem se encontrou.

The Men Behind the Wall foi fragmentado em diferentes vídeos para a exposição Wall גדר جدار: um movimento que vai do filme e além deste, dado que se trata de um exercício instalativo que expande a obra fílmica através de um aproveitamento do material original, mas também pela adição de novas entrevistas, filmagens urbanas e conversas telefónicas. Ao jogar com a ideia de fronteira e com o que se pode (ultra)passar, o percurso pela exposição é feito num espaço de muros sem paredes, invocando simbolicamente os diversos caminhos e posições que podemos tomar perante uma dada realidade. Partindo deste espaço físico enquanto lugar alegórico sobre as questões que alicerçam a exposição, Wall גדר جدار é composta por diversos ecrãs pequenos que apresentam alguns dos encontros da artista com homens na Palestina, e que são visualmente sobrepostos sobre projecções maiores com imagens de paisagens urbanas, situações de confronto, o interior quotidiano de um café ou a presença da própria artista captando som no meio do trânsito ou à frente do muro. Esta ideia de sobreposição (imagética e sonora) implica similarmente uma noção de simultaneidade: algo que se realiza ao mesmo tempo, num exercício do olhar que não é unidirecional, mas múltiplo e concretizado em diversas camadas. O olhar que se move para o todo, ou a imagem e o som que estão sempre no fundo de algo, geram uma sensação que expressa o mesmo estado existencial complexo e multíplice que delimita a identidade deste conflito entre judeus israelitas e palestinianos. Por outro lado, há uma activação do espaço através dos movimentos realizados pelos visitantes e uma dimensão trans-ecrã em que a linearidade diacrónica é desprivilegiada face a uma extensão sincrónica de vários fluxos revelados em paralelo.

As imagens e os visitantes são portanto reconfigurados como uma passagem — reproduzindo essa mesma experiência fronteiriça que existe enquanto no ponto de partida da exposição.

A disposição instalativa de Wall גדר جدار impõe identicamente uma espacialidade de aproximação, que se liga aqui de forma simbólica à ideia de intimidade: os vídeos onde aparecem os encontros só podem ser ouvidos individualmente por auriculares, reproduzindo assim a própria experiência de um para um da cineasta. De modo semelhante, a audição das chamadas telefónicas é realizada ao fundo da sala, numa zona reservada, escura e sem imagens, reproduzindo uma experiência paradoxal de maior intimidade e desinibição, pois o que se diz pessoalmente difere do que se fala à distância. Por outro lado, esta exposição desvia-se do tratamento da questão do género a partir de um entendimento sexista, mesmo que as suas ambivalências vacilem de forma latente ao longo dos vídeos: sob as manifestações dos mecanismos de desejo, o homem e a mulher encontram-se nestes vídeos num plano proporcional, e, inclusivamente, quando a artista entra no campo visível dos filmes é com frequência para dirigir a posição dos homens perante a câmara (e paradoxalmente confrontar-nos com a realidade). Se o termo estereótipo vem das palavras gregas stereo (rígido) e tipo (traço) referindo um “tornar fixo, inalterável”, esta fixidez é aqui desconstruída por um deixar afectarse pelo outro, num movimento que se dá na descoberta com a identificação e a diferenciação. Estes vídeos revelam portanto um descentramento do eu e uma integração do outro que incitam a uma realidade comum, em que a produção de uma co-presença desconstrói percepções distorcidas através de conversas francas, cândidas, provocadoras, confessionais e conversacionais.

A origem latina do termo fronteira designa parte de um território situado em frente. A sua ascendência histórica indicia que esta palavra não estava ligada a relações de poder legais, políticas ou intelectuais, mas a um fenómeno espontâneo de sinalização da margem de um mundo habitado. Wall גדר جدار convoca esta ideia de fronteira como lugar que tende mais à expansão do que à delimitação: como espaço de transgressão de limites políticos, religiosos, culturais ou de género que se realiza pelo “poder de ignorar fronteiras físicas, de romper tabus sociais e de expandir os limites artísticos”[1]. Sobre o longo conflito entre judeus israelitas e palestinianos, Edward Said afirmou que estes  estados existem “presos na visão do inferno do Sartre, ou seja, que o inferno são os ‘outros’”[2]. Ao solicitar inversamente uma existência marcada pelo encontro com o outro, Wall גדר جدار desempenha uma gestão de visibilidades — físicas e simbólicas — em que a sombra da ocultação do muro dá lugar à possibilidade de abrimento pela coexistência. Retomando a questão da tradução que principia o texto, embora as palavras em cada língua tenham acepções distintas, quando se considera a língua enquanto todo, aludimos sempre a sentimentos semelhantes: “tomadas em termos absolutos, elas significam a mesma coisa”[3]. Esta ideia de partir do particular para um geral comum presentifica-se justamente numa das chamadas telefónicas que se ouve na exposição, onde um dos homens diz à artista: “não importa quão diferentes sejamos como pessoas, sempre temos alguns pontos em comum entre nós (...) é muito bizarro que estejamos a viver muito perto um do outro, e é um país muito pequeno, e não sabemos nada um sobre o outro” — Wall גדר جدار procura a possibilidade deste entendimento além dos limites e pelo encontro.  

 

Inés Moldavsky

Galeria Municipal do Porto

 

Sara Castelo Branco é Doutoranda em Ciências da Comunicação/Arts et Sciences de L’Art na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL e na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Mestre em Estudos Artísticos – Teoria e Crítica da Arte pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto (FBAUP) e licenciada em Ciências da Comunicação e da Cultura (ULP). Na área da crítica e da investigação sobre as áreas do cinema e da arte contemporânea, tem colaborado regularmente com textos para revistas, catálogos e outras publicações de âmbito académico e artístico.

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

 

 

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Notas:

 

[1] Citação da artista em texto presente na folha-de-sala da exposição Wall גדר جدار.

[2] Said, Edward. 2003. Cultura e Política. São Paulo: Boitempo Editorial, p. 109.

[3] Benjamin, Walter. 2001. A Tarefa-Renúncia do Tradutor. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, CCE/DLLE- Núcleo de Tradução, p. 199.


 

Imagens: Inés Moldavsky: WALL גדר جدار : Vistas gerais da exposição na Galeria Municipal do Porto. Fotos: Renato Cruz Santos. Cortesia da Galeria Municipal do Porto.

 

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