Ed. 06 / 2018
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André Romão: Fruits and Flowers 

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Alejandro Alonso Díaz

‘’De formas mudadas em novos corpos leva-me o engenho a falar” escreveu Ovídio no primeiro verso das Metamorfoses (século VIII a.C.). Em Fruits and Flowers, a sua mais recente exposição na Galeria Vera Cortês, o artista português André Romão mostra-nos escaravelhos, lapas, mexilhões, percebes e corais que vivem nas concavidades e superfícies de composições escultóricas. Para oferecer um ambiente a estes organismos, Romão montou no meio da galeria três estruturas de plexiglas transparente construídas a partir das dimensões e formas da série Billy do IKEA, cada uma intitulada de modo frio e descritivo: head-sculpture-rock, 2018; beetle-snake-column, 2018, e habitat I, 2018. Mas estas esculturas são criaturas. Objectos inscritos em fenómenos naturais, modelados para se tornarem parte da terra, restos de estratos geológicos, metanol e ossos, injectando vida nestas novas formas. O seu suposto estatismo é uma provocação à nossa noção antropocêntrica de passividade, e o seu período de vida apresenta um ritmo diferente do da maior parte dos bens efémeros e passageiros que rodeiam os nossos corpos moles.

Nestas composições minimalistas e orgânicas, Romão enquadra a fragilidade da vida natural no convencionalismo métrico («Calcula-se que, a cada cinco segundos, uma estante BILLY é vendida algures no mundo.» indica o site do IKEA bem como o press release da exposição), num gesto que é tão metódico quanto poético.

Estas formas são como os poemas carnais de Ovídio, feitos de materiais que seduzem mais do que repelem, contêm a beleza brutal do apodrecimento e da decadência.

As peles escorregadias e os corpos transpirados dos moluscos e das substâncias sintéticas coexistem como se fossem criaturas oceânicas de um sonho do futuro. “Como podem os humanos confiar a informação que adquiriram a objectos inanimados, como um papel ou uma pedra? É sabido que estes objectos estão sujeitos à segunda lei da termodinâmica, segundo a qual devem decompor-se e serem esquecidos. Neste abismo, onde tudo está mergulhado em sedimentação e submerso em fluído, a impermanência e a precariedade de todos os materiais inanimados tornam-se, de facto, mais aparentes do que na superfície relativamente morta dos continentes, onde ossos descolorados podem circular durante séculos”. Esta é uma citação do livro Vampyroteuthis Infernalis [1] de Vilem Flusser, que, apesar de não ter sido mencionada pelo artista, é uma referência que nos fala sobre o ciclo transformador da existência.

Encontra eco no interesse de Romão pela fluidez do humano, do cultural, animal e mineral enquanto um corpo complexo que atravessa o tempo e que se transforma em corpos híbridos e mutáveis.

A materialidade está estruturada tal como uma concha de Nautilus, na qual as narrativas se encontram circunscritas dentro de uma forma espiral, contidas umas nas outras. As esculturas de Romão estabelecem relações intrincadas entre Surrealismo, ecologia, simbolismo e o Barroco, persistindo também na herança corrompida do Iluminismo. Em head-sculpture-rock, 2018 (uma cabeça colonizada por mexilhões, percebes, e alguns outros moluscos dispostos sobre o topo da estante BILLY), não é definitivamente apenas o humano quem domina este estranho sonho aquático. Estou certo de que a imaginação genial de René Magritte está algures à espreita, na sombra, talvez à conversa com um corpo híbrido de peixe a meditar na areia [2]. Sonhar e pensar a partir de uma espécie de surrealismo aquoso torna as situações subaquáticas estranhamente mais reconhecíveis, partindo de uma forma de vida primitiva na água em direcção a um ser linguístico.

And in the last days

There will still be no flowers –

Just rings, no fingers [3]

Por entre as misteriosas esculturas transparentes, quatro poemas estão meticulosamente colocados nas paredes do espaço da galeria, seguindo a sequência dos ritmos da Terra, um para cada estação do ano. A sua métrica segue uma convenção para Haiku em língua inglesa (5-7-5), em que cada verso não excede a duração de uma respiração, replicando a natureza frágil e efémera das esculturas. Serão estes poemas, formalmente bastante contidos, um corpo linguístico, uma espécie de órgão fluído? Aqui, num total de apenas 68 sílabas repartidas em quatro poemas, Romão consegue fazer uso da fisicalidade da linguagem para abordar e criar tensões dentro das grandes questões e dicotomias do universo - entropia e coesão, intimidade e universalidade, natureza e cultura, materialidade e metafísica. Four Poems torna-se uma declaração incisiva que é, na sua essência, um macrocosmos transformado em métrica controlada, um contentor visceral de mundos internos e externos.

Ao sairmos da galeria, deparamo-nos com o último trabalho da exposição, abundância, 2018, uma composição de seis fotocópias em papel, dispostas como se fossem pósteres de concertos nas paredes de uma cidade. A forma deste bouquet de flores poderá fazer lembrar o tradicional género da natureza-morta, em especial o da escola holandesa. Contudo, estas flores são bem menos exuberantes, sugerindo a essência particularmente decadente de uma planta sem raíz. Frutas e flores são os órgãos sexuais das plantas, e foram sempre símbolo da sexualidade, mas depois de ver as outras peças da exposição vêm à mente as composições de certa forma eróticas de Giuseppe Arcimboldo, o pintor italiano famoso pelos seus retratos feitos inteiramente a partir de frutas, vegetais, flores e peixes. Mexilhões, palavras, escaravelhos, frutas e flores que existem numa dança subtil de relações eróticas. Estes organismos, cuidadosamente alojados em ambientes frios, nem sempre são eles próprios os sujeitos, mas representam, pelo contrário, as transformações que operam nas nossas mentes. Deste modo, a imaginação pode prosperar ou morrer enquanto os organismos continuam as suas viagens e transformações.

André Romão

Galeria Vera Cortês

Alejandro Alonso Díaz é curador e investigador sediado em Barcelona. Actualmente dirige o espaço de investigação artística fluent (Santander). Recentemente foi curador e participou em projectos para PAK///T, Amsterdam; EGEAC, Lisboa; Bienal de Performance, Atenas; Fundación Botín, Santander; Tenderpixel, Londres; Chisenhale, Londres y Whitechapel gallery, Londres. Os seus textos têm sido publicados em Frieze, Mousse, Terremoto e Concreta, entre outros.

 

Tradução do inglês por Gonçalo Gama Pinto

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André Romão: Fruits and Flowers

‘‘Of bodies changed to other forms I tell” wrote Ovid in the first verse of Metamorphosis (8 AD). In Fruits and Flowers, his latest exhibition at Vera Cortês, Portuguese artist André Romão shows us beetles, limpets, mussels, barnacles and corals living in the cavities and surfaces of sculptural arrangements. To supply a setting for these organisms, Romão pitched three transparent plexiglass structures built after the dimensions and shapes of IKEA's Billy series in the middle of the gallery, each titled in a descriptive and cold manner: head-sculpture-rock, 2018; beetle-snake-column, 2018 and habitat I, 2018. But these sculptures are creatures. Objects inscribed in natural phenomena, modeled to become part of earth, leftovers from geological strata, methanol and bones breathing life into new shapes. Their supposed statism is a confrontation to our anthropocentric notion of passivity, their lifetime performs a different rhythm than most of the transitory and passing goods surrounding our soft bodies.

In this minimalistic and organic compositions, Romão frames the fragility of natural life in metric conventionalism («It is estimated that every five seconds, one BILLY bookcase is sold somewhere in the world.» states IKEA’s website and so it does the exhibition’s press release), in a gesture both methodical and poetic. But these forms are like Ovid's fleshy poems, made of materials that seduce rather than repel, they contain the gross beauty of rottenness and decadence. The slippery skins and sweat bodies of molluscs and synthetic substances coexist as if ocean creatures from a future dream. ‘‘How can humans entrust their acquired information to inanimate objects like paper or stone? It is well known that these objects are subject to the second law of thermodynamics, according to which they must decompose and be forgotten. In his abyss, where everything is mired in sedimentation and where everything is submerged in fluid, the impermanence and unreliability of all inanimate materials in fact become more apparent than on the relatively dead surface of the continents, where bleached bones can lie around for centuries’’. This is a quote from the book Vampyroteuthis Infernalis [1], by Vilem Flusser which even if not brought by the artist himself, is a reference that tells us about the transformative cycle of existence.

It echoes Romão’s interest in the fluidity of the human, cultural, animal and mineral as a complex corpus passing through time and transformed into mutable, hybrid bodies.

Materiality is structured like a nautilus shell in which narratives are circumscribed within a spiral shape, contained within one another. André’s sculptures draw intricate connections between Surrealism, ecology, symbolism and The Baroque as well as persisting on the corrupt legacy of Enlightenment. In head-sculpture-rock, 2018 (a head colonised by mussels, barnacles, and some other molluscs resting on the very top of a BILLY bookcase), it’s definitely not just the human who plough through this odd aquatic dream. I’m sure the brilliant imagination of René Magritte is lurking somewhere in the shadows, arguing, perhaps, with a fishy body meditating on sand [2]. Dreaming and thinking from a kind of watery surrealism that, weirdly makes the underwater situations all the more recognizable, departing from the primigenius life in water towards linguistic being.

And in the last days

There will still be no flowers –

Just rings, no fingers [3]

Among the mysterious transparent sculptures, four poems are meticulously arranged over the walls of the gallery space. Following the sequence of Earth’s rhythms, one for each season of the year. Their metric is a convention for English language Haikus (5-7-5), in which each verse lasts no longer than a breath, replicating the ephemeral and fragile character of the sculptures. Are these poems, widely contained in form, a linguistic flesh? a fluid organ of some kind? Here, in a total of only 68 syllabes spread in four poems, Romão manages to use the physicality of language to address and create tensions within the universe’s greatest questions and dichotomies —entropy and cohesion, intimacy and universality, nature and culture, materiality and metaphysicality. Four Poems becomes a poignant statement that is, in essence, a macrocosm turned into contained metrics, a visceral container of inner and outer worlds.

As you leave the gallery, you encounter the last work of the exhibition, abundância, 2018, a composition of six Xerox photocopies on paper, displayed as if concert posters on city walls. The shape of this flower bouquet might be reminiscent of the traditional still life genre, particularly of the Dutch school. However, these flowers are much less exuberant, suggesting the particular decadent essence of an unrooted plant. Fruits and flowers are the sex organs of plants, and they have always been symbolic of sexuality, but after seeing the other works in the exhibition, the somehow erotic compositions of Giuseppe Arcimboldo, an Italian painter famous for his portraits made entirely of fruits, vegetables, flowers and fish, come to mind. Mussels, words, bettles, fruits and flowers existing in a subtle dance of erotic relations. These organisms, carefully housed in cold environments, are not always the subjects themselves, but instead stand for the transformations that they generate in our minds. This way imagination can flourish or perish while the organisms continue their journeys and transformations. 

Alejandro Alonso Díaz

André Romão

Galeria Vera Cortês

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Images: André Romão. Exhibition view: fruits and flowers, Galeria Vera Cortês, 2018. Courtesy by the artist and Galeria Vera Cortês. Photo: Bruno Lopes.

Notas:

[1] Flusser, Vilém and Bec, Louis (Translated by Valentine A. Pakis), Vampyroteuthis Infernalis. University of Minnesota Press, 2012.

[2] See: René Magritte, L'invention Collective (1934).

[3]André Romão, Four Poems (extract), 2018 (4 of 4).

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