Ed. 06-07 / 2019
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Ramiro Guerreiro: Moi aussi...

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Antonia Gaeta

o peso das palavras  

o sentido das coisas

Antonia Gaeta (AG): Moi aussi, je me suis demandé si je ne pouvais pas vendre quelque chose et réussir dans la vie… é o convite que Marcel Broodthaers fez para a sua exposição na Galerie Saint Laurent em Abril de 1964 (para ser mais precisa, de 10 a 25 de Abril de 1964). O título que dás à tua primeira exposição individual na Galeria Lehmann + Silva é o mesmo. A pergunta que segue é óbvia mas obrigatória e, exactamente, por isso é importante fazê-la: quais as analogias, pontos em comum, démarche de ideias/trabalhos, momento profissional que eventualmente poderás estar a partilhar ou que sentes que te aproxima com o Moi aussi de Broodthaers? 

Ramiro Guerreiro (RG): Há uma boa coincidência entre o momento em que exponho, pela primeira vez representado por uma galeria comercial, e o momento em que Broodthaers expõe artes plásticas pela primeira vez, igualmente numa galeria comercial: tenho a mesma idade que Broodthaers tinha então. Desde logo uma inevitável identificação com a primeira página do convite em que ele diz "Também eu me tenho perguntado se não poderia vender qualquer coisa e vencer na vida. [...] Tenho quarenta anos..."

Eu não publiquei poesia antes desta exposição, mas também gostaria de vender alguma coisa e vencer na vida. O título desta exposição traduz-se por "Também eu...". Aqui as reticências são importantes porque remetem para as ideias "Também eu me perguntei se não podia vender qualquer coisa..." ou "Também eu tenho 40 anos..." ou várias outras possibilidades de terminar o "Também eu...", quer através dos conteúdos copiados do convite de 1964, quer através da adaptação que fiz para o contexto actual.

Quis também prestar tributo à fina ironia de Broodthaers a partir de um lugar de respeito e reverência. Tenho uma grande admiração por vários trabalhos que compõem a sua obra, desde o marcante Musée d'Art Moderne, à sua entrevista com um gato, passando por outros projectos como a exposição que ele intitulou Décor — A Conquest by Marcel Broodthaers ou Un Jardin d'Hiver, chegando ao desenho da sua própria lápide tumular.

Ou seja, como nos posicionamos neste meio, o que queremos interpelar ou como podemos ser o curador do seu próprio trabalho...

AG: O pensamento é constituído por palavras e imagens. Mas o que se consegue expressar por palavras e o que está circunscrito às imagens difere. Com as palavras pressentimos uma acumulação, com as imagens (e por imagens refiro-me também a objectos) uma totalidade. A formalização do teu trabalho na exposição parece-me ser exemplo desta dicotomia entre acumulação e totalidade. Penso no TINA Pamphlet (ou panfleto TINA) em contraposição com a foto ou o banco de azulejos. Queres falar disso?

RG: Tenho sempre muitas coisas a vaguear na cabeça. Às vezes quero expôr tudo ao mesmo tempo e o processo passa por limpar e seleccionar o que faz mais sentido expôr.

Não sei se percebo exactamente essa analogia entre palavras/ acumulação e imagens/ totalidade, mas concordo que há normalmente alguma dicotomia na formalização dos meus projectos: até que ponto quero continuar a acrescentar camadas e quando é que é preciso parar e/ ou reduzir os elementos pensados para o conjunto de um projecto.

Na folha de sala para Moi aussi... escrevo sobre vários assuntos entre os quais a indistinção hierárquico-funcional dos objectos presentes na galeria, que compõem o todo deste projecto. Há de facto uma acumulação de várias coisas que procuram formar um ambiente comum na sala onde exponho.

AG: Quando vi o desenho do espaço expositivo para Moi aussi pensei logo num exemplo clássico do Husserl que diz que se temos à nossa frente um cubo, conseguimos ver só algumas faces, mas se o movemos aparecem outras e temos novas sensações.

RG: Quando visitamos um espaço, não temos necessariamente uma percepção global desse mesmo espaço, mas pontos de vista diferentes consoante o sítio em que estamos. A tua observação dá-me vontade de inverter esse princípio para o lado do visitante de um lugar — não é o cubo que mexe, mas o visitante que se mexe dentro do cubo. É a partir dessa situação móvel do observador/ habitante (ainda que temporário) que procuro desenvolver (praticamente todos) os projectos em que exponho individualmente, este incluído. Dependendo das situações, projectos e lugares isso pode dar azo a alguma confusão em que visitantes já pensaram que certos trabalhos não me pertenciam por acharem que as divisões e barreiras visuais entre várias peças diferenciavam autores... (aconteceu por exemplo na exposição Austerity - International Style - Spring/ Summer 2016, que fiz na Künstlerhaus Bethanien em 2015, onde, através de cortinas, dividi o espaço em três, mas não será esse o caso em Moi aussi...).

Interessa-me a criação de vários momentos dentro de uma exposição, porque enquanto espectador é isso que experienciamos — mesmo que seja um único espaço. Se olhamos num momento para uma determinada parede não vemos aquela que está atrás de nós, e por aí fora.

Nesta instalação isso acontece de novo, quando olhamos com atenção para os desenhos do panfleto não vemos as plantas que estão à sua frente e é quando nos viramos para a parede oposta que vemos a minha resposta ao acto de expor aqueles desenhos dentro da galeria.

Quando projecto as mostras individuais há sempre esta questão do corpo do visitante/ espectador no espaço — a variação de momentos, a inter-relação entre a retina (as imagens que vemos) e a própria experiência corpórea do espaço que visitamos. Para mim são coisas quase indissociáveis e por isso a ideia de que ao vermos imagens de instalações temos alguma percepção do que lá está me parece uma completa falácia, dado que o nosso corpo não habita um espaço nem o sente através de imagens vistas num ecrã ou impressas em folhas de revista. É a experiência do próprio corpo num determinado espaço que mais me interessa em várias situações e que aqui é de novo importante.

AG: Vejo Moi aussi... como uma construção temporal. A imagem que temos dela é produzida tanto por sensações imediatas como por souvenirs, lembranças de projectos já realizados ou um interesse latente subjacente ao teu trabalho. Parece-me, ainda, que estas informações actualizam-se no tempo consoante o grau de maturidade e de tempo que dás a cada trabalho para existir — primeiramente na tua cabeça enquanto ideia, depois numa folha de papel e a seguir como objecto. Concordas com isso?

RG: Sim, acho que para algumas pessoas o confronto com este projecto pode ser uma surpresa pelos materiais que apresento na exposição, mas há um fio condutor que, de alguma maneira, vem do passado. Em relação aos móveis e ao uso dos azulejos é uma coisa que comecei a fazer há um ano e meio, portanto não é exactamente novo embora estas duas peças (ou três, considerando também a prateleira que desenhei para o convite do Broodthaers) sejam feitas especificamente para o espaço da galeria: o aparador compõe uma espécie de imagem de lobby empresarial com a grande pintura por cima; o banco para se poderem sentar enquanto lêem a folha de sala (por exemplo) e a prateleira, que é estritamente funcional, para podermos ver as quatro páginas do convite e que funciona quase como um plinto apesar de ter sido fixada à parede.

Imagino que o que me perguntas sobre as informações se actualizarem no tempo consoante o grau de maturidade é um processo normal. As ideias começam a germinar, vou tomando notas delas, tenho centenas de notas entre os meus papéis, que às vezes nem sequer evoluem para desenhos, são só notas de questões que quero abordar, coisas que me preocupam, que me suscitam interesse ou que sinto que me podem desafiar de alguma forma. Nem sequer são ainda informações mas informam o processo criativo. Muitas vezes deixo repousar a própria ideia para que ela ganhe um grau de maturidade suficiente e a possa abordar mais tarde — acontece-me com frequência pensar em várias problematizações mas o modo de as "atacar" só surge com o passar do tempo. Muitas vezes este voltar atrás consiste no aprofundamento dessas questões.

E sim, há trabalhos que são pensados e executados num curto espaço de tempo; em alguns meses decido as peças que quero fazer para um dado contexto. Há outros que demoram mais tempo, como é o caso do panfleto TINA, que comecei em 2016 sem um objectivo concreto, sem perceber se o queria expor. O que me importava era perceber como é que me relacionava com isso, que ideias eram válidas, que tipo de formas, não só visuais, mas também verbais, como é que são escritas as palavras de ordem. Por exemplo, decidi que todas as páginas tinham uma só palavra, uma só ordem, os verbos escritos no imperativo, alguns deles a confundirem-se com nomes embora a exclamação esteja lá para diferenciar. Parte deste panfleto já tinha sido mostrado antes num ambiente muito protegido, numa exposição de um só dia em casa de uma curadora  minha amiga e foi um bom lugar para o expor precisamente por ser numa altura em que o panfleto era ainda embrionário e eu não tinha resolvido o modo como o queria tornar público. Para este primeiro ensaio fiz uma maquete, um pequeno caderno com cópias dos desenhos para percebermos em mãos a própria ideia de panfleto — que tem exactamente as dimensões que os desenhos têm, portanto não há alteração de escala.

Depois há outra questão, sobre a qual falo no texto da folha de sala, que é a legitimidade de mostrar este panfleto dentro de um espaço comercial porque ele aborda certas questões que estão muito próximas de outro tipo de formulação sobre as mesmas inquietações ou inquietações semelhantes, que a na minha perspectiva pode ser problemático estarem expostas dentro de espaços comerciais e por isso não estava tão confortável com esta situação (até encontrar uma resposta). Resumindo, e para voltar à tua pergunta, preciso de sentir que há uma maturação nos trabalhos. Enquanto que certas coisas já vêm de outras no passado, ainda que seja um passado recente (como por exemplo o caso dos azulejos industriais que são algo que já tenho integrado e desta forma é muito mais fácil projectar, desenhar, construir, expor e vir do zero até à forma pronta num curto espaço de tempo), há outro tipo de peças em que as premissas formais estão fechadas mas o trabalho em si mesmo ainda o tenho como aberto.

AG: Idealmente como achas que o espectador deveria ver ou entender este teu processo? Entendo a relação entre os objectos que decidiste expor mas gostava de saber qual seria a leitura "ideal" desta exposição?

RG: Bem, é muito difícil dizer isso. Acho que não pode haver por parte do autor uma ingerência ou pelo menos eu não me sinto no direito de dizer como a exposição deve ser idealmente lida. Cada pessoa, ao entrar, com mais ou com menos conhecimento do meu trabalho anterior, em princípio vai experimentar, ver e sentir de modos diferentes. Quando abrimos o trabalho ao público deixa de ser nosso porque começa a ser interpretado pelos outros. Não gosto muito da ideia de ser eu a circunscrever a visita à exposição ou limitar a leitura do espectador a partir de regras ou de ideias específicas.

Acho preferível deixar em aberto e cada um interpretar e tirar as ilações e ligações que fizerem mais sentido. No entanto, acho generoso e importante dar algumas pistas. Não estou a falar de explicar os trabalhos, mas de dar algumas pistas para que se perceba como é que a coisa começa, qual é o seu sentido, o que me importa ou, pelo menos, de onde vem.

Escrevi a folha de sala e é a primeira vez que o faço, não para explicar, nem para tentar controlar a maneira como as pessoas vêem os trabalhos que estão ali e a composição geral daquele ambiente, mas para dar algumas pistas.

Falo do panfleto, como apareceu, sobre ser um projecto em aberto, da necessidade de responder ao meu próprio panfleto com a fotografia, de modo a permitir-me mostrá-lo dentro da galeria. Em relação ao banco, ao aparador e à prateleira ou mesmo à estrutura a partir das medidas do MUPI não dou grandes explicações: aquilo é o que é. Neste projecto especificamente não me interessa a distinção entre objecto funcional, utilitário, objecto decorativo ou objecto artístico, eles podem ser simultaneamente essas várias coisas. Das pinturas não falo, não escrevo nada sobre isso na folha de sala. No entanto, há uma revista no balcão da galeria para quem quiser ver um ensaio visual que publicámos no primeiro número em papel da revista Contemporânea e a partir deste ensaio perceber a origem das pinturas e das palavras associadas às pinturas. O que é Mecanorma? — uma marca de materiais que já não existe, usados em projectos seja de arquitectura, seja de design de comunicação, para vários tipos de utilidades. O nome da própria marca, Mecanorma interessou-me porque vem da mecanização (meca de mecânica) e a norma auto explica-se. Depois há submarcas com texturas, tramas e tipos (e foram estas submarcas que usei para intitular o ensaio que publicámos juntos) que são normatone e normacolor e aqui há um jogo duplo entre aquilo que é o produto dessas marcas e o seu próprio nome. Pessoalmente, não senti a necessidade de acrescentar mais dados relativos aos grandes desenhos a tinta acrílica porque são aquelas palavras que englobam uma série de ideias que me agradam, pelo menos tocar nelas ou pensar no que é que poderemos ler por trás do normatone ou normacolor sem ter que dizer nada acerca disso.     

Ramiro Guerreiro

Galeria Lehmann + Silva

Antonia Gaeta (Itália, 1978) é Licenciada em Conservação dos Bens Culturais pela Universidade de Bolonha. Mestre em Estudos Curatoriais pela FBAUL e Doutorada em Arte Contemporânea no Colégio das Artes da UC. Desenvolveu projectos de investigação e exposição com diversas instituições artísticas em Portugal e no estrangeiro e tem textos publicados em catálogos de arte e programas de exposições. Foi coordenadora executiva das representações oficiais portuguesas nas Bienais de Arte de Veneza (edições 2009 e 2011) e de São Paulo (edições 2008 e 2010) para a Direcção-Geral das Artes. Em 2015, foi curadora adjunta do Pavilhão de Angola na 56ª Bienal de Veneza. Desde 2015 desenvolve projectos curatoriais para a colecção de arte bruta Treger/ Saint Silvestre.

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Ramiro Guerreiro. Moi aussi... Vistas gerais da exposição na Galeria Lehmann + Silva. Fotos: Dinis Santos. Cortesia do artista e Galeria Lehmann + Silva.

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