Ed. 06-07 / 2019
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Jimmie Durham: Acha que minto? 

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Sofia Nunes

 

Jimmie Durham tem cruzado as artes visuais com a poesia desde a década de 1960 e volta a expor entre nós, no ano em que a sua obra foi premiada com o Leão de Ouro da 58ª Bienal de Veneza. A exposição intitula-se Acha que minto? e surge integrada no ciclo Reação em Cadeia, comissariado por Delfim Sardo, para o espaço Fidelidade Arte, Lisboa e para a Culturgest no Porto. Além de apresentar um trabalho inédito e outro de 2006, poucas vezes exibido, reúne um grupo de dez peças de 1995 que fizeram parte da sua primeira individual em Portugal [1], organizada a partir de O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago, com excertos apropriados do romance e materiais diversos recolhidos nas ruas de Lisboa.

História Concisa de Portugal, assim se chamava a mostra, teve uma relevância particular no trajeto do artista, coincidindo com a sua mudança dos Estados Unidos e México para a Europa e com o início de uma nova fase de trabalho. Se até 1994 a sua obra plástica articulava principalmente aspetos da história e cultura da América Nativa, a partir desse ano passou a implicar certas narrativas e conceções em torno da ideia de Europa. Durham interpreta a Europa, di-lo várias vezes, sobretudo como “uma construção arquitetónica” e a arquitetura como um “programa de estado forte que inventa e impõe a crença" [2]. Daí que a sua arte se venha definindo como um ataque sarcástico à própria noção de arquitetura enquanto estrutura de poder que dita as possibilidades de vida, do dizer, do sentir e pensar, à medida que as naturaliza.

A exposição Acha que minto? é exemplificativa deste posicionamento. O sentido de monumentalidade, tão caro ao vocabulário arquitetónico académico quanto aos grandes discursos institucionais de estado é aqui desfeito pela aparência precária das esculturas, e a unidade formal, em que as construções burocrático-ideológicas das identidades culturais e nacionais tendem a assentar, à semelhança do entendimento formalista da arte e da arquitetura, é substituída por configurações fragmentárias e híbridas. Por isso, não se encontram materiais puros, no sentido da sua idealização, antes agregados compósitos, ambíguos e alegres, formados por palavras, objetos, resíduos, minerais, imagens e sons produzidos por variados usos que lhes retiram uma identidade estável para assumirem novos estados e comportamentos difíceis de classificar.

Esta combinação de matérias de diferentes tipologias que se contaminam numa subtração à racionalização moderna, encontra vários momentos bem-sucedidos ao longo da exposição, onde a sensibilidade e a agudeza de Durham se manifestam plenamente. Logo na primeira sala encontramos dois trabalhos incontornáveis que dialogam de forma subtil. A instalação As Frases...(1995), combina um curto manuscrito afixado à parede com um lavatório de pé. O texto estabelece uma ideia de suspensão entre o dito e o não-dito culminando numa frase bastante concreta e caricata de alguém a dizer ao pai que as eleições em Espanha o estavam a enervar. Já o lavatório foi agredido pelo artista com um machado improvisado durante uma performance, tendo ficado com um dos cantos partidos. A pouco e pouco entrevemos um jogo de tensões descontinuadas, donde parece resultar uma irritação do sujeito, ora com a vida política, ora com um objeto utilitário agora sem função. A esta estratégia de desfuncionalização acresce, quando olhamos para a peça vizinha, Quem disser...(1995), um trabalho de desativação operado sobre a dicotomia natureza/humano. Uma mesa de madeira retangular tem o tampo vestido com uma camisa branca cravada por uma chapa metálica. De mesa passa a humano, mas o humano também admite a dupla forma de animal-vegetal. Apresenta quatro patas, duas delas constituídas por dois troncos, fazendo reverberar as observações poéticas do texto colado no tampo que sugerem afetações mútuas entre o desgosto humano e a alteração do curso dos astros, a regularidade das marés, o atraso do nascimento da lua ou o desalinho das correntes de ar. 

Na sala seguinte outras esculturas do mesmo ano se juntam. Há estruturas de madeira empilhadas em escadinha que servem de base a uma placa de mármore na qual um tubo de plástico com forma de serpente se apoia, rebaixando o monumento à celebração do mais simples e banal objeto com o dom de se fazer passar por animal. Há uma prateleira que suporta uma pedra com um focinho de cão desenhado e um espelho que nos reflete, enquanto vemos uma radiografia de uma perna e lemos uma mensagem que alerta ironicamente para os “fanáticos da simetria”. Há fragmentos de uma garrafa de vidro azul pousados sob uma caixa de transporte de figos do Algarve que nos confessa em texto o facto de existirem “coisas que não podemos saber como irão acabar” e à saída da sala um tronco pintado de cinzento que nos olha através do seu olho/concha, segurando um cartaz onde lemos: “Acha que minto, não, que ideia, aliás, nós não mentimos, quando é preciso limitamo-nos a usar as palavras que mentem”.

 

 

A desvinculação da coisa relativamente a uma suposta verdade do sentido, por um lado, e o entrelaçamento entre sujeito e objeto (seja este o objeto quotidiano ou a natureza), por outro, têm sido uma constante na prática bem humorada de Durham e estendem-se também às duas peças que fecham a exposição. SONG N C SHARP, 2006, consiste numa peça sonora com quatro pontos de escuta que regista o som de copos de vidro a partirem-se, atirados pelo artista contra o chão e a parede. O desenvolvimento do barulho vai dando lugar a uma faixa musical de som bastante aguçado, ainda que o título confirme o estado tecnicamente afinado da música.

Uma reversão diferente, igualmente concisa mas mais poética, acontece em Assorted Vari-Coloured Scruples, 2019, trabalho realizado para esta exposição. Sob o tampo de uma mesa de pé de galo, Durham colocou milhares de pedrinhas semipreciosas colecionadas por si ao longo dos anos. As pedras preenchem a superfície da mesa até morderem o seu limite redondo. A iluminação vem de cima e individualiza cada pedrinha na sua cor translúcida, ajudando a formar um padrão abstrato iridescente que o nosso olhar percorre. Por sua vez, a sombra da mesa surge projetada num círculo perfeito no chão, sendo orlada por algumas pedrinhas dispostas cuidadosamente em seu redor, donde o sentido semiprecioso se contamina à condição virtual da mesa e uma reversibilidade entre o tampo da mesa pleno e a sua sombra vazia tem lugar, tal como o espaço vazio da luz em volta da mesa encontra no chão a continuidade das pedrinhas do tampo. No trabalho de Jimmie Durham não existem lugares estáveis e as simetrias apenas se relacionam entre diferentes planos. Será mesmo e tão só pela aproximação a que são submetidos que as suas identidades se relacionam na deriva de usos em que existem.

Durham disse uma vez o seguinte “O ponto de partida do meu trabalho é quase sempre o material (...) material por si só como madeira, vidro, pedra, plástico ou só uma palavra. (...) Estou interessado nisso por causa da sua especificidade e materialidade específica. Gosto de brincar com os materiais, juntá-los por forma a criar algo de novo. Frequentemente é para celebrar os materiais, fazer um poema (físico) em sua homenagem, mas muitas vezes desmantelar os materiais do seu uso normal também é crítico das ideias que lhes são impostas dependendo de cada sociedade” [3]. E de facto Durham não tem senão libertado os materiais com que trabalha de um campo identitário fixo para lhes devolver novas vidas capazes de agregar múltiplas condições sempre escorregadias. Num momento em que são vários os artistas a trabalhar para lá dos binarismos e com interesse renovado sobre a ideia de matéria, voltar a Jimmie Durham, mesmo com obras já muitas vezes mostradas em Lisboa, é duplamente feliz.

Jimmie Durham

Fidelidade Arte

Sofia Nunes. Crítica de arte e doutoranda em História da Arte/Teoria da Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL e na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Exerceu assistência de curadoria e produção de exposições no Museu do Chiado – MNAC, Ellipse Foundation e Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém (2000 a 2007). Foi professora convidada no Mestrado de Arte Contemporânea da Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2009 a 2011). Escreve com regularidade para publicações de arte contemporânea e académicas.

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Jimmie Durham, Acha que minto? Vistas gerais da exposição na Fidelidade Arte. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia do artista e Fidelidade Arte.


Notas:

[1] organizada pela Galeria Módulo, Lisboa.

[2] cf. “Laurence Bossé & Julia Garimoth – Entretien avec Jimmie Durham” in Rejected Stones... Pierres rejetées...Paris: Musée d’Art moderna de la Ville de Paris/ARC, 2009

[3] cf. Foundation for Contemporary Arts

 

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