Ed. 06-07 / 2019
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Carla Filipe: Amanhã não há arte

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Antonia Gaeta

 

Antonia Gaeta (AG): Os teus projectos, ao longo dos anos, têm vindo a revelar uma prática artística constituída, lato sensu, por questões relacionadas com política, direitos laborais, colectivos ou associações de artistas.

Carla Filipe (CF): Sim, são temáticas bastante recorrentes no meu trabalho, neste caso concreto para a exposição do MAAT intitulada Amanhã não há arte, abordo a condição do artista plástico: temos um jornal informativo com vários exemplos relacionados com as questões laborais dos artistas plásticos, provenientes de várias instituições, países e períodos históricos. Trata-se de um documento informativo, sem hierarquia, que contém apenas 3% da pesquisa reunida em torno deste assunto. Mas a forma como a informação está disposta, oferece ao leitor a possibilidade de fazer a sua própria pesquisa a partir deste documento gratuito. Este Jornal pode ser lido na própria exposição. No espaço expositivo existem várias ilhas constituídas por almofadas com frases impressas relacionadas com a condição do artista e as pessoas podem sentar-se em cima de uma citação de Robert Smithson e ficarem a ler o Jornal ou, então, adormecer sob o artigo nº 29  ou, ainda, remexer nas almofadas indo ao encontro do texto.

AG: Parece-me evidente. Mas queria que me contasses — como se se tratasse de uma introdução propedêutica ao teu trabalho — quais os factores, contingências, interesses e necessidades que têm formado o teu trabalho nos últimos anos.

CF: É um exercício super complicado fazer uma revisitação de 18 anos de trabalho, sintetizados numa só resposta. Tentá-lo seria falsear.

Existem, obviamente, pontos que se tocam, como repensar a ideia de comunidade, do corpo social, do corpo político, da modernidade, da história. O uso do arquivo é igualmente presente, assim como uma “documentalidade” de carácter experimental. Tudo sob um posicionamento de compromisso autoral relacionado com a autobiografia e a idiossincrasia. Também a ideia de posicionamento, de responsabilidade, de inscrição é super importante. Quando vejo o trabalho de um artista, gosto de sentir força no seu discurso, não gosto de neutralidade e do não-comprometimento.

No discurso e pensamento artístico, o processo é realmente a maior ferramenta que determina o resultado e o conteúdo do trabalho. É durante o processo que aplicamos igualmente todo o nosso conhecimento; é como caminharmos no meio do mato e termos que desenhar  um trilho.

Para mim é realmente complicado ter que definir o trabalho antes do processo e é precisamente neste encadeamento que absorvo tudo, desde o contexto, o espaço, que dificuldades podem ser interessantes para o desenvolvimento do trabalho, as dificuldades que têm que serem superadas. E começar a mapear... o tempo processual nunca é igual para cada trabalho. Às vezes implica abandonar um método  e recomeçar com outro.

AGAo olhar para o teu trabalho, o espectador é obrigado a encontrar uma linguagem, imaginar um lugar, conceber um tempo, tentar, ainda, identificar-se com todos — e, ao mesmo tempo, criar um lugar distante de tudo isso. Concordas com esta interpretação?

CF: É uma boa observação esse diálogo entre proximidade e distância. 

O meu trabalho não é directo, suscita a reflexão. O discurso da arte tem a capacidade de criar várias camadas e uma pluralidade de interpretações, de emoções, sensações — especialmente as artes plásticas —; é um campo aberto a várias disciplinas desde o corpo (performance), a imagem, a linguagem (o texto ou a palavra), o som, o cheiro, o espaço.  A todos os sentidos. E cada sentido suscita uma memória, uma narrativa que incide no campo individual contrariando o pensamento de massas.

Perante uma imagem várias pessoas têm interpretações diferentes, sendo o  “acontecimento”, a verbalização da  sua interpretação e experiência perante o que é apresentado, como abrir um “arquivo” oral. É espontâneo. 

Mas também não é obrigado a falar, pode ficar só no campo do “sentir”. Tudo depende do background, da vivência de cada observador, da sua ética de alterabilidade perante os lugares da adequação a si.

AG: Falando em concreto do teu último projecto no MAAT. Qual a razão do título? Porque é que amanhã não haverá arte?

CF: O título indica uma acção, seguindo a mesma linguagem reivindicativa, proveniente dos conteúdos do arquivo político, pós revolução, usado para esta exposição.

É uma frase directa e livre, uma posição que foca a importância do artista. Relembrando o seu poder. Obviamente que esta frase de ordem não indica que o artista deixe de ser artista, mas é em oposição a um sistema que corrompe muitos dos direitos dos artistas. 

Repara: o artista tende a trabalhar sobre questões políticas e muitas vezes esquece-se da sua representatividade, não falo de representatividade de galeria, mas sim de uma entidade que o represente, que o informe, como acontece em muitos países. No contexto português existe uma fragilidade muito grande em relação ao artista plástico, é um trabalhador independente. Havendo uma representatividade, haverá igualmente uma estabilidade para o artista, porque ele é realmente a base de toda a estrutura. 

AG: Esta tomada de posição (de amanhã não haver arte) pode levar a uma formulação que permite que o inconcebível seja concebido?

CF: Qualquer tomada de posição tem consequências. Tudo depende da capacidade de auto-organização sob um sentido de colectividade, uma tomada de consciência que passa pelas pessoas estarem devidamente informadas.

Porque razão um artista que queira se proteger, construir a sua segurança, ter os seus direitos é sempre entendido como uma ofensa ou afronta?

Parece a história da emancipação da mulher que lutou pelos seus direitos e isso é entendido como uma afronta ao homem? Nada disso! É um jogo de manipulação que desvia o foco principal para o "poder” não perder o seu lugar confortável e estável.

Lembra uma frase que li numa ilustração de uma publicação do Estado Novo que dizia: Se soubesses o quanto me custa mandar, obedecerias sempre.

Basta olharmos para algumas manifestações políticas no contexto de comunidades artísticas do século XX, como por exemplo o Art Strike  (Art Strike Against Racism, War and Oppression): uma greve de um dia nos museus e galerias em Nova Iorque que partiu de um protesto contra a Guerra do Vietname, paralelamente a uma data de acontecimentos negativos e de violência  racial  no país. Foi uma acção que partiu da comunidade artística sendo a maior acção colectiva de protesto da segunda metade do século XX.

 

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AG: A tua instalação no MAAT convida também a outra fruição do tempo — disfuncional ou não produtiva segundo a lógica de consumo (capitalista) —: ao colocares as almofadas no chão convidas as pessoas a sentar, ler e folhear o teu jornal, a contemplar a instalação de panos/bandeiras. O tempo e especialmente o uso que dele fazemos, parece-me importante neste contexto. Como o entendes?

CF: Sim, o tempo é algo que sempre me interessou bastante como também a proximidade entre o público e o trabalho. É exemplo disso Migração, exclusão e resistência o trabalho que fiz para a edição da Bienal de São Paulo intitulada Incerteza Viva. O meu trabalho consistia numa grande instalação com cultivo de produtos alimentares não convencionais que desde, a sua execução até à inauguração, reuniu vários grupos e comunidades. Na abertura da Bienal as pessoas ficavam a conversar, a conviver, a discutir encostadas aos pneus, aos anéis de cimento muito interligados com o espaço e super confortáveis. Isto interessa-me muito; observar a liberdade do público no espaço em co-habitação com o mesmo. Aprendo imenso com estes momentos espontâneos proporcionados pelo trabalho. Emociona-me bastante a forma como as pessoas se relacionam com o espaço, porque o trabalho ganha outra vida e segue o seu caminho. Já não posso fazer mais nada para além da manutenção da exposição.

Na exposição no MAAT existe um sentido de hospitalidade, criaram-se situações muito confortáveis para as pessoas permanecerem no espaço. É uma exposição com carácter político mas com muito carinho porque quando falamos de direitos dos indivíduos estamos também a falar de carinho e de estima. Caso contrário não fazia sentido.

AG: Fala-me das bandeiras e porquê a escolha deste suporte — embora não seja a primeira vez que o utilizas.

CF: Sim, não é a primeira vez que utilizo este suporte como também esta opção de composição de imagens continua um trabalho anterior, mas que tinha suporte de jornal, intitulado Fascism messed with my brain, and so did Communism que fiz para a 4th Ural Industrial Biennial of Contemporary Art, em 2017. Este título surgia de Fascism Fuck my Head, and Communism also a partir de vários textos para composição sonora, escritos na residência artística Robert Rauschenberg, na Florida. Estava fora da Europa, numa sociedade totalmente diferente e certas coisas tornaram-se claras para mim: entender a minha herança cultural e política e, essencialmente, que o sentido de comunidade não se adaptava a uma sociedade individualista — falo de pormenores simples como a partilha de objectos ou tarefas.

Foi em 2017 no jornal para a Ural Biennial, que comecei a fazer estes jogos de espelho, repetição, padrão, usando elementos mais gráficos, usando símbolos sem os seus referentes e fazendo composições de camuflagem enquanto paisagem com um sentido psicadélico. Na altura estava muito próxima da cultura nocturna, onde existe uma concentração de pessoas em frente ao Dj; concentração que não tem a corrente política e social das manifestações na praça pública. Uma substituição das manifestações políticas para a manifestação do corpo e de certo modo com um sentido de alienação.

O interesse por esta relação surgiu graças a um vídeo de uma rave que apareceu no Instagram e que tinha confundido, inicialmente, com uma concentração política na praça pública. Para o MAAT usei apenas uma imagem deste jornal transposto para bandeira, nas outras bandeiras devolvi o povo, incluí a representação de pessoas, trabalhadores, basicamente, a presença humana. A bandeira é um suporte que uso desde há vários anos, sendo um suporte bastante usado nas manifestações políticas e para mais, ao vir de um universo ferroviário, este elemento é muito recorrente. Para a exposição Amanhã não há arte podemos considerá-las enquanto bandeiras, embora possam ser também tecidos. Interessa-me muito a ideia de camadas, sobreposições, transparências juntamente a um arquivo impresso sobre tecido: um trabalho arqueológico e paradoxal de despertar a memória colectiva e individual através de representações políticas através do período pós revolução do século XX e de que forma esta camuflagem ainda reactiva ou permanece sob a revelia de padronagem. 

É também intencional: hoje em dia as selfies são constantes nos museus e nesta instalação o público fica camuflado com a sobreposição do padrão da sua roupa ao padrão das bandeiras.

AG: Relativamente ao jornal qual é a sua função na exposição? Como foi concebido e o que pretendes com ele?

CF: O jornal tem uma função informativa, sendo a maioria da informação oriunda da internet e apresentada num suporte de papel, um formato que tem vindo a sofrer um declínio. Ao compactar esta informação no jornal cristalizo essa informação flutuante que paira na internet e que está acessível a todos mas não organizada nem editada. Este objecto foi bem trabalhado pela designer Márcia Novais e a minha intenção é que fosse considerado como um comunicado impresso; um  jornal que fosse entendido por um público mais abrangente. A maioria da informação resulta de apropriação de documentos; inclui gráficos, contém excertos de uma entrevista do advogado Manuel Lopes Rocha especialista em direitos de autor — estes excertos fazem parte  de uma conversa com João Mourão, integralmente editada no catálogo da exposição. 

Falas sobre intenções.... O mais importante: a consciencialização dos próprios artistas. Estou certa que muitos artistas não conhecem os seus direitos, nem através de exemplos exteriores. Relembrar o respeito e a estima enquanto sujeito/ autor.

Carla Filipe

MAAT

Antonia Gaeta (Itália, 1978) é Licenciada em Conservação dos Bens Culturais pela Universidade de Bolonha. Mestre em Estudos Curatoriais pela FBAUL e Doutorada em Arte Contemporânea no Colégio das Artes da UC. Desenvolveu projectos de investigação e exposição com diversas instituições artísticas em Portugal e no estrangeiro e tem textos publicados em catálogos de arte e programas de exposições. Foi coordenadora executiva das representações oficiais portuguesas nas Bienais de Arte de Veneza (edições 2009 e 2011) e de São Paulo (edições 2008 e 2010) para a Direcção-Geral das Artes. Em 2015, foi curadora adjunta do Pavilhão de Angola na 56ª Bienal de Veneza. Desde 2015 desenvolve projectos curatoriais para a colecção de arte bruta Treger/ Saint Silvestre.

 

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Carla Filipe, Amanhã não há arte. Vistas gerais da exposição no MAAT - Fundação EDP.  Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Fundação EDP.

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