Ed. 03-04 / 2019
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António Bolota: Assentamento

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José Marmeleira

Uma construção de esculturas

Na Galeria Quadrum, o projecto Assentamento de António Bolota, com a curadoria de Sara Antónia Matos, é nos seus elementos essenciais, na sua estrutura, na sua aparência e escala, um monumento que evoca e transcende a actividade construtiva. Transfigurando-a, no plano da produção artística, numa delicada e grande obra de arte.

Nas exposições de arte contemporânea, há uma pergunta que se escuta, sem que ninguém a enuncie: onde está a escultura? Antes que o desaparecimento (que decorre de uma condição de invisibilidade ontológica) seja declarado, surgirão explicações, respostas ou teses provisórias. Estará algures entre a instalação e os ambientes, entre os objetos produzidos ou apropriados e o espaço da arquitetura. Entre o som e a projeção de imagens. Desde que a escultura rompeu com a estatuária, libertando-se da tentação da representar o real (qualquer real), absorvendo e deixando-se absorver por outras práticas e disciplinas, nunca mais recuperou a certeza da sua identidade.

Expandiu-se, dissolveu-se, desmaterializou-se. Passou a ser mera presença no espaço, preenchimento de intervalos, matéria e volume no chão. A ter a companhia de sons, de imagens, de objetos, a fazer-se com a arquitetura e o auxílio da engenharia, a representar-se a si própria, abrir-se como espaço para a entrada do corpo do espectador. É precisamente na relação com este que ainda se torna objeto de discurso e aparece no espaço. Quando solicita um movimento à sua volta, que incita ao desejo de uma perfomatividade, quando proporciona encontro entre duas presenças, uma humana, subjetiva, volúvel, a outra objectual, mesmo que provisoriamente, para ser percecionada, num movimento, no espaço e no tempo. Outra resposta à pergunta pode, pois, ser: a escultura libertou-se. Libertou-se por exemplo de escalas definidas pela sua história, para se transformar em construção, em arquitetura, tocando o monumental sem almejar a monumentalidade, abrindo-se à experiência das matérias, das formas. Numa incessante autointerrogação, num repetido ressuscitar que só se realizam diante do mundo do qual nasceu. São esses processos que animam Assentamento, de António Bolota, na Galeria Quadrum, substituindo a pergunta inicial por outra: o que pode ser a escultura?

António Bolota

Galeria Quadrum

[Este ensaio poderá ser lido na íntegra na próxima edição impressa da revista Contemporânea, dedicada à escultura. O lançamento está previsto para o próximo mês de Maio, 2019].

 

Imagem: António Bolota. Vista geral da exposição Assentamento. © fotografia: Bruno Lopes. Cortesia das Galerias Municipais/Egeac.

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