Ed. 01-02 / 2019
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Em conversa com Mariana Silva

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Alejandro Alonso Díaz

Uma conversa entre Mariana Silva e Alejandro Alonso Díaz a propósito de Pavilhão das Formas Sociais, um projecto expositivo, com curadoria de Margarida Mendes, patente no Pavilhão Branco, em Lisboa.

Alejandro Alonso Díaz (AAD): No texto A Ala dos Insetos no Museu das Formas Sociais mencionas algumas das formas usadas para descrever o comportamento social de certos insetos como as abelhas. No entanto, esta análise poderá ser interpretada como uma visão antropocêntrica que procura analogias com as estruturas sociais dos seres humanos. De que maneira o Pavilhão das Formas Sociais questiona esta perspetiva?

Mariana Silva (MS): Na exposição Pavilhão das Formas Sociais comparo a forma como este tipo de analogias, entre as sociedades humanas e as dos insetos, foram mudando ao longo dos tempos. Hoje em dia, as comparações mantêm-se, mas a um nível mais físico, através da análise física das dinâmicas da movimentação em grupo, por exemplo. Mais do que questionar, onde começam e acabam as projeções antropomórficas (estas são inevitáveis), interessa-me questionar porque é que, historicamente, os insetos sociais são alvos destas.

Gostava de explicitar que o meu interesse parte do facto dos insetos sociais serem um exemplo pouco óbvio para analogias com as sociedades humanas. Isto porque, ao contrário dos símios, que são um exemplo recorrente de projeção antropomórfica, os insetos sociais não se assemelham aos humanos nem em inteligência, nem em termos evolutivos. No entanto, as comparações entre as sociedades humanas e as dos insetos foram sendo tomadas por monarquias, sistemas esclavagistas, comunistas, capitalistas e democráticos, tendo conotações políticas tanto positivas como negativas. Este desejo de analogia é constante. Por outro lado, como é o caso dos símios, os insetos sociais são um exemplo de animais que tiveram um papel importante em articular historicamente o que é natureza e cultura. Por exemplo, com o estudo das abelhas no seculo XX, surge a questão filosófica de considerar que os animais comunicam de forma não-verbal e se esta forma de comunicação pode ser considerada uma linguagem, se a linguagem é distinta da inteligência, etc. Como Charlotte Sleigh afirma, na entrevista que consta na exposição, este facto talvez se deva a um estatuto especial destes insetos na biologia: “O estudo das formigas tem ocupado um lugar curioso na ciência. Por não ser verdadeiramente uma ciência de laboratório, i.e., ‘ciência legítima’, proporcionou um espaço em que as questões filosóficas puderam ser exploradas, muito depois de tais práticas terem sido varridas do âmbito da maioria das ciências. Tal permitiu um tráfego de dois sentidos entre a ciência e a cultura no seu âmbito mais lato. Como tal, neste sentido, talvez não seja uma ciência muito ‘moderna’.”

Por outro lado, de acordo com a historiadora da ciência Lorraine Daston a obsessão com a distinção entre aquilo que é objetivo e subjetivo pode ser localizada historicamente como uma preocupação que surge a par da ciência moderna; e talvez daí surja um certo fetiche por partes dos ocidentais em aceder à perspetiva do outro, neste caso, um outro que é animal.

AAD: A linha que marca a distância entre "seu" e "meu", "objetivo" e "subjetivo" está inscrita na lógica da ciência moderna. Portanto, as relações capital/trabalho sempre foram apoiadas pelas da natureza/cultura, das quais o caso das formigas é um bom exemplo. Não achas que, da mesma forma que o ‘‘outro animal’’ suscita grande interesse como objecto de estudo (pela diversidade de formas e propósito de ordem na natureza), é também uma ferramenta ideológica orientada para novas formas de produtividade?

MS: Interessa-me o facto de que, por exemplo, os insetos sociais como as formigas baralhem historicamente as distinções entre natureza e cultura, ao serem comparadas até ao inicio do século XX com sociedades humanas, quando estudadas no início da psicologia por psicólogos como Auguste Forel. Concordo que o foco actual no estudo da sua organização imanente, tanto por parte da biologia, filosofia, política, como da tecnologia, reflete uma tendência e preocupação societal mais vasta com estruturas de organização horizontais que surgem à nossa volta. Esta tendência reflete-se ainda nas formas de trabalho e organização empresarial que procuram transparecer a ausência de um comando central, havendo uma mutação das relações laborais tradicionais. No entanto, a aparente ausência de autoridade em certas relação laborais não significa ausência de controlo como se vê na organização laboral de empresas como a Google ou outras. Parafraseando Eugene Thacker, a horizontalidade na tecnologia e na organização social (na qual se incluem as relações laborais) pode ser formalmente inovadora mas é politicamente ambígua.

AAD: O mesmo texto refere-se a este corpo de trabalho como um dispositivo mnemônico através do qual indivíduos podem divagar livremente. Tanto Olho Zoomórfico como Pavilhão das Formas Sociais apresentam formas circulares que repetem um sistema simples de circularidade de dados e itens. Que relação estabeleces entre mnemônicos e circularidade?

MS: No texto, exponho uma tipologia de museu inexistente “O Museu das Formas Sociais” como um dispositivo mnemónico onde um visitante poderia hipoteticamente divagar e aceder a diferentes casos de estudo híbridos que põem em causa a distinção entre natureza e cultura e diferentes conceções sociais que transitam entre o humano e o inumano. Este museu ficcional não corresponde a um espaço institucional existente, mas antes a sua ausência revela possivelmente um ponto cego na museologia ocidental que é muito cautelosa a refletir sobre a sociologia num contexto museológico e, como tal, no texto, este Museu das Formas Sociais existe à margem do Museu de História Natural, do Museu de Antropologia e do Museu de Arte.

Não existindo uma relação direta entre o texto e o uso de imagens circulares, essa relação poder-se-ía especular se eu introduzisse a questão da fotografia e das formas de captura de imagens de vida selvagem animal ou da procura de imagens imersivas em filme e realidade virtual.

O uso de enquadramentos circulares nos meus vídeos procura reconhecer que a lente fotográfica é em si redonda e que o retângulo do enquadramento fotográfico foi uma aproximação ao enquadramento pictórico e à vontade de manter fora de plano a distorção inerente à própria lente. Utilizo também uma semi-esfera côncava como ecrã de projeção, que parte de uma técnica desenvolvida pelo Professor de Ótica Paul Bourke para criar projeções vídeo imersivas que preenchem o campo de visão. Na adaptação do seu design interessou-me a escala humana que estas podem assumir.

AAD: Qual é o ponto de encontro entre os teus interesses pelos dispositivos museológicos e de representação e a sociabilidade animal? Como é que eles se cuzam?

MS: O meu interesse nesse cruzamento deve-se precisamente ao facto de estas questões de sociabilidade animal constituírem um ponto cego museológico, sendo que dificilmente encontram lugar no âmbito institucional tradicional do museu de antropologia, de história natural ou de arte.

De momento, estou a tentar focar-me num caso de estudo concreto, mais vasto ainda do que no Pavilhão das Formas Sociais: as analogias entre as relações sociais humanas e inumanas. Estou a tentar ver o que acontece quando nos debruçamos sobre estes híbridos e o que acontece ao espaço de representação dos mesmos quando o fazemos...

AAD: Alguns dos filmes na exposição parecem dar voz a uma entidade com inteligência artificial. Como imaginas as interações específicas entre o animal, o humano e a máquina?

MS: Curioso dizeres isso, porque não uso vozes de inteligência artificial nos filmes Do Ponto de Vista do Mamifero e Swarms/Throngs (A partir de “Networks, Swarms, and Multitudes”). Na realidade em ambos uso a minha voz modelada, ou a minha voz em coro com outros indivíduos, não-atores, todos eles amigos próximos.

Talvez tenha inadvertidamente atribuido um cariz autómato às vozes aproximando-as do que reconhecemos como vozes de inteligência artificial, na procura de um certo ritmo na leitura. É interessante pensar nessa possibilidade, e não se desadequa ao contexto dos trabalhos, mas não foi uma decisão consciente.

AAD: Como Charlotte Sleigh diz na entrevista da exposição: ‘‘parece muito claro para mim que os robôs são historicamente baseados em formigas’’. Historicamente, a antropomorfização das formigas ou sua caracterização como seres falantes está relacionada com uma voz maquínica ou artificial e é curioso porque essas mesmas representações ligam artificialidade à distância. Poderias falar mais sobre o teu interesse em conseguires uma certa artificialidade nos filmes?

MS: Creio que essa visão das formigas é uma conceção mais recente, do século XX, quando surge o trabalho fabril mecânico e quando a vida moderna passa a ser permeada por máquinas e tecnologias. Mas sim, interessa-me trabalhar nessa fronteira entre o natural e o artificial precisamente pelo facto de serem distinções historicamente circunscritas e em constante mutação.

Mariana Silva

Pavilhão Branco

Alejandro Alonso Díaz é curador e investigador sediado em Barcelona. Actualmente dirige o espaço de investigação artística fluent. Recentemente foi curador e participou em projectos para PAK///T, Amsterdam; EGEAC, Lisboa; Bienal de Performance, Atenas; Fundación Botín, Santander; Tenderpixel, Londres; Chisenhale, Londres y Whitechapel gallery, Londres. Os seus textos têm sido publicados na Frieze, Mousse, Terremoto e Concreta, entre outras publicações.

 

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Mariana Silva, Pavilhão das Formas Sociais. Vistas da exposição no Pavilhão Branco (Egeac/Galerias Municipais). Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e Egeac/Galerias Muncipais.

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