Ed. 01-02 / 2019
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Liz Craft . Teresa Braula Reis . Claire de Santa Coloma

Liz Craft Suck it Hippie.jpg
Cristina Sanchez-Kozyreva

Os escultores são impelidos a processar as suas mensagens através da forma. Numa vídeo entrevista, que se pode ver no website do MoMA, a escultora norte-americana Jessica Stockholder descreve o seu impulso para esculpir como parte do processo de "fazer coisas" porque se trata de algo importante; “é muito importante para mim”, diz. Só depois a artista pensa no porquê desta importância, tentando encontrar um sentido para si e para os outros. Stockholder explica que as pessoas que se relacionam com as suas esculturas não o fazem por ela ou porque sabem algo sobre a sua vida pessoal, mas fazem-no pelas suas próprias razões. Com a mesma intensidade, a escultora polaca Alina Szapocznikow, que tanto explorou o corpo humano na sua breve mas extraordinariamente prolífica e fascinante obra, afirmou que o corpo “era a fonte de toda a alegria, de todo o sofrimento, e de toda a verdade”. Chamou a algumas das suas esculturas “objectos estranhos” e esse assumido desconforto decorria da força dos seus trabalhos.

A escultura pode dar corpo aos nossos estados emocionais, à nossa relação com o prazer e com o gosto. Pode, em suma, dar corpo a uma parte significativa das nossas vidas. Dar conta de como lhes atribuímos um sentido, desde a política, em geral, às vivências pessoais. Neste artigo dividido em três partes, foi-me pedido que reflectisse — a partir de três exposições individuais, completamente distintas entre si e actualmente patentes em Lisboa neste inverno, — sobre o modo como três artistas mulheres utilizam o medium da escultura para dar forma às ideias que constituem os seus mundos, seja de forma espontânea ou planeada.

a (in)eficácia do white cube

Ocupando vários espaços do último andar da Galeria Zé dos Bois (ZDB), a exposição individual de Liz Craft, Querela, consegue ser, em simultâneo, refinadamente assustadora e irreverentemente divertida. A entrada é desde logo promissora. Os azulejos amarelos da pequena antecâmara estão manchados pelo fumo das velas que saem de uns absurdos apliques em forma de cogumelo. Parece que chegamos a uma casa assombrada (punk) de um parque de diversões. A instalação Between You & Me (2018), composta por dois pares de lábios sensuais femininos feitos de alumínio, colocados frente a frente em paredes opostas, estão ligados pelos dentes por uma corrente de aço que pende até ao chão. Parece ser uma metáfora para piadas ofensivas, conversas que correram mal, ou histórias de amor disfuncionais mas tórridas. No mínimo, podemos dizer que a estética é invulgar, mas seguramente intrigante. Ficamos a querer ver mais. Na sala seguinte, a primeira de várias esculturas cerâmicas em forma de balão de diálogo, pelas quais a artista é conhecida, Mushroom Bubble (Dark Green) (2016), recebe os visitantes. Uma vela, semelhante às da entrada, sai da escultura, como se se tratasse de uma lembrança forçada.

No conjunto, ficamos com a sensação de estarmos numa loja de artigos em segunda mão, com a excepção da mise en scène cuidada. Craft, uma escultora que vive e trabalha em Los Angeles, onde co-criou a galeria Paradise Garage em Venice Beach, encontra inspiração na cultura popular e nos ambientes da Costa Oeste. A mistura que lhe é característica combina imagens reconhecíveis da publicidade, brinquedos e outros, imbuídos de sentidos pessoais que de certa forma tornam o white cube ineficaz. É bastante revigorante. Com uma presença intensa na sala, encontramos uma das suas esculturas de mulher aranha, Spider Woman (comics) (2015), a olhar fixamente para o tecto como um espectro. Toda de preto e feita de materiais pobres, como papier mâché e lã, a sua cabeça elaborada — com vários pares de olhos colados sobre as folhas de jornal de papier mâché — contrasta com a falta de consideração que a sua criadora teve ao esboçar o resto do seu corpo. Atrás de si encontra-se uma mesa, Lavendula (2016), de alumínio rosado e com um tampo de cerâmica sobre o qual uma pequena figura feminina está sentada. Com manchas vermelhas no lugar dos mamilos e da boca, o seu ar de guloseima oferece um contrapeso à figura sombria da mulher aranha. As suas auras são tão diferentes entre si como as de Sininho e da Rainha Má.

Existe algo de muito impulsivo e transbordante de vida nas peças de Craft, apesar de serem objectos inanimados. Para além disso, tal como acontece com crianças e adolescentes, a sua espontaneidade não parece distinguir entre irritação e capricho. Na sala seguinte encontramos sentado Querelle (2016), uma escultura de bronze de 85 cm de um pénis com uma rede de pesca branca no lugar do sémen. Noutras exposições anteriores à de Lisboa, esta instalação incluía coisas agarradas à rede, mas na ZDB encontramos a rede sem nada. Na parede, Word Bubble (Speckled Web) (2016), outro balão de diálogo de cerâmica, mostra uma teia de aranha branca sobre um fundo escuro, também vazio. Poderá querer dizer que a falocracia que o pénis parece evocar já não apanha nada. Nesta sala, pelo menos. Craft altera as suas esculturas à medida que as faz. O processo é activo. Tal como um pintor que resolve problemas com cada pincelada, os seus objectos não são pré-determinados, o que provavelmente explica o facto de estarem repletos de energia.

Na última sala, uma aranha bastante quadrada, feita de aço e plástico numa estética pixelizada, Wall Spider (2015), espalha as suas pernas pelas paredes. Entre elas, mais balões de diálogo de cerâmica como Suck it Hippie (2015), que diz apenas isso. Palavras em relevo sobre um fundo branco e colorido com manchas de cores pastel. Também exposto está Hungry Hippo (2015), um balão de diálogo de cerâmica verde-escura com uma cómica cabeça de hipopótamo, também em relevo, que nos faz lembrar o jogo homónimo de tabuleiro em que os animais de brincar apanham pequenas bolas comendo-as. Ambos combinam 2D e 3D e são um jogo de superfícies, estáticos mas aparentemente animados. Estão pendurados nas paredes, mas podiam perfeitamente estar colocados no chão ou sobre mesas.

A prática de Craft parece navegar despreocupadamente da banda-desenhada para o artesanato, entre conceitos artísticos mais elevados e outros menos. As suas obras reflectem, sobretudo, uma atitude perante a arte que é muito própria. Não despreza as emoções pessoais espontâneas enquanto comentário social, e talvez revele até um certo nível de auto-depreciação. Estados mentais traduzem-se em espaços específicos, através de materiais baratos, cerâmica e argamassa, simples bonecos estilizados e formas cómicas. E, no entanto, a sua obra chega às zonas menos frívolas da experiência humana.

Liz Craft

ZDB

 

Liz Craft ExView 01
Liz Craft Mushroom Field
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Liz Craft Between You and Me
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Liz Craft ExView 10

uma flor a brotar do betão

Num estilo completamente diferente, a escultura ganha um lado mais urbano com o trabalho da artista portuguesa Teresa Braula Reis, na galeria 3+1 Arte Contemporânea. Canalizando as suas peças para uma forma minimal e dando ênfase ao material — isto é, material de construção —, a sua obra encaixa-se na perfeição no espaço do white cube. Funciona, até de forma expectável tendo em conta a actual produção de arte contemporânea. Mas é elegante.

Braula Reis injecta alguma poesia em material descartado que contrasta com o seu habitual léxico funcional para construção. Assim, Little Souls #1 and #2 (ambas de 2018) são duas instalações com cortinas feitas de pequenos pedaços de entulho suspensos por cabos de aço. As esculturas fazem lembrar cortinas de contas, só que rígidas. Evocam, contudo, o artesanato e uma certa qualidade ornamental. Utilizar entulho como contas dando-lhes assim um papel doméstico, feito à mão, é comovente. A acompanhar as cortinas está The Fleeting Hand part2 (2018), uma instalação com pó de tijolo a formar um quadrado sobre o chão. Funcionando como um tapete, com o pormenor de um canto ligeiramente desfeito que é suficientemente aleatório para fazer com que o visitante se pergunte se é acidental ou propositado, a instalação completa o espaço da cave da galeria como um interior espartano e elegante. O cor de laranja brilhante do pó é apenas o único luxo. Mas o todo, ao tentar organizar o não-organizável (entulho e pó), é suficiente para revelar a fragilidade inerente a qualquer empreendimento arquitectónico. As esculturas funcionam como ornamentos num local de construção. Estão deslocadas, como quando vemos uma flor a brotar do betão.

No piso de cima, The Fleeting Hand part 1 (2018) assume também uma forma quadrada sobre o chão, mas desta vez é feita de tijolos inteiros em pé. A presença de ambos os trabalhos de “fleeting hand” (como uma instalação única) realça a ideia de impermanência. A versão com os tijolos inteiros é o lado robusto de um começo promissor, quando os tijolos são novos e fortes. A versão em pó é o rasto deixado pela passagem do tempo, como se transcendessem algo ao tornarem-se pó. Ainda neste piso podem ver-se outras versões sofisticadas de material de construção que emergem das suas cinzas e se transformam em escultura. Folded Skin (2018) é uma construção em aço envernizado que faz mais lembrar uma divisória de ambientes ou uma tela do que propriamente pele. Surge ligeiramente posta de parte no espaço da galeria, como se negasse, assim, qualquer potencial narrativo. É, no entanto, intrigante pela sua pesada qualidade física. À entrada, duas fotografias a preto e branco formam o díptico Close (2018). À esquerda, a imagem mostra o que parece ser a garra de uma escavadora demolindo uma fachada de cimento. À direita, a fotografia foca-se numa mão humana que segura um fragmento grosseiro entre o polegar e o indicador. Juntas parecem apontar para um sentido de escala e para a mão do homem que está por detrás dos actos de construção e demolição.

Teresa Braula Reis

3+1 Arte Contemporânea

 

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um delicado trabalho de amor

Finalmente, a escultura merece um polimento delicado e uma inspiração na natureza com a exposição Chuva da artista argentina, a viver em Lisboa, Claire de Santa Coloma na Appleton. A instalação apresenta peças de madeira esculpidas e polidas, troncos de azinheiras que teriam tido como destino o fogo, que a artista trabalhou no Jardim Botânico da Universidade de Coimbra durante uma residência. As esculturas foram depois penduradas do tecto da galeria — aparentemente utilizando todos os furos feitos no tecto da galeria para exposições anteriores.

As peças são maravilhosamente polidas, um delicado trabalho de amor, fazendo uso do tradicional desenho da madeira, sem nunca cair na figuração. As formas parecem totalmente naturais, mas a sua sofisticação acusa horas de trabalho manual. São brilhantes, arredondadas e sensuais, e se algumas fendas persistem parecem apenas realçar a integridade daquelas peças anteriormente rejeitadas.

O título da instalação, através da qual os visitantes podem caminhar e observar de perto as peças suspensas, sugere que as peças de madeira brilhante são gotas de chuva e a instalação uma forma de estar debaixo delas. Nunca fui contra o demasiado literal, mas aqui a ideia não parece convencer. É possível que os objectos estejam suspensos até tão baixo que a sensação de se estar rodeado de gotas de chuva acabe por falhar. Talvez a ideia de nuvens (já que a forma geral das peças parece mais adequada) ou mesmo de floresta tropical (a vulnerabilidade das esculturas evoca ainda um certo peso da madeira) fosse mais sugestiva. Mas apesar de não satisfazer enquanto instalação, as peças individuais e o seu conjunto surtem efeito. A sedutora qualidade táctil do material, o calor e a variação rica das cores das azinheiras, a sua aparente elasticidade e resiliência implícita oferecem pistas interessantes que permitem acompanhar as peças. A natureza é, no final de contas, um poderoso aliado quando a mão de um artista decide trabalhar com ela de forma harmoniosa e Santa Coloma encontrou claramente uma intimidade com a madeira que ela manipula e aperfeiçoa.

Apesar de serem categoricamente opostas entre si — ou felizmente por causa disso —, estas três exposições encontram-se no campo das muitas possibilidades que a escultura pode expandir. Fazem-nos lembrar que a comunicação física é tão rica e poderosa, talvez até mais forte, do que as palavras.

Claire de Santa Coloma

Appleton Square

Cristina Sanchez-Kozyreva é uma autora com experiência em relações internacionais e estratégia. Viveu na Ásia durante 15 anos. Actualmente trabalha e vive entre Lisboa e Hong Kong. É co-fundadora e editora-chefe da revista de arte Pipeline, com sede em Hong Kong (impressão 2011-2016). Contribui, regularmente, para várias publicações na Ásia, Europa e EUA, como Artforum, Frieze e Hyperallergic.

 

Traduzido do inglês por Gonçalo Gama Pinto e revisto pela editora.

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Pimeiro bloco de imagens e imagem de capa: Liz Craft. Querela. Vistas da exposição na Galeria ZDB. Cortesia de Galeria Zé dos Bois.  

Segundo bloco de imagens: Teresa Braula Reis. The Pathos of Things. Vistas da exposição na 3+1 Arte Contemporânea. Cortesia da artista e 3+1 Arte Contemporânea. 

Terceiro bloco de imagens: Claire de Santa Coloma. Chuva. Vistas da exposição na Appleton Square. Cortesia da artista e Appleon. Fotos: © photodocumenta.  

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