Ed. 01-02 / 2019
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Maya Saravia: Las Golondrinas

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Marta Espiridião

“I ain’t got no / I got life”: dançar no sueño latino

 

Ain't got no home, ain't got no shoes

Ain't got no money, ain't got no class

Ain't got no faith

Ain't got no country, ain't got no schooling

Ain't got no friends, ain't got no nothing

 

What have I got

Nobody can take away

I got myself

I got my arms, got my hands

Got my fingers, got my legs

Got my feet, got my toes

 

I've got my freedom

Ohhh

I've got life!

Nina Simone, Ain’t got no, / I got life

 

Maya Saravia nasceu e cresceu na Guatemala. Viveu alguns anos em Madrid, regressou este ano ao seu país, e foi também este ano que finalmente conheceu Lisboa. É a partir desta triangulação Lisboa - Guatemala - Madrid, e da dança como elemento unificador destes três lugares, que Maya desenvolve a exposição Las Golondrinas, que inaugurou a 13 de Dezembro na galeria Balcony, com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues.

Em Abril de 2018, na Cidade da Guatemala, um grupo de raparigas apresentou um espectáculo de dança baseado nos estilos caribenhos e latinos, numa tentativa tanto de promover o trabalho de artistas mulheres como de sensibilizar para a violência perpetrada contra as mulheres neste país, onde os números de agressões, violações e assassinatos são flagrantes.

Estes estilos musicais e de dança — tal como o reggaeton, perreo ou twerk —  misóginos, objectificantes e sexualizados na sua origem, são agora resignificados pelos movimentos feministas como uma forma da mulher reclamar o seu próprio corpo e sexualidade.

Em Julho de 2018, Maya Saravia conheceu um grupo de descendentes de emigrantes angolanos e brasileiros que dança na baixa lisboeta em troca de doações de passantes e turistas, que se agregam à sua volta para ver as fantásticas execuções de complicadas sequências de movimentos, conjugando vários estilos como o hip-hop, breakdance, popping ou kuduro. Em Setembro de 2018, a artista encontrou-se com outros imigrantes latinos no Sueño Latino, um bar dominicano em Madrid, um refúgio onde podem dançar ao som de músicas e batidas da sua cultura, como bachata ou merengue.

O que liga estes três locais, e todos estes intervenientes, é, segundo a artista, não só a dança, mas a memória que lhe é intrínseca — todas as construções culturais partem de, e têm em si inscritas, memórias do povo que as cria. Mas Maya Saravia pretende mostrar, através da dança, que estas memórias não estão só inscritas nos passos e movimentos que a compõem, mas nos próprios corpos performativos dos dançarinos - segundo a artista, “todos os estilos de dança desenvolveram-se a partir de tradições enraizadas, que sofreram mutações e continuam a evoluir pelos corpos que as hospedam, que carregam consigo a história da colonização, da guerra, das trocas e das migrações, mas também a história da alegria, da comunidade, da espiritualidade, da sensualidade e dos rituais”.

Nina Simone, na canção que inicia este texto, fala de como não é verdadeiramente dona da sua vida, que nada tem, só mesmo o seu corpo. É assim que Maya Saravia descreve a sua condição de imigrante, e é assim que vê a dança — disse-me ela que não é bailarina, nem considera que dance bem, mas dança sempre, porque o seu corpo é o único que tem, e dançar é a melhor maneira de o habitar, de o tornar presente. Diz-me também que os escravos, entre o seu trabalho infindável e a sua profunda dor, e talvez porque destituídos de tudo pela mercantilização dos seus corpos, tocavam e dançavam para não esquecerem a relação com os seus próprios corpos. Dançar era, e ainda é hoje, uma forma de resistência.

 

 

Para Saravia, há um momento na história da dança (e também da música) que é fulcral e que afecta toda a evolução destas até aos dias de hoje: a chegada de africanos à América Latina, como escravos dos colonizadores portugueses e espanhóis que se instalaram nos países invadidos. Os contactos entre estas variadas culturas promoveram o aparecimento de diversos estilos de dança e música, que, através de trocas comerciais de escravos para os continentes europeu e norte-americano, e mais tarde das migrações, se globalizaram.

Muitos deste ritmos, como o reggaeton, o dancehall, a cumbia, o funk ou o kuduro, ressurgiram na Europa na última década. Isto poderá dever-se tanto à migração e hibridação cultural como à evolução dos recursos tecnológicos, que permitem que a produção musical seja parcial ou exclusivamente digital, e que o seu alcance seja global, mesmo com poucos recursos, devido às pontes tecnológicas que permitem um (mais ou menos) livre acesso à música e aos videoclips produzidos (algo que se iniciou com a criação da MTV e posteriormente do Youtube). É exemplo disso Tunin Slow, produtor dominicano a viver em Madrid, convidado por Maya Saravia para trabalhar na banda sonora da exposição. Esta facilidade de criação e comercialização musical traz também  uma maior precariedade e efemeridade a esta arte, num panorama em que a fisicalidade da música se perdeu para a nuvem digital, e em que os “fenómenos” do YouTube desaparecem tão rápido como surgem. É interessante aqui traçar um outro paralelo entre dança e a música, através das qualidade constitutivas da dança estabelecidas por André Lepecki, e perceber de que modo estes aspectos podem, em certa medida, ser positivos. Segundo Lepecki, “a efemeralidade da dança, o facto de que não deixa nenhum objecto para trás depois da sua performatização, demonstra a possibilidade de criar economias alternativas à qualidade objectual das artes, ao mostrar que é possível criar obras de arte distantes dos regimes de comodificação e da fetichização de objectos tangíveis”1. A precariedade da dança, que segundo o autor “surge a um nível físico pelo jogo necessário e contínuo com várias forças, e a um nível social pela sua posição subalterna na economia artística”2, é uma metáfora para a precarização da vida, e muitas vezes também uma forma de lidar com ela.

O interesse de Maya Saravia no mapeamento de fluxos é já anterior às obras que estarão expostas na Balcony, tendo-se iniciado com os projectos the life cycle of the opium poppy (2016) e the birds (2016), onde a artista reproduz graficamente, e de forma quase minimalista, as rotas de tráfico e transporte de heroína a nível mundial e as rotas e estratégias militares utilizadas no chamado Médio Oriente, respectivamente.

Estas últimas representações, desenhadas com base em imagens de guerra e vistas aéreas dos locais afectados, partiram da crescente abstracção das representação das experiências bélicas para a divulgação nos media e noticiários.

A artista traça também um paralelo entre ambas as rotas, pois, segundo a mesma, muitas destas guerras estão ligadas ao tráfico de heroína: o aparecimento e estabelecimento destas trajectórias de comercialização dá-se após os conflitos armados e ocupações norte-americanas. Estes mapas que constrói partem da sua necessidade de compreender a origem e o destino destes fluxos, e de revelar os efeitos que provocam em cada um dos pontos de passagem, muitas vezes denunciando a sua ligação às questões colonialistas, ora reminescentes, ora reincidentes.

Em Las Golondrinas, Maya Saravia apresenta três tipos de mapas esquemáticos que registam as diferentes movimentações do próprio movimento. Os primeiros registam as rotas da dança e da música, pelas dinâmicas que advêm tanto das trocas, apropriações e reinterpretações culturais dentro do eixo afro-latino-ocidental, como dos movimentos migratórios humanos, mostrando como vários estilos tradicionais latinos e caribenhos, muitos deles movimentos anti-autoritários e representativos de resistências anti-colonialistas, chegaram até à Europa. Paralelamente a estes, serão apresentados mapas que traçam as rotas de trocas comerciais e das migrações dos continentes latino-americano e africano até ao ocidente (como do comércio triangular de escravos entre os séc. XVI e XIX, ou mais recentemente, da Caravanas Migrantes das Honduras aos Estados Unidos), permitindo ao espectador procurar semelhanças ou diferenças entre as várias trajectórias, mostrando de que forma são intrínsecas uma à outra, e como se afectam mutuamente. Por fim, Saravia mapeia não só as rotas da dança pelo mundo, as suas evoluções e mutações, mas também os passos característicos de cada estilo. Utilizando um sistema de notação chamado Labanotação, a artista representa graficamente os movimentos corporais realizados em quatro tipos de dança diferentes (kuduro, popping, krump e afrodance) pelos dançarinos dos grupos lisboetas SankofaBlack Gold e Walking Dance. Este sistema permite criar partituras visuais onde se podem ler aspectos formais, espaciais ou de intensidade dos movimentos representados, tal como as diferentes partes do corpo que os realizam, sendo o resultado final uma espécie de puzzle visual (muitas vezes difícil de decifrar).

De forma muito semelhante à exposição El Olvido (São Miguel, 2018), Maya Saravia ocupa o espaço da galeria, criado para expor e comercializar obras de arte, convertendo-o num bar/pista de dança (aqui inspirado no clube Sueño Latino), onde podemos beber um copo, ver alguns vídeos compilados pela artista, conversar, ou dançar ao som de uma banda sonora produzida especificamente para esta instalação. Tal como em El Olvido, onde reencena o bar homónimo que existe no seu país natal e que costumava frequentar, Saravia recria aqui um espaço que considera seguro, que a relembra do lugar que é a sua casa, e onde se sente próxima da sua origem mesmo que esteja fisicamente muito longe. (Re)Construir estes locais aqui é um acto que mostra uma profunda saudade, mas também uma imensa generosidade. Convidando outros e outras a entrarem num local que não é realmente ali, que é a sua casa sem o ser verdadeiramente (no sentido em que é um sítio onde se sente confortável e “em casa”), Maya partilha um pouco da sua própria memória com os espectadores, transportando-os pelos milhares de quilómetros que os separam do local físico e real que ela procura recriar. Navega-se num limbo que surge assim, entre o real que é a cópia de um outro real (talvez mais real?), um espaço-cópia que apenas se torna real não pelo espaço que nele ocupamos, mas pelo espaço que ele mesmo ocupa noutro lugar. Um desassossego.

Maya Saravia

Balcony — Contemporary Art Gallery

Marta Espiridião é Licenciada em Ciências da Arte e do Património pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, fez uma pós-graduação em Estudos de Arte Contemporânea e Curadoria na Faculdade de Letras de Lisboa e é mestranda em Ciências da Comunicação na FCSH. É curadora independente, tendo em curso diversos projectos, tais como: “cool ain’t cool anymore” ou o Anexo, um programa de exposições anexas a outras exposições. Foi curadora da exposição Acção Doméstico-Feminista ou Estudos sobre Cerâmica Portuguesa, de Rita GT, na Rua das Gaivotas 6, Lisboa (2018); e de Unfriend//Unfollow, exposição colectiva, na Rua das Gaivotas 6, Lisboa (2018).

 

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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Maya Saravia, Las Golondrinas, Vistas da exposição na Balcony Arte Contemporânea. Cortesia da artista e Balcony Arte Contemporânea.

Notas:

1 LEPECKI, André, “Introduction // Dance as a Practice of Contemporaneity” in LEPECKI, André (ed.), Dance (Whitechapel: Documents of Contemporary Art), London and Cambridge, MA: Whitechapel and MIT: The MIT Press, 2012, pp. 15

2 idem

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