Ed. 01-02 / 2019
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Isabel Simões: Humor

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Maria Beatriz Marquilhas


O humor é meteorológico. Não é por acaso que as palavras "humor" e "humidade" têm a mesma origem. Tal como os níveis de pluviosidade, a pressão atmosférica, ou a amplitude térmica, o humor é volátil e pode ser violento, como uma tempestade. O seu efeito é totalizador porque afecta tudo, é uma janela através da qual olhamos o que nos rodeia. Como um filtro, corresponde à afinação da tonalidade que define a melodia. Em Humor, a primeira exposição individual de Isabel Simões na galeria Bruno Múrias, olhamos através das janelas que a artista vai pintando para entrar nas suas paisagens quotidianas e familiares, tingidas por diferentes níveis de luminosidade e intersectadas por sombras que se movem.

A palavra humor surgiu na Grécia antiga, significava “líquido” e nomeava os quatro fluidos corporais (ou “humores”) — sangue, fleuma, bílis amarela e bílis negra. Acreditava-se que estes líquidos eram responsáveis pela regulação da saúde física e mental — quando uma pessoa estava com um bom equilíbrio desses quatro líquidos, dizia-se estar de “bom humor”. A cada um dos líquidos estava associado um elemento da natureza e um estado de espírito e, até ao século XIX, os médicos ainda utilizavam estes termos para descrever e tipificar a saúde das pessoas. Hoje, podemos ainda encontrar vestígios da medicina humoral nas palavras que usamos para classificar estados de espírito, como fleumático, bilioso, colérico ou melancólico. O Humor de Isabel Simões corresponde à palete de cores que pintam os dias, num intrincado sistema de afectações que configura a nossa percepção do mundo e no qual cada imagem é uma unidade irrepetível. 

Numa das paredes da galeria, quatro janelas repetem a mesma vista — cada pintura [Meteorologia 1- 4, 2019] dá a ver, numa harmonia de elementos, o que parece ser o exterior de um prédio: umas escadas de incêndio, vasos com plantas, uma varanda, andaimes. A composição tem uma musicalidade geométrica e as suas linhas gerais repetem-se a cada pintura, mas os detalhes e as cores alteram-se e a posição das sombras vai mudando, como se o mesmo cenário fosse retratado em diferentes horas do dia. A orientação da representação também não é sempre a mesma: por vezes a imagem encontra-se invertida, tanto vertical como horizontalmente, como se estivesse a ser sondada em todas as suas possíveis disposições.

 

 

Ao assumir a janela como limite, Isabel Simões está não só a evocar o gesto de olhar pela janela — para ver, por exemplo, "como está o tempo hoje" —, mas também a delimitar um dentro e um fora, a criar um espaço interior de familiaridade quotidiana no qual o visitante é convidado a entrar. Teatro de sombras (2019) contribui para essa ideia de lugar habitado: a pintura encontra-se no chão, apoiada na parede. Cortinados arroxeados tapam uma fonte de luz — possivelmente a mesma janela que víamos nas outras pinturas — e, junto deles, vemos duas plantas e uma cadeira que ampara peças de roupa em desordem, remetendo para um gesto despreocupado, que se repete diariamente. O rodapé do quarto encontra-se quase alinhado com o da sala, reproduzidos à escala real, aqueles objectos são visualmente transportados para o espaço da galeria.

Em Eclipse (2019), na fachada de um arco encontra-se projectada uma sombra que lhe altera as cores e lhe pinta novas linhas. Tal como em Projecção (2019), a pintura do vão de uma porta e da sombra de uma planta, a sombra é representada enquanto impressão de um movimento que altera a imagem das coisas. Se a cor de um objecto corresponde à cor da luz que o mesmo reflecte, a sombra possibilita um diálogo entre os vários objectos, que assim se sobrepõem visualmente, num palimpsesto de impressões diáfanas e fugazes. Em Contorno do ar (2019), Simões dá continuidade à exploração visual do incorpóreo — o que parece um tecido amarelado surge como pretexto para a representação dos efeitos do ar sobre ele, das sombras e das pregas que se vão formando como resultado do movimento do ar. Tal como as sombras, também este subtil movimento do ar se oferece ao exercício do retrato.  

Sombra e luz, interior e exterior, próximo e distante são binómios que habitam os espaços criados por Isabel Simões. A janela é o objecto que materializa estes opostos, recorta o espaço para o expandir e para assim criar zonas de diálogo. É simultaneamente uma zona de passagem, ao permitir ver o que está do lado de lá, e de fronteira, ao delimitar os espaços. Em Ecrãs (2019) — 36 slides colados ao vidro que dá para o exterior da galeria — reconhecemos as imagens fotográficas das pinturas e que provavelmente a artista terá utilizado como modelo para as mesmas. A translucidez da janela repete-se na própria imagem, numa intersecção de escritas de luz. Consoante o humor e a intensidade da luz do céu, as imagens acopladas à grande janela serão diferentes todos os dias e todas as horas, as suas cores percorrerão várias gradações, até se tornarem movimento.

Isabel Simões

Galeria Bruno Múrias

Maria Beatriz Marquilhas. Licenciada e mestre em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo-se especializado em Comunicação e Artes com uma dissertação sobre o conceito na experiência artística. Contribui regularmente com artigos e ensaios para revistas. Vive e trabalha em Lisboa.

 

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Isabel Simões. Humor. Vistas da exposição. Galeria Bruno Múrias. Cortesia da artista e Galeria Bruno Múrias. 

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