Ed. 12 / 2017
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Grada Kilomba

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Grada Kilomba. The Most Beautiful Language. Foto: José Frade/EGEAC. Cortesia de EGEAC.

Sílvia Escórcio

“Não conto histórias para os outros, conto histórias para perceber quem sou Eu”

“A Grada é uma pessoa incrível. Uma rainha! Só desejo, e até pedi, para que me deixe ser um mero pajem na sua corte”, foram as palavras que Mário Lopes, coreógrafo de origem brasileira que conheceu Grada Kilomba, em São Paulo, usou para descrever a artista num encontro casual, em Lisboa, poucos dias antes da realização desta entrevista. Grada Kilomba faz jus às palavras de Mário Lopes, assim o demonstra o impacto da sua passagem, em Outubro, por Portugal e os trabalhos que podem ser vistos nas exposições Secrets to Tell, no Maat até 7 de Fevereiro, e The Most Beautiful Language, na Galeria da Avenida da Índia até 4 de Março de 2018.

Formada em Psicologia Clínica e Psicanálise, pelo ISPA em Lisboa, e doutorada em Filosofia (summa cum laude) pela Freie Universität de Berlim, cidade onde vive e trabalha, Kilomba soma distinções, é representada pela Goodman Gallery tendo sido o seu trabalho apresentado em universidades, associações, museus e eventos de referência um pouco por todo o mundo, entre estes a Documenta 14, em Kassel, e a 32ª Bienal de São Paulo, onde “quase até à abertura ninguém sabia” que era uma artista portuguesa. No seu país, apesar de regressar regularmente para visitar a família, tinha tido, em 2015, uma discreta participação nos Encontros para Além da História, organizados pelo CIAJG - Centro Internacional das Artes José de Guimarães.

A artista “vai buscar inspiração à produção de conhecimento africana e à produção oral de conhecimento, que tem que ver com contar histórias, com a presença física, com a performance”. É detentora de um “trabalho muito híbrido” que junta Psicanálise, Estudos Pós-coloniais, Queer e de Género, performance, teatro, literatura, música - para criar “novas linguagens”, porque “não é possível contar novas histórias e novas narrativas com o mesmo vocabulário”. Para Grada Kilomba a descolonização “não é um processo moral, é um processo de tomada de responsabilidade” que culmina com a reparação do EU - do “corpo negro”, da “artista mulher da diáspora africana” e com a afirmação: "Eu quero ter a liberdade de ser Eu: Eu quero fazer o meu trabalho como Eu quero, Eu quero contar as minhas histórias como Eu quero. Não conto histórias para os outros, conto histórias para perceber quem sou Eu”.

As exposições Secrets To Tell e The Most Beautiful Language assinalam a primeira apresentação do trabalho de Grada Kilomba em Lisboa e constituem, igualmente, as primeiras mostras individuais do seu percurso artístico. Nas conversas que antecederam esta entrevista, a artista pediu várias vezes “porque não escreves antes uma crítica?”, talvez percebendo, na escassez de críticas sobre o seu trabalho, outra forma de manifestação do sistema patriarcal. Será disso evidência o programa que trouxe Kilomba a Lisboa? Será a apresentação da artista evidência do (urgente) processo de descolonização do conhecimento, do sentir e de outras práticas, em curso na sociedade portuguesa? Poderá o acto de programar um(a) artista ou uma exposição ser também uma forma de reparação? “Não sei, acho que de certa forma sim”.

Até as práticas artísticas mais subversivas ou marginais acabam por ser absorvidas pelo mercado da arte e, como apela a curadora Irit Rogoff, restas-nos dificultar o processo. A activista e artista Jota Mombaça acrescenta “que todo esse boom que nossos pensamentos, nossas formas de arte estão tendo agora, tem a ver com um desejo muito latente da supremacia branca em tentar roubar isso de nós. Eles já roubaram muito de nós, mas isso eles não vão tocar!” [1]. Poderá a inscrição de Grada Kilomba, de outros e outras artistas, no sistema da arte, interpelar ainda uma apropriação ou uma nova colonização da arte pelo mercado, também este dominado por corpos brancos, maioritariamente masculinos?

Entre “espaços brancos onde raramente o corpo negro entra ou pode ficar” [2], o sacrossanto White Cube e a Black Box que apaga o “corpo negro”, o programa de exposições e conversas de Grada Kilomba sustenta, sobretudo, a transformação da realidade portuguesa e a necessidade de redefinir: “quem são os artistas e os intelectuais que pertencem ao cânone nacional”. No que diz respeito aos projectos expositivos Secrets To Tell e The Most Beautiful Language, a sua apresentação simultânea impõe como inevitável uma leitura conjunta. Apesar de acontecer em espaços com características muito distintas, ter curadorias autónomas, e o seu propósito não passar por criar um projecto único ou antológico expandido no espaço, nenhuma das propostas expositivas resulta beneficiada per se. As peças apresentadas numa e noutra sugerem distribuição ao invés de selecção, o corpo de trabalho da artista surge assim desdobrado entre formatos e contextos, que actuam mitigando a experiência de encontro com a obra - que se pretende transformadora, de reflexão e “intimidade com o público”.

Na exposição da Galeria da Avenida da Índia, cujo título alude, com sarcasmo, à Língua Portuguesa - “a língua mais bela”, a instalação The Simple Act of Listening (2017) destaca a ausência do corpo da artista na cadeira deixada vazia, nos microfones, a esta dirigidos, e no texto de parede que nos relembra “que só se pode falar, se a própria voz for ouvida”. Uma ausência que favorece a vontade de ouvir e ver Kilomba contar as suas histórias, de assistir às suas performances, de conhecê-la pessoalmente. A afluência às apresentações no Teatro Maria Matos e no Hangar, a multiplicação de solicitações e de entrevistas, serão também “novos formatos” e peças do seu projecto artístico? Serão novas linguagens, ferramentas híbridas de trabalho ou componentes de uma performance em continuum? Se assim for, a revista Contemporânea apresenta-se como um dos espaços abertos à voz, à palavra e à fisicalidade de Grada Kilomba. Agora e na continuidade do tempo.

 

 Grada Kilomba.  The Most Beautiful Language . Foto: José Frade/EGEAC. Cortesia de EGEAC.

Grada Kilomba. The Most Beautiful Language. Foto: José Frade/EGEAC. Cortesia de EGEAC.

 

Entendendo a descolonização como “um processo longo e doloroso, um processo de ruptura com práticas e procedimentos enraizados nas sociedades” [3]. É isso que justifica o facto de só agora termos a oportunidade de ver o teu trabalho em Lisboa?

O meu trabalho existe há muito tempo e está sempre em processo. Estamos sempre em constante transformação. Acho que cada trabalho é uma aprendizagem: levanta novas questões, responde a outras e coloca novas. Isso faz de nós outras pessoas, não é? Ou faz de nós melhores pessoas… Tenho conseguido levar o meu trabalho a muitos locais, países e cidades, a vários continentes, a casas grandes, a casas pequenas, a associações de refugiados, de mulheres, a movimentos Queer, teatros, organizações... Tenho apresentado em bienais, na Documenta, em universidades, sítios como Acra, Lagos, Joanesburgo, São Paulo, Salvador, Amesterdão, Estocolmo, Oslo, Bruxelas (onde já dei aulas), Londres e muitos outros.

Com isto, quero dizer que é preciso lidar com certos temas para conhecer determinadas pessoas. Entendes? Ou melhor, ao trabalhar certos temas encontram-se as pessoas certas. É um pouco causa efeito, porque o trabalho sempre existiu, está sempre em evolução, o meu e o de muitas outras pessoas. Penso que Portugal tem - como já disse tantas vezes, repetidamente, - uma relação quase obsessiva, uma fixação com o passado colonial e constrói toda a sua identidade à volta desse passado. Um passado colonial glorificado e construtor de toda uma narrativa romântica do passado e identitária: quem somos nós portugueses? O que impossibilita a criação de outras plataformas. A negação e a idealização impossibilitam a abertura para outras realidades e linguagens. Acredito que provavelmente é isso que tem acontecido.

E tendo em conta o processo: em que estádio de “cura” se encontra o país actualmente?

Tenho de voltar um bocadinho atrás. Pode parecer estranho pôr o curriculum assim em cima da mesa, mas é importante, porque existe, por vezes, uma relação com o corpo negro que é bastante disfuncional e muito fantasiosa. É quase impossível para certas pessoas imaginarem que estes corpos, estas mentes, estas pessoas, fazem determinadas coisas e têm determinado curriculum. Por isso é que é importante dizer, e lembrar, o que estamos estado a fazer, e o que as pessoas antes de nós têm estado a fazer, porque existe uma tendência para esquecer, há uma negação.

A “cura” que referes é de uma das obras, The Dictionary, que está na Galeria da Avenida da Índia, na exposição The Most Beautiful Language. Trata-se de uma obra que gosto muito, é uma instalação vídeo composta por cinco canais e nesses cinco canais aparecem cronologicamente - primeiro tens um ecrã preto, não sabes bem o que está lá, mas depois aparece um colectivo de definições que retirei de vários dicionários, aparecem cronologicamente e a letra é muito pequenina, escrita em branco, de forma a criar um certa intimidade com o público, porque para conseguir ler é preciso uma aproximação ao ecrã.

Queria trabalhar com ecrãs, por causa do reflexo, ou seja, quando lês, vês-te a ti própria, funciona quase como um espelho. Gosto muito desse efeito, dessa intimidade individual, de criar esse momento de reflexão (para ver e para pensar): “Vejo-me aqui? Não me vejo aqui?” Sobretudo, para mostrar que se trata de um processo: o processo de descolonização, que tem que ver com responsabilidade, não é moral, é ganhar  responsabilidade e consciencialização. É composto por várias fases, começa pela negação e todas as definições que a sutentam. Da negação passa à culpa, da culpa passa à vergonha, da vergonha passa ao reconhecimento e, por fim, do reconhecimento à reparação. Um implica outro e é preciso passar por todas as fases para reparar - transformar as imagens; as narrativas; o vocabulário; a terminologia. Tudo.

 

 Grada Kilomba, Plantation Memories , 2015. Still do vídeo. © Grada Kilomba. Cortesia da artista.

Grada Kilomba, Plantation Memories, 2015. Still do vídeo. © Grada Kilomba. Cortesia da artista.

 

Encaras as exposições que tens patentes na Galeria da Avenida da Índia e no Maat, as conversas e demais actividades associadas à tua apresentação em Lisboa, como uma forma de “reparação”?

Não sei. Acho que de certa forma sim.

Mas, terminando a pergunta anterior, penso que Portugal encontra-se na fase da negação por causa da idealização e esta trabalha em conjunto com a negação. Quando não se acredita em algo idealiza-se, o que não se quer projecta-se nos outros e o que se quer é idealizado. É a narrativa que temos criado, portanto estamos muito, muito, na negação. Quando falamos sobre a história colonial, não há um sentido de vergonha, nem de culpa, porque é uma história da qual ainda não se percebe a dimensão. É tão romantizada que existe um desfasamento muito grande entre a fantasia e a realidade. É tão idealizada que a realidade do que é a história colonial e o que ela implica no presente - porque é uma história de brutalidade, violência e de desumanização, nem sequer é levada em conta, é completamente apagada.

Neste momento, também encontramos (em Portugal) novas plataformas como o Maat, a Galeria da Avenida da Índia e o espaço onde estamos - o Hangar  ou o Teatro Maria Matos, que constroem uma agenda radical, muito consequente, que diz: “é preciso lidar com o presente, não podemos criar agendas que glorifiquem e que criem exposições e espaços que encenam e reencenam o passado só porque não conseguimos lidar com o presente”. Como artistas e curadores temos a responsabilidade de criar agendas e um curriculum para o público. E quando galerias e museus dizem: “não, nós vamos mudar o nosso curriculum” - museus que há um ou dois anos atrás não existiam e que trazem uma política completamente diferente sobre o que deve ser visto, instingando a outros modelos de pensamento - isso é uma forma de reparação. Assim como o facto de terem (no Maat) adquirido uma das peças, a instalação de vídeo The Desire Project, com o altar dedicado à escrava Anastácia. Ao tomar essas decisões estão a definir quem são os artistas e os intelectuais que pertencem ao cânone nacional. Como instituição têm esse poder, o de incluir esta artista mulher da diáspora africana que fez uma obra encomendada pela Bienal de São Paulo, paga pelo Governo Alemão e onde Portugal não teve de forma alguma envolvido, financeiramente, nem nada…

 

 Grada Kilomba. Vista da exposição Secrets do Tell . Foto: Bruno Lopes. Cortesia MAAT.

Grada Kilomba. Vista da exposição Secrets do Tell. Foto: Bruno Lopes. Cortesia MAAT.

 

Na altura da Bienal de São Paulo o Governo Português foi consultado? Foste apoiada como artista portuguesa?

Não, foi o Brasil que convidou e a Alemanha que pagou. Aliás, existiram exposições paralelas, para as quais fui chamada, à última da hora, porque ficaram a saber que eu existia, que estava lá e era portuguesa. Foi feito todo um festival à volta de quatro artistas portugueses que foram representar Portugal, eu era a quinta, mas quase até à abertura (da Bienal de São Paulo) ninguém sabia que eu estava lá. Mas a Alemanha sabia e o Brasil também…

Sentes-te uma "filha" ou uma artista portuguesa no sentido inverso da parábola do “Filho pródigo”? Visto que não foi no teu próprio país que tiveste a oportunidade de desenvolver e de ver, em primeiro lugar, reconhecido o teu trabalho?

Não sei… Sabes como é que me sinto? Sinto que fiz sempre um trabalho muito híbrido e sempre me pediram para responder por uma disciplina apenas – ou agora estás na universidade, ou estás no teatro, ou estás na performance, ou na literatura. E o meu trabalho sempre transgrediu um pouco os espaços mas esteve sempre em casa. Essa é a essência do meu trabalho. Não estou interessada em trabalhar com um único formato, quero contar histórias e essas histórias pedem formatos diferentes. Como artista é muito interessante para mim poder juntar a psicanálise, post-colonial studies, queer studies, gender studies, performance, teatro, literatura, música… Uma série de coisas.

Fala-nos um pouco sobre esse percurso. Além de utilizares diversos media, em que momento percebeste que fazia sentido actuar para além do contexto da academia? A aproximação ao universo artístico surgiu da evolução do teu trabalho, foi um processo natural?

Foi um processo muito natural. Dei aulas durante mais de dez anos na universidade (Humboldt University, Berlin) e era a única professora no Gender Studies Department que também pertencia ao departamento de música e de teatro. Trabalhávamos juntos, tinha uma sala recheada de alunos: 120. Dava aulas duas vezes por semana e era um processo incrível, trabalhávamos com performance, literatura; textos teóricos, políticos… Passávamos para o teatro, depois para o som… Sempre foi um trabalho muito híbrido.

Artista portuguesa que trabalha sobre a descolonização. Mulher negra da diáspora africana. Imigrante na Alemanha. Professora universitária com formação em Psicologia e Psicanálise e não em Belas-Artes. Além da questão autoral, será o teu perfil, per si, ignição para outras questões fracturantes da contemporaneidade? Complexas para os agentes e instituições do sistema da arte. Serás tu própria “a obra”?

Pois, isso parece um grande elogio (risos). No tempo em que estamos, é necessário e urgente sair dessas caixas e dessas disciplinas. Não é possível fazer o trabalho que pretendo ou contar as minhas histórias nas disciplinas clássicas. Há uma grande urgência em desmontar essas normatividades, é muito importante criar novas linguagens. Já não podemos contar novas histórias e novas narrativas com o mesmo vocabulário…

No que diz respeito às linguagens e formatos, nomeadamente a performance - um dos dispositivos que se destaca na tua prática -, quais são as tuas principais influências ou referências? Reconhecendo a “performance art” como recente na historiografia da arte.

É e não é (recente). Muito do que uso no meu trabalho vai buscar inspiração à produção de conhecimento africana e à produção oral de conhecimento, que tem que ver com contar histórias, com a presença física, com a performance. O Krio (Língua), por exemplo, faz a análise de uma situação, vem contar uma história e traz a música, é ritmada, encenada… É toda uma outra forma de produção de conhecimento que na Europa se perdeu. É muito interessante ter isso como referência e construir formatos que são híbridos. Tendo em conta que muitos de nós não tiveram uma plataforma de acesso ao centro, permanecendo na margem, essas histórias precisam de ser contadas noutros formatos, fora dos formatos clássicos.

Acreditas que hoje ícones da cultura popular, como Beyoncé, Kanye West ou Oprah Winfrey, são relevantes para os jovens e para a descolonização dos modos de pensar e sentir das sociedades?

Precisamos de muita gente e é muito importante ter toda essa diversidade. Podermos ter, se quisermos, narrativas diferentes. Depois, cada um pode identificar-se com quem estabelece uma relação mais próxima. Nunca é demais, o que é complicado é pensar numa única referência ou figura pública.

No vídeo da leitura encenada do teu livro Plantation Memories [4], que pode ser visto na exposição Secrets to Tell, no Maat, os intérpretes são mulheres e homens, mas maioritariamente mulheres, com diferentes idades, cores de pele e “políticas de cabelo”. Descolonizar o corpo negro é também miscigenar?

Na sequência do que referi há pouco, é muito importante mostrar a diversidade também dentro da diáspora africana. Desmontar um bocadinho todas estas categorias fixas que nos aprisionam. Originalmente, o texto, é só de mulheres que entrevistei e com quem estou em diálogo, mas quis exactamente desmontar essa questão do género e ter uma leitura mais transsexual ou intersexual, onde as diferentes vozes aparecem em diferentes corpos.

Dentro do pós-colonialismo é fundamental trabalhar a questão do género, a sexualidade, transexualidade, e desconstruir estas categorias fixas que fixam identidades num lugar. É um trabalho de empoderamento que passa por não idealizar e não “desidealizar”, o mais importante é quando dou às pessoas a possibilidade, ou a liberdade, de serem elas próprias. Eu quero ser Eu, Eu quero ter a liberdade de ser Eu, Eu quero fazer o meu trabalho como Eu quero, Eu quero contar as minhas histórias como Eu quero. Não conto histórias para os outros, conto as histórias para perceber quem sou EU.

É como fazer um puzzle onde vejo que faltam muitas peças que me foram tiradas, outras que não foram nomeadas, outras que não foram escritas, arquivadas, documentadas, imagens que eu deveria ter visto e não vi, nomes que eu deveria ter sabido e não sei, livros que eu devia ter lido e não li… Depois, cada peça reconstrói um pouco de mim, é pessoal, sou eu, quem eu sou… E, tendo em conta que sou uma mulher da diáspora africana, há muitas peças que faltam, que foram silenciadas e invisibilizadas. É todo um processo de recuperação e de liberdade para fazer o que me interessa (e que não tem que interessar a outras pessoas), mas é fantástico quando fazes um trabalho que transporta muitas outras pessoas a caminhar contigo, porque se identificam. Isso é muito, muito, bonito.

Um trabalho de (re)construção da memória que serve como referência para outros?

Exacto, exacto.

E num mundo e futuro ideais: racismo, colonialismo e machismo seriam tratados como distúrbios da personalidade, a par de distúrbios como o da personalidade narcisista, histriónica ou anti-social?

(Risos, muitos risos) Isso era fantástico, não era? E com receita e tudo, com medicação! (Risos) É uma boa ideia, nunca tinha pensado nisso dessa forma, mas porque não? Talvez fosse uma boa solução. Mas é mais complexo do que isso, temos quinhentos anos de história e quarenta de pós-colonialismo, em Portugal, ou seja, parte da população nasceu ainda num sistema fascista e colonial. Ainda vai demorar muito tempo. Não podemos esquecer que o colonial que sempre repetimos é patriarcal, é homofóbico, é uma bola, é um novelo de lã que trabalha em conjunto, um não anda sem o outro. Foi por isso que fiz o trabalho Illusions, uma das obras que está na Galeria da Avenida da Índia. É uma reencenação (da mitologia) de Eco e Narciso. Eco está sempre a servir Narciso… O novelo de lã, a parábola pós-colonial…

Não sou pelas fugas, pela medicação para fazer desaparecer… Acho que precisamos de trabalhar; há muita gente que deve começar a fazer o seu trabalho de casa mas que ainda não começou. Como mulher negra faço o trabalho de casa desde que sou pequenina. Não tenho o privilégio de não saber ou de não querer saber, isso é o trabalho de casa que todos temos de fazer mais tarde ou mais cedo e aí encontramos a nossa liberdade, mas é um processo individual. Existem muitos livros, muitas exposições, muitos trabalhos que estão expostos, depois há uma decisão individual de ir ler os livros, de ver aquelas exposições, ouvir aquelas discussões… Com isto quero sublinhar que não se trata de uma questão de moralismo. Racismo não tem que ver com culpa ou com vergonha, tem que ver com responsabilidade e com decisões que temos de tomar.

 

 Grada Kilomba. Vista da exposição Secrets do Tell . Foto: Bruno Lopes. Cortesia MAAT.

Grada Kilomba. Vista da exposição Secrets do Tell. Foto: Bruno Lopes. Cortesia MAAT.

 

Sílvia Escórcio

Consultora independente que cunhou e desenvolve investigação através da prática em Curadoria de Comunicação, disciplina especializada em comunicação para a arte. Formou-se em Publicidade e Marketing (ESCS), pós-graduou-se em Comunicação e Imagem (IADE), frequentou o mestrado de Estudos Curatoriais (FBAUL/Gulbenkian). Dirigiu a comunicação da Associação CAIS, co-fundou o espaço Yron em Lisboa e a agência Hei Communication. Do seu portefólio destacam-se os projectos: Reflex - prémio de fotografia CAIS/BES; POP UP Lisboa 2010 - festival de cultura urbana; A2V - A Duas Velocidades, Casa das Mudas; Walk&Talk Açores - festival de artes; Fórum do Futuro 2017.

 

Grada Kilomba

MAAT

Galeria da Avenida da Índia

 

 

 Grada Kilomba.  Illusions, 2016 . © Grada Kilomba. Cortesia da artista

Grada Kilomba. Illusions, 2016. © Grada Kilomba. Cortesia da artista

 

[1]In Podcast Rádio AfroLis: Lugar de Fala e Relações de Poder com Jota Mombaça (Parte II)

[2]In While I Write (2016) Grada Kilomba 

[3] In Podcast Maria Matos: Ep. 07 - Descolonização P1: Olhar o passado e Ep. 09 - Descolonização P2: Olhar o futuro

[4] Vídeo da leitura encenada do livro Plantation Memories (2008) Grada Kilomba 

Tradução do primeiro capítulo do livro Plantation Memories (2008) Grada Kilomba

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