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Tensão & Conflito. Arte em Vídeo após 2008 e Bill Fontana - Shadow Soundings

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por Isabel Nogueira

O Museu de Arte Tecnologia e Arquitectura – MAAT abre as portas na rentrée das exposições com duas mostras que, a seu modo, procuram interrogar a contemporaneidade e o lugar, mediante a utilização de dipositivos digitais de som e de imagem. Tensão & Conflito - Arte em Vídeo após 2008 tem curadoria de Pedro Gadanho e de Luísa Santos; Bill Fontana: Shadow Soundings é mais uma encomenda para a Galeria Oval do MAAT, que comummente se designa por exposição site-specific/in-situ.

Tensão & Conflito - Arte em Vídeo após 2008 debruça-se, como o título permite antever, sobre aspectos relacionados com a crise económica e financeira, genericamente iniciada por volta de 2008, e as suas consequências e implicações sociais, culturais, políticas e humanas. Viveram-se tempos efectivamente conturbados que obrigaram a reequacionar o próprio modelo da modernidade, sobretudo no sentido político e social, herdado da iluminada Revolução Francesa. Na verdade, estes tempos deixaram um rasto de dúvida e apelaram à inevitável reflexão,  olhando, de modo mais focado, o Mundo e o Outro e, claro, o Eu com o Mundo e com o Outro; por outras palavras, o Homem em situação de adversidade.

Através de propostas e olhares de mais de duas dezenas de artistas, tais como os portugueses Francisco Queirós, Maria Trabulo, Patrícia Almeida e Paulo Mendes, assim como de outros artistas de diversas nacionalidades, por exemplo, Anatoly Shuravlev (Rússia), Bofa da Cara (Angola), Hiwa K (Curdistão), Jorge Macchi (Argentina), Lola Gonzàlez (França), Marc Larré (Espanha), Mario Pfeifer (Alemanha), ou Nikolaj Bendix Skyum Larsen (Dinamarca), é-nos oferecida uma leitura com uma coerente, cuidada e limpa organização de espaço, possibilitadora de respiração. Aliás, esta exposição apresenta-se como uma das mais conseguidas, a este nível, desde a abertura do museu, há cerca de um ano. E estas propostas versam aspectos mais políticos, mais sociais ou até mais emocionais, com diferentes linhas de leitura e camadas interpretativas.

Quanto à pergunta – que entendemos como retórica – lançada no texto que apresenta a mostra: “Será que a arte tem, pode ou deve ter um papel de mudança social?” poderíamos arriscar a responder que a produção artística age, naturalmente, sobre um contexto – por exemplo, como mecanismo profícuo de denúncia ou de chamada de atenção –, ao mesmo tempo que resulta dele, na inevitável organicidade do tempo, do lugar ou, em sentido lado, da História. Por isso tanto se fala em repetição de conflitos, inquietações, ciclos, conjunturas, ou até de estruturas.  E o vídeo assume-se, pelas suas características enquanto meio artístico, como uma notável possibilidade deste complexo movimento de revelação-acção.

Do ponto de vista histórico, o vídeo surge, como se sabe, inicialmente ligado à performance e à body-art, testemunhando o fascínio pelo tempo real da acção ou do acontecimento. E, claro, mostrando uma nova possibilidade de comunicação, que começou a ser percepcionada, por exemplo, na cena artística nova-iorquina ou em Colónia, nomeadamente, no estúdio da artista Mary Bauermeister, onde também eram apresentados trabalhos de John Cage, Nam June Paik ou de Stockhausen. Às novas experiência de sons, tempo e manipulação, juntava-se dança, texto, pintura, ou projecções fílmicas. Em 1963, tinha lugar a que se crê ser a primeira  performance pública de vídeo: Exhibition of Music – Electronic Television, de Paik, na Galerie Parnass (Wuppertal). O mundo estava em mudança e a forma de comunicar também. De modo irreversível. E assim continua, felizmente.

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Francisco Queirós, Cosmic Death, 2015, Vídeo, HD, 1080 p, monocanal, cor, som / Video, HD, 1080 p, single-channel, colour, sound | 20 m 42 s, loop, Coleção de Arte Fundação EDP / EDP Foundation Art Collection

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Burak Delier, Crisis and Control, 2013, Projeção de video, HD, cor, som / Video projection, HD, colour, sound | 14 h 12 m, loop, Cortesia do artista e / Courtesy of the artist and Pilot Galeri, Istambul

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Patrícia Almeida, “Today, I am just a butterfly sending you a sentence”*, 2016, Vídeo, HD, cor, som / Video, HD, colour, sound, 7 m, loop, Coleção de Arte Fundação EDP / EDP Foundation Art Collection

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Jorge Macchi, 12 Short Songs, 2009, Vídeo, NTSC, 16:9, monocanal, cor, som / Video, NTSC, 16:9, single-channel, colour, sound | 9 m, loop, Cortesia do artista e / Courtesy of the artist and Galerie Peter Kilchmann, Zurich

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Nikolaj Bendix Skyum Larsen, Quicksand, 2017, Vídeo, HD, ecrã único, cor, som surround 5.1 / Video, HD, single screen, colour, 5.1 surround sound, 21 m 02 s, loop, Cortesia do artista / Courtesy of the artist

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

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Tensão & Conflito, vista de exposição, © Paulo Alexandre Coelho, Cortesia dos artistas e MAAT – Fundação EDP

E, pelo filão da comunicação e da linguagem, partimos para a bela e consistente intervenção de Bill Fontana na Galeria Oval do MAAT, a mais conseguida e consistente com o espaço, em nosso entender, até à presente data. Vejamos. Fontana trabalhou a partir dos sons e das vibrações produzidas por dois elementos icónicos da cidade de Lisboa: a Ponte 25 de Abril e o Tejo. Shadow Soundings devolve ao espectador um som assobiado, talvez uma espécie de melodia uivada, contínua e encantatória. Simultaneamente, os painéis de grandes dimensões mostram diversas visões da ponte, sobretudo visões menos conhecidas, como a visão por baixo, por exemplo. É como se o observador fosse convidado a entrar não pela ponte mas na ponte. A ponte vista e sentida não apenas como elemento de acesso ou de passagem – como se sabe, a sua função estrutural –, mas a ponte sobretudo mostrada e convidada a sentir como elemento vivo, orgânico, estético e, até mesmo, falante. A ponte como um ser vivo, à sua maneira, interventivo no espaço, no lugar. A rentrée promete e, até agora, cumpre.

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Bill Fontana, vista da exposição: Shadow Soundings, Galeria Oval do MAAT, 2017

Isabel Nogueira

(n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

MAAT: MUSEU DE ARTE, ARQUITETURA E TECNOLOGIA

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Bill Fontana, vista da exposição: Shadow Soundings, Galeria Oval do MAAT, 2017

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Bill Fontana, vista da exposição: Shadow Soundings, Galeria Oval do MAAT, 2017

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Bill Fontana, vista da exposição: Shadow Soundings, Galeria Oval do MAAT, 2017

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Bill Fontana, vista da exposição: Shadow Soundings, Galeria Oval do MAAT, 2017

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Bill Fontana, vista da exposição: Shadow Soundings, Galeria Oval do MAAT, 2017

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Bill Fontana, vista da exposição: Shadow Soundings, Galeria Oval do MAAT, 2017

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Bill Fontana, vista da exposição: Shadow Soundings, Galeria Oval do MAAT, 2017

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Bill Fontana, vista da exposição: Shadow Soundings, Galeria Oval do MAAT, 2017

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Bill Fontana, Shadow Soundings, 2017

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Bill Fontana, Shadow Soundings, 2017

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Bill Fontana, Shadow Soundings, 2017

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Bill Fontana, Shadow Soundings, 2017

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Bill Fontana, Shadow Soundings, 2017