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Marilá Dardot

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Jorge Vieira Rodrigues, Karolin Spohr, Luiz Novais e Isabella Sabatini

Libro de colorear (México), 2017

Marilá Dardot (1973, Brasil)

            Um conjunto de linhas negras e descontínuas sobre um fundo branco. São estes os elementos que constituem Libro de Colorear, de Marilá Dardot (1973, Brasil). À primeira vista, o observador acredita estar perante formas simples, delineadas por linhas negras e que configuram grupos de pessoas, vegetação, flores, paredes, um microfone, mãos, e letras. A um segundo olhar, contudo, as formas complexificam-se nas afinidades que apresentam com as fotografias típicas da comunicação de massa que acompanham diversas publicações jornalísticas. Na verdade, as formas simples, feitas por Estela Miazzi sob a seleção e direção artística de Dardot, resultam de uma transposição de fotografias de jornais para uma aparente simplificação para desenho à linha. As legendas de cada imagem são claras e políticas, referindo-se a contextos específicos que ocorreram entre os anos de 2014 e 2015 nas Américas Central e do Norte. Acedendo aos websites das legendas, podemos ver não só as imagens que formam a base dos desenhos do Libro de Dibujar, como os contextos nos quais foram primeiramente produzidas. Torna-se evidente, então, o tema partilhado por todas as imagens: a fragilidade humana, especialmente dentro do contexto de imigrações, das fronteiras e das atividades ilegais no continente americano.

            Com esta metodologia baseada na reprodução de imagens dos média, Dardot perpassa o domínio da cópia passiva. Mais do que reproduzir imagens (ou imagens de imagens), a artista oferece-nos espaços em branco num convite a colorir, a interpretar e a completar o que vemos. A cada desenho é dada assim a promessa de uma “vida póstuma” dinâmica, em possibilidades potencialmente infinitas. Como nos livros de colorir infantis, as imagens estão ali para serem completadas, interpeladas, e questionadas.

(1) el niño Marilá Dardot .jpg
Marilá Dardot (1973, Brasil)
Libro de colorear (El niño), 2017
Lápis em impressão a jato de tinta em papel Photo Rag Hahnemüle
21 x 29.7 cm

            Libro de Dibujar evoca a liberdade intrínseca aos desenhos à linha dos livros infantis, mas também o universo dos livros para colorir para adultos, que surgiram pela primeira vez no século XIX e que têm definido um mercado crescente - nos Estados Unidos, a venda de livros de colorir para adultos cresceu de 10 a 14 milhões entre 2015 e 20161. Enquanto os livros para colorir infantis convocam a liberdade do ímpeto criativo, já os livros deste tipo para adultos inspiram-se numa prática antiga, dos egípcios antigos e dos monges budistas, que só recentemente é reconhecida no mundo ocidental: a cromoterapia. Essa medicina anciã baseia-se na crença de que todos os nossos membros e órgãos têm cores distintas e que o nosso corpo existe através das cores e é estimulado por estas. No Budismo usam-se também as mandalas, desenhos complexos que são feitos ao longo de semanas, como forma de libertar a sua consciência e atingir um estado de tranquilidade2.

(2) la bestia Marilá Dardot .jpg
Marilá Dardot (1973, Brasil)
Libro de colorear (La Bestia), 2017
Lápis em impressão a jato de tinta em papel Photo Rag Hahnemüle
21 x 29.7 cm

            Já as imagens complexas e concretas de Libro de Colorear não permitem alcançar qualquer tranquilidade. Exposto pela primeira vez na exibição Bienvenidos – Welcome na galeria mexicana Arredondo\Arozarena em 2017, que investigava a crise migratória contemporânea, especificamente na fronteira México-Estados Unidos da América, o conjunto baseia-se em imagens fotográficas de jornais da barbárie dos eventos resultantes da rota de migração entre os EUA e o México. Perante este conteúdo perturbador, de situações trágicas como o assassinato de imigrantes, o efeito é inverso ao dos livros de colorir. Nas palavras da artista, estamos perante um “livro-estressante”. Usando a fixação por técnicas relaxantes para escapar ao stress da vida contemporânea, Marilá Dardot subverte e problematiza o objetivo dos livros de colorir: em vez de relaxamento, implica conflito interno perante imagens acompanhadas por texto como uma menina recém-deportada dos EUA para Honduras a segurar balões com a legenda “Primeiro vôo estadunidense a deportar crianças hondurenhas. No aeroporto de San Pedro Sula, ao norte de Honduras, uma menina, que acaba de ser deportada juntamente de sua mãe dos EUA, brinca com balões enquanto a repórter tenta entrevistá-la”; ou corpos sem vida abandonados num terreno legendados com o título dado pelo La República “Polícia Municipal envolvida no massacre de 72 migrantes de San Fernando”. A consciência e o posicionamento político estão intrinsicamente presentes no processo de colorir: o ato de dar cor a estes desenhos à linha concede-lhes novos significados não tanto pelas cores em si, mas pelo tempo que este processo implica, um tempo pausado e radicalmente diferente daquele que é pedido pelas imagens que estão na sua origem e que nos chegam vorazmente pelo filtro dos meios de comunicação. Contrariando o escape da realidade que os livros de colorir comuns provém, Libro de Dibujar coloca questões humanitárias no centro de sua experiência.

(3) los cuerpos Marilá Dardot .jpg
Marilá Dardot (1973, Brasil)
Libro de colorear (Los cuerpos), 2017
Lápis em impressão a jato de tinta em papel Photo Rag Hahnemüle
21 x 29.7 cm

            O uso comum do termo “ativismo” pode fazer-nos pensar que tal ideia não se aplica à produção artística de Marilá Dardot com as suas características aparentemente contemplativas e, a um olhar desatento, serenas. No entanto, são precisamente os gestos compassados da contemplação – ou do ato de parar para dar cor a um desenho - que exigem uma imersão contínua dos observadores, num processo que provoca  apropriações e ações individuais. No seu melhor, este processo tem o potencial de instigar o despertar de uma consciência coletiva com um poder transformativo.

(4) los globos Marilá Dardot .jpg
Marilá Dardot (1973, Brasil)
Libro de colorear (Los globos), 2017
Lápis em impressão a jato de tinta em papel Photo Rag Hahnemüle
21 x 29.7 cm

            Libro de Colorear, na sua versão online, para esta edição especial da Revista Contemporânea, tem particularidades que elevam este potencial. Pela possibilidade de ser impresso, implicam uma promessa de disseminação interminável que perpassa o escopo dos leitores desta Revista. Numa coexistência entre o espaço virtual da existência dos desenhos (e das imagens que estão na sua origem) e o espaço físico das suas reproduções potencialmente infinitas, os binómios produção/distribuição; observação/ação; ação/agência emergem. E é neste surgimento que se materializa a intersecção entre o domínio percecional da arte e o domínio necessariamente ativo da consciência cívica e humana.

Jorge Vieira Rodrigues, Karolin Spohr, Luiz Novais, Isabella Sabatini

1 Begley, Sarah, "Is the Adult Coloring Book Trend Coming to an End" (2017) in Time, 3 de Março. Acessível a 12 de janeiro em: http://time.com/4689069/coloring-book-bubble-bursts

2 Wilson, Mark, "The Ancient Origins of Your Obsession with Coloring Books" (2016), in Codesign, nº2, Novembro. Acessível a 12 de janeiro em: http://www.fastcodesign.com/3056467/the-ancient-origins-of-your-obsession-with-adult-coloring-books.

(5) la protesta Marilá Dardot .jpg
Marilá Dardot (1973, Brasil)
Livro de Colorir (O protesto), 2017
Lápis em impressão a jato de tinta em papel Photo Rag Hahnemüle
21 x 29.7 cm

 

Marilá Dardot 

Libro de colorear (México), 2017

Marilá Dardot (1973, Brazil)

A set of black discontinuous lines against a white background. These are the elements which constitute the drawings in the series Libro de Colorear (2015). At first-glance one sees apparently simple forms suggested by the configuration of the lines: human figures gathered in groups, vegetation, flowers, walls, a microphone, hands, letters. However, with a second look these forms are complexly drawn in the affinities they share with typical mass-communication photos that accompany various journalistic publications around the world. Indeed, the forms are the transposition of newspaper photographs into illustrated outline representations by Estela Miazzi, through Marilá Dardot’s (1973, Brazil) thoughtful selection and direction. The captions of each of the images are clear and politicised, referring to specific contexts which took place during 2014-2015 in North and Central America. By accessing the websites featured in the captions one can view the images that inspired the drawings, as well as the context in which they were first produced. Their common subject rapidly becomes evident: human frailty, specifically within the context of migration, borders and illegal activities within the American continent.

However, Dardot does not merely produce a replica of an image: the white spaces are an invitation for colouring, to reproduce and create endless possibilities, giving each drawing the promise of a dynamic afterlife. Like a children’s colouring book, the images are there to be engaged with, questioned and talked about.

(1) el niño Marilá Dardot .jpg
Marilá Dardot (1973, Brazil)
Libro de colorear (El niño), 2017
Crayon on inkjet print in Photo Rag Hahnemüle paper
21 x 29.7 cm

Libro de Colorear evokes not only the intrinsic liberty of line drawings from children’s colouring books but also from the universe of adult colouring books. The latter first appeared in the 19th century and shows a growing market – in the United States adult colouring book sales rose from 10 to 14 million between 2015 and 20161. While children’s colouring books incite creativeness, the adults’ are influenced by the ancient Greeks and Buddhist monks who already made use of chromotherapy. This ancient medicine is based on the belief that all of our limbs and organs have different colours which give life to and stimulate our body. Buddhists also make use of mandalas, a series of complex drawings which are worked on over several weeks as a way of freeing one’s conscience and to achieve a state of tranquility2.

(2) la bestia Marilá Dardot .jpg
Marilá Dardot (1973, Brazil)
Libro de colorear (La Bestia), 2017
Crayon on inkjet print in Photo Rag Hahnemüle paper
21 x 29.7 cm

However, the complexity and redrawing from real-world images contained in Libro de Colorear does not help to reach a state of tranquility. This series was firstly shown in the exhibition BienvenidosWelcome in the Mexican gallery Arredondo\Arozarena in 2017. The exhibition examined the contemporary immigration crisis, focusing on the Mexican-American border. The group of photos part of Libro de Colorear are based in journalistic photographs of the barbarism that occurs in the Mexico-USA migration route. In face of this disturbing content, with tragic situations like the assassination of migrants, the effect caused is the opposite of what is expected from a colouring book. In the artist’s own words, we are confronted by a “stressing book”. While using contemporary life’s obsession with relaxing techniques as means of escaping stress, Marilá Dardot subverts and problematises the purpose of colouring: instead of relaxing, it implies conflict. One of the images depicts a little girl holding balloons who’s just recently been deported back to Honduras from the USA, with the caption “First U.S. flight deports Honduran kids under fast-track push. A girl plays with balloons as a reporter tries to interview her, after being deported with her mother from the U.S. at the international airport in San Pedro Sula, northern Honduras”. Another image portrays lifeless bodies abandoned in a field, with the same caption as the one used by the newspaper La República: “Municipal police involved in the massacre of 72 migrants from San Fernando”. Political conscience and positioning are intrinsic to the colouring process; pouring colour into these line drawings gives new meaning to them, not only for the colours themselves, but for the time that is implied in this process. A paused time and radically different from the one that is requested by the images that are in the drawings’ origins and that arrive to us through mass media and communication filters. Contrary to the common escape from reality colouring books provide, Libro de Colorear places humanitarian issues at the heart of its experience.

(3) los cuerpos Marilá Dardot .jpg
Marilá Dardot (1973, Brazil)
Libro de colorear (Los cuerpos), 2017
Crayon on inkjet print in Photo Rag Hahnemüle paper
21 x 29.7 cm (8.27 x 11.69 in)

The common use of the term “activism” might not seem to account for Marilá’s artistic production, which can be seen as apparently contemplative or even serene to the more distrait eyes. However the very gestures that contemplation – or colouring – encompasses demands a continuing immersion from its observers. This process provokes individual appropriations and actions. At its best, it has the potential to instigate the awakening of a collective consciousness filled with transformative power.

(4) los globos Marilá Dardot .jpg
Marilá Dardot (1973, Brazil)
Libro de colorear (Los globos), 2017
Crayon on inkjet print in Photo Rag Hahnemüle paper
21 x 29.7 cm

Libro de Colorear, in its digital format for this special edition of Contemporânea Magazine, has some particularities that elevate its potential. Beyond the scope of this magazine’s readers, its dissemination is potentially endless because it can be printed. Here virtual (the drawings and the images that inspired them) and physical (the potential of infinite reproduction) are not mutually exclusive. The binaries production/distribution; observation/action; and action/agency emerge. This emergence materialises the intersection between the perceptual and the necessarily active civic and human conscience domains of art.

Jorge Henrique Vieira Rodrigues, Karolin Spohr, Luiz Novais, Isabella Sabatini

Marilà Dardot's Coloring Book

1 Begley, Sarah, “Is the Adult Coloring Book Trend Coming to an End?” (2017) Time, 3 of March. Accessible on January 12, 2018: http://time.com/4689069/coloring-book-bubble-bursts/

2 Wilson, Mark, “The Ancient Origins Of Your Obsession With Coloring Books” (2016) Co.Design, 2 of November. Accessible on January 12, 2018: https://www.fastcodesign.com/3056467/the-ancient-origins-of-your-obsession-with-adult-coloring-books

(5) la protesta Marilá Dardot .jpg
Marilá Dardot (1973, Brazil)
Libro de colorear (La protesta), 2017
Crayon on inkjet print in Photo Rag Hahnemüle paper
21 x 29.7 cm
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