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Alice dos Reis: Para a Vida uma Doença de Cobre
 

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José Marmeleira

 

Na sua mais recente exposição individual, Alice dos Reis, revela uma história, que a ficção vai desfiando com subtileza. Para, poeticamente, falar da experimentação sobre os seres humanos, da objectificação dos corpos pela ciência ao serviço do capitalismo ou dos processos de reprodução biológica e construção social.

 

Há em Para a Vida uma Doença de Cobre de Alice dos Reis, na Kunsthalle Lissabon, um elemento que, não sendo inédito, se tornou comum em certas exposições. Assim que que o espectador começa a visita, é-lhe pedido que suspenda a sua descrença. Não se encontra apenas no interior de um espaço determinado por uma série de protocolos, mas num ambiente, numa atmosfera que constrói uma ficção e é construída por uma ficção. Dito de outro modo: o espectador descobre-se no interior de uma obra em termos sensoriais, espaciais, estéticos e conceptuais. Para onde quer que olhe, ou se desloque dentro da exposição, não tem ponto de fuga. Está com e na obra de Alice dos Reis, mesmo se a obra, enquanto totalidade, seja composta de várias outras obras. A saber, um filme cuja conformação vertical lhe confere um ressonância familiar — como se fosse um sujeito vivo, humano — três imagens peculiares do espaço celeste — onde vagueiam asteroides e um delicado objecto — e, no interior de um estrutura em acrílico, um curioso uniforme que podia passar pelo adereço de um filme de ficção científica. Todos estes elementos ou obras, com as suas cores e sons, luzes e sombras constituem, numa dispersão organizada, um espaço específico; e um ambiente do qual se desfia uma história em que se cruzam a verdade factual e o que poderia ter acontecido da ficção.

Há uma mise-en-scène que seduz. A iluminação, certas cenas do filme e as imagens do espaço despertam uma sensação de conforto, um desejo de escapismo, uma fuga mental, pela imaginação, para outros mundos. Em particular na adolescência, a ficção científica proporcionava essa experiência que, até certo ponto, era tranquilizadora: os cenários futuros, em especial os mais aterradores, permaneciam distantes. O regresso, para a segurança, ainda que imperfeita, do mundo real, estava assegurada. Ora, essa evasão não se dá em Para a Vida uma Doença de Cobre. Para começar, certos imaginários da ficção científica tornaram-se, ou estão à beira de se tornar, hodiernos e tangíveis. Portanto, a segurança do espectador/leitor que fundava a relação com esses mundos possíveis tem vindo a esbater-se.  A outra razão está no cerne da própria exposição: esta narra e revela uma história factual que, vinda do passado, se hibridiza na ficção. Desse laço, produz-se como humor e ansiedade, uma tensão, porventura, irresolúvel.

No filme, uma voz narra, num tem lento e desprendido, a experiência da avó enquanto operária numa fábrica da indústria farmacêutica em Lisboa, entre os anos 60 e 70. Do relato vão-se soltando versos que aludem às condições de trabalho, ao corpo biológico da avó, a um quotidiano inquietante. A ficção, pelas frases poéticas, insinua-se em imagens, cenas, episódios, o factual e o histórico convivem numa dialética por vezes inextricável. No ecrã, vão desfilando planos do que parece ser o interior de uma nave ou estação espacial. Vêem-se corredores, salas, tecos, recantos de cor amarela. A sequência de abertura de Alien, o Oitavo Passageiro de Ridley Scott vem à memória, mas no lugar da música de Jerry Goldsmith, encontra-se a história narrada pela voz da artista: uma história humana, mais prosaica, mas não menos perturbante.

A avó — cujo rosto nunca é mostrado — trabalhou na produção da primeira pílula anticoncecional da empresa e contraiu, no exercício de sua atividade laboral, uma doença pulmonar crónica. As circunstâncias do sucedido são pouco claras, mas sabemos que terá sido injetada, no contexto de um dito controlo de risco, com a mesma substância — um corante amarelo — que a contaminara. É essa a cor que vemos invocado no filme e no já mencionado uniforme, afinal, uma réplica da farda de trabalho da avó de Alice dos Reis.

O visitante não percorre um cenário de ficção científica, com as suas fantasias e projeções, confronta-se com uma verdade que vem do passado. É esta verdade, numa história, que a ficção vai desfiando com subtileza, para, poeticamente, falar de certos fenómenos e realidades: a experimentação sobre os seres humanos, a objectificação dos corpos pela ciência ao serviço do capitalismo ou os processos de reprodução biológica e construção social. A ficção afirmar-se-á no filme, com uma entrevista fictícia à antiga operária. As perguntas são conduzidas pela mesma voz (que é a de Alice dos Reis) e a avó é interpretada pela artista, devidamente caracterizada. O protocolo assemelha-se a um documentário jornalístico, com  a entrevistada a responder às perguntas num tom plácido e distante. Ficamos a saber que voltou a trabalhar — ingressou no sector terciário, deixando para trás a condição de operária — e beneficiou de uma indemnização, cuja quantia investiu na extracção de cobre. A julgar pelo aspecto físico e pelos sinais exteriores de riqueza material, com sucesso. O cobre, que é extraído de asteroides, é muito utilizado na produção de dispositivos intrauterinos, os únicos contraceptivos internos não-hormonais, explica a bem-sucedida empresária. Trata-se de uma matéria-prima barata, acrescentará ainda, antes de desvalorizar os seus efeitos colaterais e mencionar com bonomia, que dispositivos semelhantes não têm sido produzidos para os homens. Num epílogo inesperado, a operária transformou-se na empreendedora financeira que rapina recursos. A pilhagem só difere daquela que caracterizou o imperialismo do século XIX, pela sua escala:  é extraterrena. O feminismo da frase final representa assim o sintoma de um relativismo que legitima a mesma violência, enquanto o desejo de empoderamento foi engolido por um subjetivismo radical. Assim, se a ficção da artista liberta o passado da antiga operária da opressão das estruturas de reprodução social e cultural, não o redime. A exploração dos corpos e dos seres prossegue entre asteroides e dispositivos intrauterinos, quais naves de cobre. A espalhar a doença pelo espaço.

 

Alice dos Reis

Folha de Sala

Kunsthalle Lissabon

 

 

José Marmeleira é Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

 

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

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Alice dos Reis: Para a Vida uma Doença de Cobre. Vistas gerais da exposição na Kunsthalle Lissabon. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia da artista e  Kunsthalle Lissabon. 

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