Ed. 04 / 2018
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João Seguro: A Terceira Margem e As Ruínas Circulares

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João Biscainho

Ninguém o viu desembarcar na unânime noite, ninguém viu a canoa de bambu sumir-se na lama sagrada, mas daí a poucos dias ninguém ignorava que o homem taciturno vinha do Sul e que a sua pátria era uma dessas infinitas aldeias que ficam rio acima...

Jorge Luis Borges [1]

O título da exposição resulta do somatório dos títulos de duas obras literárias, “A Terceira Margem de Um Rio” de João Guimarães Rosa e “As Ruínas Circulares” de Jorge Luis Borges. Ambos os contos têm em comum um rio como cenário. A collage das obras literárias, obriga a uma releitura sobre a perspectiva da continuidade de um texto para o outro. No primeiro conto, um homem abandona tudo na sua vida e entra no leito de um rio, onde permanece dentro de uma canoa e se mantém afastado do mundo, na história de Borges, um xamã que navega numa canoa desembarca em sofrimento na margem de um rio e aí encontra as ruínas de um antigo templo de forma circular. Como num cadavre exqui, a transposição de uma história para a outra, cria uma nova narrativa, uma alegoria da experiência do artista que há largos anos tem vivido e trabalhado entre Lisboa e esta região do Médio Tejo, um percurso feito vezes sem conta ao longo das suas margens e que culmina agora com a residência e a exposição.

A Galeria do Parque, em Vila Nova da Barquinha, situada à beira do Tejo de frente para o Parque de Escultura Contemporânea, acolhe a exposição de João Seguro A Terceira Margem e As Ruínas Circulares, comissariada por João Pinharanda. Nessa mesma rua ao fundo, já no fim do parque, está o edifício do Centro De Estudos de Arte, onde são desenvolvidas várias actividades com as comunidades locais e onde João Seguro passou várias semanas em residência artística no verão de 2017.

Disjecta-reading room e Disjecta-reading room/left hand paths, respectivamente livro de artista e plinto, introduzem a exposição ao visitante. Disjecta-reading room remete-nos como o título indica, para uma sala de leitura sobre vestígios ou fragmentos. A publicação apresenta uma recolha fotográfica, uma reportagem sobre as incursões de João Seguro a um edifício do extinto Instituto Nacional de Investigação e Garantia Agrícola (INGA). O INGA tinha sido criado como centro de investigação de apoio às actividades agrícolas desta região. Dele resta apenas o edifício, onde se destaca um painel de azulejos de formas triangulares (imagem que inicia o livro). A sua função foi adaptada a depósito municipal para todo o tipo de objectos e materiais, que provavelmente, para uma eventual necessidade ou na esperança de serem reutilizados, ali foram mantidos – tijolos, estrados, cadeiras, mesas, o soalho de um ginásio, estantes, madeiras, iluminações de natal, troncos, pilhas de contraplacados, pedras de granito, lenha e até uma máquina de duplicação Gesteten [2] constituem o testemunho do que em tempos foi a vida desta localidade. Entre tantas formas vagamente reconhecíveis e descontextualizadas, como numa ruína, as fotografias no livro sugerem uma existência híbrida entre a possibilidade da escultura e o objecto documental.

Dentro do livro acedemos a uma imagem que nos remete imediatamente para a forma do dispositivo museográfico que o suporta – uma velha cadeira escolar com palmatória. Nesta peça, Disjecta-reading room/left hand paths, o artista inverte a posição da prancha inicialmente concebida para destros num gesto de afirmação de identidade, prolonga a forma do recorte bidimensional até ao chão, transformando a palmatória num sólido de cor branca. A estratégia da exposição é então revelada ao visitante.

João Seguro utiliza diferentes materiais ou fragmentos retirados deste arquivo do abandono, onde alguns objectos e imagens são reaproveitados ou servem como ponto de partida para uma reconstrução das suas formas, das quais resultam oito das dez peças expostas.

São essencialmente duas as abordagens plásticas adoptatas: a recolha de um conjunto de imagens impressas a cores ou a preto e branco e a constituição de um sistema de estruturas tridimensionais que agem como seu suporte físico e dispositivo de exposição, mas que são em simultâneo parte das obras. Em ambas, as referências são relativas à região ou aos objectos fotografados no armazém, mas o cruzamento das referências não é linear, estas citam-se e cruzam-se, de umas peças para as outras, numa dialética circular com as referências literárias e artísticas do autor.

 

 

Shelf-life, uma estante em forma de cunha, cujo design é decalcado das estantes de Heim Steinbach, está colocada no chão. Sobre ela, como se o chão fosse a parede, estão três círculos, três quadrados e um quarto de círculo, recortados da madeira de um estrado de um ginásio desmantelado, onde podemos facilmente reconhecer as marcações de um campo de jogos. Na peça ao lado, o artista reconstruiu à escala, um estrado em madeira que simula o estrado fotografado numa das imagens de Disjecta-reading room. Sobre este estrado, repousa um círculo branco que por sua vez serve de base à peça Development, development - um poema coberto por pedras de gelo que aparentam começar a derreter. Não fosse o gelo feito de acrílico e ao fim de alguns minutos poderíamos aceder à leitura dos caracteres distorcidos, escritos a partir da obra de Nikolai Chernyshevsky “What is to be done?”. [3] Perpetuum lorem ipsum, constitui-se como um template desdobrável, esta estrutura estende-se ao longo da galeria como o esqueleto de um pequeno biombo que serve de suporte a várias impressões fotográficas entrelaçadas na grade de madeira (fragmentos referentes a memórias e actividades desenvolvidas na região, como escavações arqueológicas, paisagens do rio, um painel de azulejos. A fotografia inserida num sistema de estruturas abertas, surge novamente em A terceira margem, onde as imagens captadas a partir da janela da residência do C.E.A.C. nos mostram a entrada de remadores com as suas canoas no Tejo. Em O ABC (#3),  um aglomerado de grades de madeira vazias (cuja escala corresponde às medidas do sistema internacional ISO de tamanho de papel) está colocado verticalmente, em movimento rotacional, sobre três fotografias sobrepostas: a paisagem de um rio aparece sobre a imagem da fachada de uma livraria abandonada em Londres (cidade onde viveu João Seguro), que por sua vez surge colocada por cima da imagem de um deserto.

A estratégia de operações de duplicação das formas, assume particular relevo em três obras. Em (Return to) the largest theme park in the world [4] João Seguro apresenta oito reproduções fac-símile do verso dos frontispícios dos oito capítulos do livro “Letters From Portugal and Spain". [5] A peça Porta do Entroncamento, surge de costas para a entrada da exposição, tombada, encostada a um pilar, é uma réplica em ferro forjado da porta de uma antiga casa de fardas abandonada numa rua do Entroncamento (local de passagem frequente do artista ao sair da estação de comboio). Os desenhos Tile, ruin, grid (#2, #3, #5), feitos com tinta de grafite, decalcam a negro o padrão triangular do painel de azulejos do edifício da INGA. As linhas do desenho surgem de forma muito precisa, e manifestam pequenos rasgos intencionais devido ao método de descolagem do stencil na folha de papel.

Em A Terceira Margem e As Ruínas Circulares, João Seguro devolve-nos um conjunto de objectos, memórias e registos. Esta transformação confere-lhes um novo valor e completa-se um ciclo sobre uma morte, que é também um testemunho do fim do projecto de modernidade no interior do país. O tempo e o espaço confundem-se na experiência do artista transmutada em dez peças, como num sonho, sem princípio ou fim a exposição torna-se ela própria um não-lugar, um espaço mental tornado comum, como uma terceira margem tornada real à beira do Tejo.

João Biscainho

Artista e curador cujo trabalho se tem centrado em questões associadas à tecnologia, ao espaço herteziano, novos media e estudos culturais. Licenciado em Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa (2006) e mestre em Museologia
(2012) pela Universidade Nova de Lisboa com a tese “Experiência de Cinema”: Exposição e Conservação. Entre 2012 e 2017 foi Curador Assistente na Fundação Leal Rios. Em 2009 criou o Gate Galleries (o primeiro guia de arte contemporânea de Portugal). Como artista, expõe o seu trabalho desde 2006 em mostras individuais e colectivas. O seu trabalho está representado em várias colecções, públicas e privadas.

 

Galeria do Parque de Vila Nova da Barquinha

 

 

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João Seguro. Vistas da exposição A Terceira Margem e As Ruínas Circulares. Galeria do Parque de Vila Nova da Barquinha. Fotos: @photodocumenta.

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notas:

[1] Borges, Jorge Luís. As Ruínas Circulares. Quetzal Editores. Lisboa 2013.

[2] Pela sua dimensão reduzida, de fácil transporte e ocultação, esta máquina de impressão offset foi muito utilizada pelos diferentes grupos de acção revolucionária e movimentos estudantis pró-democracia antes do 25 de Abril de 1974.

[3] “What is to be done?”, da autoria de Nikolai Chernyshevsky, foi publicada pela primeira vez em 1863, é considerada uma das obras literárias que exerceu maior influência sobre Lenin antes de fazer a Revolução Russa.

[4] Referência directa de João Seguro à obra de J.G. Ballard “The Largest Theme Park in the World”.

[5] Neale, Adam, Letters From Portugal and Spain, London, 1809. O exemplar fotografado encontra-se depositado na Biblioteca Nacional em Lisboa. Relata o percurso de tropas britânicas durante as Guerras Penísulares ao longo do rio Tejo, em direção a Espanha.

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