Ed. 04 / 2018
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Hugo Canoilas e Antónia Labaredas: Ó aranha! Grande aranha! Trazes a cura, aranha?

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Susana Ventura

O tempo da revolução nas asas de uma borboleta

- Sobre a exposição de Hugo Canoilas e Antónia Labaredas Ó aranha! Grande aranha! Trazes a cura, aranha?

Não existe cura alguma pela obra de arte, mas a aranha revela-se uma curiosa anfitriã... Aranha, a obra que enuncia a exposição recente de Hugo Canoilas e Antónia Labaredas na Galeria Quadrado Azul em Lisboa, mostra uma aranha capturada por um copo de vinho, um gesto que nos é familiar se pretendermos devolver a aranha à vida, contudo, neste caso, a captura da aranha e a sua exposição numa prateleira suspensa são os primeiros sintomas de que algo está para acontecer: Ó aranha! Grande aranha! O que escondes, aranha?

Il Trionfo della Morte define um umbral. Transpor este limite, que é também o fino fio entre a vida e a morte (da aranha capturada e da cura prometida), implica uma aceitação prévia do que está para vir, do desconhecido, da possibilidade de uma antevisão que nos é dada a ver (e a pensar), simultaneamente um desafio, que tem os seus perigos e a partir do qual não deveríamos regressar os mesmos, e um compromisso de alteração, de mudança… “Como se a efectividade de uma partilha, e a sua verificação, contasse mais do que uma garantia de sobrevivência”, como escreve Bernard Aspe, para descrever a situação drástica da personagem principal do filme Take Shelter de Jeff Nichols, no seu texto Mais tarde é agora, que tem estado presente em diversos momentos da produção artística de Canoilas e que esteve na origem da presente exposição.

O tempo, em Aspe, tem uma dimensão política. É o tempo da resistência e da revolução que, para nós, coincide com o tempo da obra de arte. Aspe começa por recorrer ao princípio de individuação postulado por Gilbert Simondon para explicar a interpretação deste da “flecha do tempo” que corresponde, ao contrário do Chronos (a passagem do tempo cronológico que estabelece um passado, um presente e um futuro), a uma virtualização do futuro que existe em potência no presente, que poderíamos igualmente pensar como Aiôn, o tempo intensivo (aquele da obra de arte, também). O princípio da individuação de Simondon afirma-se como uma alternativa à oposição clássica entre forma e matéria, em que o indivíduo formado (matéria) é contemporâneo da sua individuação (forma) e ambos se constituem mutua e contemporaneamente a partir das forças, que ocorrem no plano por eles formado, distribuídas através de um modelo dinâmico que Simondon designa por modelação (interacção das diferentes energias e materiais que conduz à individuação). A modelação, em Simondon, é o que, de facto, explica a “flecha do tempo” e o momento presente, que Aspe caracteriza cruzando com a ideia de Zygmunt Bauman de “sociedade líquida”. Nesta, os indivíduos “não estão totalmente comprometidos com a vida que está efectivamente em curso: esta nunca está definitivamente estabilizada, é sempre susceptível de reconfigurações mais ou menos radicais” (Aspe). A vida e o presente são entendidos como matérias moldáveis, apropriáveis e abertas a um futuro imanente do plano de forças (o presente enquanto potência de devir) ao qual deveremos responder.

Habitar o presente é o que nos dá uma alma (a alma nasce quando a flecha do tempo reencontra a sua direcção: “do futuro em direcção ao passado, através do presente”).

O título do texto de Aspe não tem nada de catastrófico, porque implica acolher o futuro no devir do presente, incluindo o impensável e o inimaginável (o devir nunca é predeterminado, o que transformaria este acolhimento numa espera, como Aspe, também, refere), o que, de certa forma, nos leva a atravessar Il Trionfo della Morte com uma tranquilidade paradoxal, imaginando que dificilmente poderá existir alguma cura e que a inquietação será uma reacção natural da nossa espécie quando confrontada com esse mundo que espreita.

No umbral transborda um manto viscoso e espesso de cor lamacenta que apanha tudo, engole, dissolve, desfaz e fossiliza todos os resquícios da acção violenta do homem sobre a superfície terrestre. O jogo figura-fundo adquire uma espessura onde dicotomias prévias e estáticas (a estrutura determinista engoliu-as há muitos anos atrás), como industrial-natural, orgânico-artificial, formam um sistema metaestável, em que, por diversas vezes, as obras de Antónia Labaredas surgem em pontos de tensão máxima num equilíbrio instável, perto do limiar do colapso: uma figura-búzio [1] periclitante numa viga sobre um balde ou uma figura-ostra na intersecção de dois planos, o vertical de uma borboleta comida por formigas e um horizontal flutuante ou suspenso no tempo. A oposição cromática entre a cor opaca da lama, criada por Canoilas com vários componentes e pigmentos inorgânicos, e as subtis variações dos corantes cerâmicos e do crês não deve, por isso, ser entendida como a afirmação de um mundo habitado por uma espécie que sobrevive ao fundo tóxico, mas como a transmutação das formas pela acção das forças que definem esse meio que já não é natural, existindo, inclusivamente, a possibilidade de co-existência de algumas formas geométricas como a figura-peão ou a figura-hexágono. Canoilas fala de fragmentos de resistência, devendo ainda ser compreendidos pelo próprio princípio de individuação de Simondon em que o molde e o moldado actuam um sobre o outro, gerando-se em simultâneo a partir do plano de forças que originam num estrato de tempo, como sucede, quase de forma literal, em Metamórfica de Labaredas.

As peças desta artista concretizam a flecha do tempo a que Aspe se refere: nelas encontramos uma actualização da potência do presente em futuro, permitindo-nos uma aspiração de esperança.

Do chão, liberta-se, igualmente, um plano animal que sobe pelas paredes que os quadros desenham, virtualmente, no espaço. Os quadros, de costas voltadas, empurram-nos para o seu próprio espaço, delimitado por um campo de forças, que deles emana, imprescindível ao nosso confronto com eles, porque ferem, ferem o olhar com a cor intensa, propositadamente viva, que parece soltar-se do plano bidimensional da tela com a sua escala sufocante, colocando-nos num combate de um para um pelo qual devimos-animal, animal sobrevivente de muitos outros combates, animal que sofre. O devir-animal pode ser compreendido, igualmente, a partir do princípio de individuação, não no sentido da percepção fenomenológica, de uma perspectiva a partir da qual olhamos como um animal ou olhamos o animal que nos contempla devolvendo-nos um olhar animal, mas a partir de um plano de forças que se cria entre nós e o quadro, dissolvendo esse limite entre indivíduos e animais, fazendo-nos sentir no corpo ora todos os animais antepassados que fomos, ora a dor das asas corroídas e da carne esquartejada… Seguindo Simondon (e Deleuze a partir de Simondon), a especificação advém de uma intensidade, como podemos entender as manchas informes e vagas de cor que se espraiam pelas superfícies do quadro. Em Borboleta comida por formigas devimos-animal pela cor, ou melhor, é a cor que devém-animal e nós, pela cor, devimos-borboleta. Canoilas refere que estes quadros propõem um regresso a nós próprios, onde compreendemos um regresso às forças de individuação exteriores a todas as hierarquias e estruturas definidas, um regresso ao plano animal que nos atravessa, também.

Neste regresso, compreendemos o sentido político presente na própria exposição. Esta não apresenta qualquer formulação fatídica sobre a acção dos homens na superfície terrestre, nem constrói cenários apocalípticos e utópicos, mas, retomando o texto de Aspe, propõe nesse regresso o encontro dos dois tempos que este autor define, por último, no seu texto: o tempo da individuação colectiva, que nos devolve o futuro enquanto potência do presente, e o tempo dos sujeitos da economia (do determinismo, das estruturas e das hierarquias estáticas). A simultaneidade destes dois tempos incompatíveis cria, para Aspe, um terceiro tempo, o “tempo revolucionário”, onde actua, para nós, a obra de arte. A obra de arte não traz a cura - nem a aranha - mas realiza o que Aspe deseja para si e para todos aqueles que pensam a partir do conflito entre os dois tempos, trazendo a revolução para o limiar da “irrupção do futuro”.

Susana Ventura

(Coimbra, 1978) Arquitecta de formação (darq-FCTUC, 2003), contudo prefere dedicar-se à curadoria, à escrita e à investigação, cruzando diferentes áreas do conhecimento. Gosta de pensar sobre arte, arquitectura, fotografia, cinema e dança, e ensaiar, ora em textos, ora em exposições, outras possibilidades de pensamento. (Por isso, também, doutorou-se em Filosofia, na especialidade de Estética, FCSH-UNL, 2013, sob orientação científica de José Gil). Recentemente, foi co-curadora de “Utopia/Distopia”, no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia de Lisboa (MAAT). 

 

Hugo Canoilas

Antónia Labaredas

Quadrado Azul

[1] Estas denominações são da nossa autoria para “aludir” às obras de Antónia Labaredas.

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