Ed. 03-04 / 2019
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Diogo Pimentão: Os desenhos que os corpos fazem e nos deixam

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José Marmeleira

Há nove anos, numa troca gentil de emails, perguntou-se a Diogo Pimentão se o título Diferido, que dava o nome a uma exposição na desaparecida galeria Marz, não nos falava de vestígios e evocações de experiências passadas, experiências essas que concebiam o desenho como outro corpo. Corpo com um aspecto particular, físico e material; desenhado, moldado, esculpido, tocado com o movimento das mãos e dos dedos, mas, também, com o movimento do pensar. O desenho, na exposição, era esse corpo, de cujo encontro brotavam volumes, desenhos de ações e de figuras, desenhos que colocavam a percepção do espaço, da matéria e do tempo num ponto de desequilíbrio, de instabilidade, de ilusão até.

Agora diante de Drawing Body, a segunda exposição individual do artista na Galeria Cristina Guerra, os vestígios e as evocações de experiências do corpo com o corpo do desenho aparecem de um modo imediato, irrefutável, dir-se-ia literal; como se a réplica fosse mais afirmativa. São, agora, marcas de uma passagem, traços no chão (linhas, movimentos circulares, ondulantes, rastos), qual página branca desenhada. Poder-se-ia até dizer outra coisa: que a parede se tornou chão, palco de ações improvisadas.

O que se vê é um espaço vivo, em que o artista e um actor (José Pimentão) se expuseram como corpos e figuras, mas que só se completa com a entrada de outra personagem: o visitante. Com efeito, todo aquele que entra naquela superfície desenhada, dança/desenha nessa superfície branca pintada pelo carvão, para reaparecer, em tempo real, noutra parede, agora feita imagem em movimento (trata-se da peça [Drawing Bodies], na segunda sala da galeria). Portanto, o corpo daquele também desenha. Participa na obra, faz a obra, ainda que de outro ponto no espaço, mais distante. Mas não apenas: diante daquelas linhas pode ser reconduzido, pela memória, a experiências passadas (suas) do desenho como actividade primordial feita com as mãos, com o corpo, antes de se aproximar da escrita ou de qualquer tipo de representação por meio de signos. Ao mesmo tempo, aquele chão feito parede não deixa de possuir uma origem irredutível: foram o artista e o actor que ali deixaram movimentos e experiências que a obra também documenta.

Do chão para parede, o desenho levanta-se. Vemo-lo na peça Outer (Structure), um ecrã ou tela em que o papel, a grafite e o metal se confundem. A percepção da matéria e do desenho é desestabilizada mediante as qualidades internas do objecto (forma, geometria, densidade, dimensão) e a sua própria disposição, pois ele não pertence totalmente à parede e, no entanto, é a parede que o sustém; é tridimensional e, todavia, parece não querer romper com a bidimensionalidade.

No momento seguinte, o corpo do desenho ganha gravidade, regressa ao chão, torna-se escultura. Poder-se-ia acrescentar que Diogo Pimentão se aproxima mais claramente desta, dada a presença da força, da massa do cimento. É este material que se encontra com a grafite, partilhando o espaço do fazer e da obra. Veja-se as duas peças esféricas de chão Resilient (Tangency). De cimento, têm cada metade coberta de grafite e é precisamente no intervalo, na linha (invisível) que separa os dois materiais (o cimento e a grafite) que parecem tocar-se, numa tangente. Parecem: não vemos esse ponto de fricção, do mesmo modo que o visitante só poderá imaginar o possível movimento das esferas (parecem suspensa, à beira de uma rotação) e a sua percepção será sempre alterada à medida que ele próprio circula à volta de peça, que caminha. Resilient (Tangency) existe à medida daquilo que fazemos no espaço com o corpo e com a nossa capacidade de o transcendermos, evocando analogias, metáforas. Portando, estabelecendo um contacto com o mundo que transpõe, mesmo que provisoriamente, a esfera da arte.

O desenho transfigura-se em objectos numa relação, numa interacção objectificada que a nossa experiência libertará. Experiência que é sempre sensorial e potencialmente háptica.

O desenho de Diogo Pimentão tem essa característica, pois nele o pensar conceptual é indestrinçável do corpo, dos seus contornos, das suas reentrâncias e linhas, das suas mãos e dos seus dedos. Na mesma conversa, o artista falava, a propósito da peça Ergonomia, de pedras que, semelhantes a instrumentos de polimento, de risco incisão ou corte na pré-história, podiam encaixam como luvas numa mão. Esse cariz táctil, moldável, manual, portátil surge em vários momentos da exposição. Note-se One Body/Two hands/Ten fingers/Supposed, esculturas esféricas irregulares que traçam um desenho na parede, uma linha, um percurso, e em que o cimento e o desenho se mesclam numa leveza imprevista. Ou em Matter(Frontal) e Matter(Perspective) em que o grafite cobre apenas uma da metades dos objectos, também eles feitos de cimento. Para lá da dualidade da matéria e da textura, sobressaem as marcas do trabalho manual. Diogo Pimentão deixou secar nas mãos o cimento líquido que foi rodando para que este não caísse. O resultado foi o fixar de uma revelação, de um secar exposto à humidade, ao calor, ao frio e, em termos visuais, a reificação de objectos que se poderiam considerar reminiscentes da escultura pré-histórica. Há um apelo nestas peças quase carnal à fisicalidade, ao agarrar.

Cimento com grafite, escultura que de declina do desenho, linhas, limites. Na série Concept Formation, vêem-se desenhos de quadrados, de um triângulo, de um paralelogramo, de um polígono. Do universo da geometria, são formas ideais e abstractas, de uma elegância rígida e universal, que vemos sob placas de cimento partido, quebrado que o artista recompôs de um modo aparentemente aleatório.  A fragilidade do cimento, a sua presença em fragmentos, superfícies estilhaçadas, parece contrariar a exactidão das formas geométricas. Mas é desse encontro, dessa sobreposição, que nascem desenhos de espaços, de construções, em que o fundo e a forma, o volume e a superfície plana se agitam, invisíveis.

Na última sala, o chão da entrada da exposição torna-se de novo parede, parede imaterial, em que se projectam imagens. A dimensão performativa intensifica-se. Num vídeo, em loop, há alguém (o artista?) que se lança, em queda, sobre o vazio, aceitando a gravidade. A sensação de vertigem é irreprimível, mas no lugar do som do embate, encontramos Shadow (Gravity), peça que replica, como vestígio, a roupa usada por aquele performer. Escultura ou desenho deixado no chão por aquele corpo? Noutro vídeo, Touch (Out), o som do embate dos pés no chão impede uma resposta final.

Diogo Pimentão

Cristina Guerra Contemporary Art

José Marmeleira. Mestre em Comunicação, Cultura e Tecnologias da Informação (ISCTE), é bolseiro da Fundação Para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e doutorando no Programa Doutoral em Filosofia da Ciência, Tecnologia, Arte e Sociedade da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no âmbito do qual prepara uma dissertação em torno do pensar que Hannah Arendt consagrou à arte e à cultura. Desenvolve, também, a actividade de jornalista e crítico cultural independente em várias publicações (Ípsilon, suplemento do jornal PúblicoContemporânea Ler).

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Diogo Pimentão, Drawing Body. Vistas da exposição. Cristina Guerra contemporary Art. Cortesia do artista e Cristina Guerra contemporary Art. Fotos: Vasco Stocker Vilhena.

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