Ed. 12 / 2017
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Beatriz Olabarrieta: Meeting With a Double Agent

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David Silva Revés

O espaço acentua a sensação - ou o estado premonitório - que se gera momentos antes do encontro anunciado em Meeting With a Double Agent, título da exposição de Beatriz Olabarrieta na Syntax, com a qual este espaço termina a sua actividade e encerra um ciclo de produção artística iniciado em 2015.

Será este um encontro secreto? (Num espaço que, também ele, parece secreto?) 

- E que não se entenda aqui este segundo secretismo no sentido de penumbra ou obscurecimento, por uma eventual lateralidade da sua presença na cena artística lisboeta, mas, sim, um secretismo (e a hipótese é circunstancial) pela suas características espaciais (e geográficas) definidoras: aquelas que condicionam, na sua especificidade, uma forma de percepção e formulação, como potencialidades a explorar pelos artistas que a Syntax receba – um espaço que interfira, que sublinhe e viabilize. Que informe e enforme. Que se imponha, ou que se disponha perante.

Esta cave recolhida, onde a Syntax fixa os seus momentos expositivos, aumenta um estado perceptivo, material e háptico, de entrada num lugar que se resguarda dos olhares (e é curioso notar que este é, no limite, um espaço para a concretização do olhar nos seus sentidos mais amplos) e que resguarda os seus segredos (e conjeture-se a ideia da arte como segredo) – porque aparentemente escondida, porque não deliberadamente despercebida, porque perene na manutenção de uma interioridade que se presta e conduz à revelação, mais não seja – e esta como razão primeira - pela descoberta física e gradual na descida das escadas que conduzem ao seu amplo interior, inferior ao nível da rua. 

Olabarrieta parece actuar nesses constrangimentos – a localização e a privacidade da Syntax, a carga informativa do seu pavimento ladrilhado, as curvas, vãos, colunas, os recantos das paredes e as portas que a limitam -, fazendo deles o seu reverso. Ela eleva-os (e esta talvez seja uma palavra demasiado forte) a um elemento do seu próprio trabalho, tomando-os como matéria de acolhimento para os seus objectos, querendo pensá-los a partir daí, mas – e sobretudo – pensá-los com isso, construindo, deste modo, um ambiente objectual de intimidade que prevê, acompanha e inclui o entorno onde se dá a ver, sem, contudo, interferir na sua configuração.

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Mas, talvez, esteja somente a ser influenciado pelo título. Porque ver é sempre um acto projectivo. (Vejo o que quero ver? Vejo o que espero ver?). Ou talvez seja este mesmo o intuito da artista – fixar o começo da exposição numa prévia expectativa de um futuro espectador (e guardemos esta ideia): começando na sugestão dada pelo título, naquilo que este pode oferecer às deambulações da imaginação e à inquietação antecipativa que se venha a gerar, e pospondo todos os restantes elementos num plano de confirmação ou revelação disso mesmo – ou na sua negação, até. Um confronto entre aquilo que é esperado, aquilo que poderia ser e aquilo que efetivamente é. (Um artifício nominativo? – certamente uma possibilidade injusta).

Pois, então, se a visão futura que se fará presente é, desde logo, condicionada, que se faça atento o olhar, perscrutador e curioso, na busca deste agente duplo que, ao enunciar-se, impõe um movimento de procura simbólica. Mas também real, consciente e inquiridor. - Estamos alerta. Em diligência e, arriscaria, desejo.

E assim continuamos no caminho deste encontro, um encontro expectante. E assim entramos naquele espaço e colocamo-nos diante dos objectos que Olabarrieta dispõe: com o desejo de encontrar neles uma qualquer verdade escondida, uma qualquer resposta às interrogações que só nós colocámos (porque, na verdade, nada nos é colocado, nado nos é dito – só conjecturas no meio daquelas sombras). 

Este mostra-se, sem dúvida, um encontro difícil. 

Difícil porque, ali, não encontraremos ninguém. “Quem é este agente duplo? Onde está?” – são perguntas que parecem ficar sem resposta. Mas só parecem ficar. Ou, talvez, nem necessitem de ser respondidas. (- Lá iremos)

E difícil pelas conclusões às quais possamos chegar; ambíguas na latência da apresentação de um estado velado (vários estados) que, no momento em que começam a expor-se, recuam com a mesma velocidade, ficando reduzidos à expressão de uma nota ou apontamento (sombras, contornos, sombras de contornos).

As respostas fazem-se em prospeções imaginativas (as nossas) – e talvez resida aqui a força ou semente de significação e interferência desta exposição. Ou estaremos perante uma questão de indefinição, de incerteza?

Parece-me que uma tentativa de adequação de quaisquer provisões enunciativas, prévias ou posteriores, seria um esforço inglório, rebuscado ou pouco relevante. Larguemos os vícios e as mochilas carregadas, larguemos os mapas construídos.

Meeting With a Double Agent é uma exposição incompleta. Incompleta porque ela não quererá fazer parecer que nada do que é exposto, de facto, lá está com o peso e força de estar – com a significação de estar e ser nisso. Só apontamentos, outra vez, só contornos. Falta-lhe o verdadeiro conteúdo: o agente de toda a acção. E é nesta falta – daquele que se enunciara e que procurávamos – que age, que actua, que se insinua na sua aparente estranheza. Um paradoxo curioso. Provavelmente, muito contemporâneo.

Olabarrieta cria cenários justapostos. Que não são bem cenários, mas os seus espectros. Circunscrições de espaço delimitadas pelos vários candeeiros de metal que povoam a exposição. A sua luz ténue mas presente, ilumina lugares quase vazios, como à espera de algo que ali aconteça, de algo que ali se revele. 

Em todos estes proto-cenários somos nós as personagens principais. Aquelas que se movem sob a luz dos seus candeeiros de cena, sob os focos que, não sendo apontados a nada que não ao espaço em vazio, despertam em nós a sensação de estar num qualquer tipo de palco, num qualquer tipo de representação. (A representação da própria arte? A representação da própria vida? Nós enquanto seres que se auto-representam?). Ou de ser, simplesmente, a matéria de atenção. Sob o foco, somos enfoque, somos certeza.

Estamos do lado de lá e, ao mesmo tempo, aquém do espelho. (O espelho integrado num dos candeeiros indica-nos isso). Quem é visto, somos nós. E nós também nos vemos. Vemos e somos vistos (por nós próprios).

E ouvimos ecos de outrora presentificados pelas cinco faixas sonoras que a artista integra nesta exposição, e que, ao serem iniciadas com o toque de um sino, actuam como interferências para uma mudança textual ou narrativa que ali façamos projectar. Cinco mudanças, cinco estados ambientais diferentes, cinco formas de relação em potência, cinco formas de entrar no corpo, cinco formas de activação memorial. A memória relacional e inventiva, agitadora do pensamento, formuladora de hipóteses.

Mas, da mesma forma que estes espaços (ou todo este espaço, como uma instalação única) impelem a que nós os ocupemos, iluminando as nossas acções e apelando a configurações múltiplas e sucessivas de construções projectivas de uma memória em activação, - uma memória que ali se estende procurando elementos de identificação ou conforto -, eles confrontam-nos como eventuais espectros de outras acções, de outros tempos, de outros corpos e objectos, de outras figuras, de outros lugares que, sob aquela mesma luz, concorrem no mesmo plano intuitivo e meta-narrativo que se manifesta na ponta dos nossos dedos, no lonjura do nosso olhar. Aquelas fotocópias de desenhos meio desconexos, fixadas na parede de forma precária, como notas ou indicações, ou mesmo as restantes impressões sobre papel em articulação com as estruturas metálicas ali dispostas, confrontam-nos como sombras de outras memórias (e mesmo como memórias de realidades que podem nunca ter acontecido, ou que quereriam tê-lo feito). Memórias e construções em potência (convocadas pela artista) como tela onde as nossas têm agora lugar. (Será este o mecanismo da História? Um mecanismo onde fantasmas se sucedem cumulativamente em novos corpos?).

Talvez o mais interessante, ou desconcertante, seja verificar que, no final, este agente duplo que tanto procurámos, com alguma obstinação e expectativa, seja o nosso próprio corpo, o nosso próprio olhar reflexo. Como agente que procura e que é encontrado, que reflete e que é refletido, que olha e é olhado, que projecta e é projectado. O encontro é feito connosco. E, de repente, estamos ali.

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David Silva Revés

(n.1992) É actualmente mestrando em Estudos Artísticos, vertente Teoria e Crítica de Arte, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, tendo-se licenciado em Jornalismo pela Escola Superior de Comunicação de Lisboa. É membro fundador do colectivo de curadoria Petri [with y], responsável pela programação da Galeria Painel, Porto, em 2017/18. Desenvolve uma prática crítica e ensaística com a qual colabora regularmente para algumas publicações, projectos e exposições de âmbito artístico ou académico. É, juntamente com Catarina Real, programador e moderador do ciclo de conversas “Em montagem”, que tem lugar na Appleton Square, Lisboa. Vive em Lisboa. Trabalha entre Lisboa e Porto.

 

Syntax Project

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Imagens: Beatriz Olabarrieta. Vistas da exposição Meeting With a Double Agent. Syntax. Cortesia da artista e Syntax.

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