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Si è presa gioco di me. Chiara Fumai (Rome,1978 - Bari, 2017)

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por Hugo Canoilas

Quando, em 2010, visitei o estúdio de Chiara Fumai, deparei-me com uma narrativa de carácter biográfico que albergava a sua produção. O seu pai, Nico Fumai, trabalhador numa fábrica no sul de Itália, tinha ficado com ela quando a sua mãe os abandonou para seguir o sonho de uma carreira de atriz. O trabalho de Chiara reconstituía a história da italo-disco – género de música pop, criado em Itália nos anos 70, que através da utilização superficial da língua inglesa, recurso a sintetizadores e caixas de ritmos se internacionalizou. Um conjunto de conferências/performance e DJ sets  ganhavam corpo com um conjunto de objetos, discos e imagens que Chiara tinha colecionado, produzido e exposto, colocando o seu pai como o pioneiro deste género musical. A obra apresentava-se, também, como uma vingança ao inverter o grau de visibilidade dos seus dois progenitores, garantindo a ribalta ao seu pai no plano simbólico e institucional da arte. A narrativa oscilava entre o verosímil e o falso. A mãe trabalhou de facto com Pasolini e a família vive em Bari, mas pouco mais poderemos dizer que era verdade. Chiara enganou-me e eu quis ser enganado. Passei, sem perceber, da condição de artista que visita, avalia e tenta ajudar o outro artista a criar maior consciência sobre o que faz para a condição de sujeito daquele joguete, sem maldade. Ela invertera os papéis: inverteu a condição ator e público ou médico e paciente, baralhando as relações de poder.

Chiara Fumai foi uma trickster – figura mitológica, que em histórias adopta a forma de deus, deusa, espírito, homem ou mulher, planta  ou animal antropomorfizados. Sujeitou-nos aos seus truques e partidas, enganando-nos com grande dose de inteligência. Desobedeceu às normas, regras e comportamentos convencionais.

Chiara Fumai - Páginas da sua contribuição para o Jornal d’Óbidos - uma escultura social de Hugo Canoilas com várias colaborações, na forma de livro apresentado no Concelho de Óbidos para Junho das Artes 2010, comissariada por Filipa Oliveira.
Chiara Fumai - Páginas da sua contribuição para o Jornal d’Óbidos - uma escultura social de Hugo Canoilas com várias colaborações, na forma de livro apresentado no Concelho de Óbidos para Junho das Artes 2010, comissariada por Filipa Oliveira.
Chiara Fumai - Páginas da sua contribuição para o Jornal d’Óbidos - uma escultura social de Hugo Canoilas com várias colaborações, na forma de livro apresentado no Concelho de Óbidos para Junho das Artes 2010, comissariada por Filipa Oliveira.
Chiara Fumai - Páginas da sua contribuição para o Jornal d’Óbidos - uma escultura social de Hugo Canoilas com várias colaborações, na forma de livro apresentado no Concelho de Óbidos para Junho das Artes 2010, comissariada por Filipa Oliveira.

Conheci a Chiara através do artista Gonçalo Sena quando fui lecionar no programa de mestrado Good trip, Bad trip - organizado por Mark Kremer, que ambos frequentavam no Dutch Art Institute em Enschede, na Holanda. Durante dois anos abordaram o espaço entre o Psicadelismo e a Arte Conceptual - dois momentos importantes na produção artística dos anos 60 que foram isolados historicamente: um tornou-se cânone da arte contemporânea e o outro foi afastado para a condição de cânone da música. Ficou por estudar um conjunto de práticas, obras e autores onde este dois modos de produção coexistiram ou que oscilaram entre um cânone e outro. Chiara Fumai era uma das artistas que produzia um eco deste fenómeno esquecido na produção artística contemporânea. A sua produção brotava de uma brecha entre uma brutal força reativa - do intelecto; em relação com o exterior e a força afirmativa com que o seu corpo hipersensível organizava o seu sujeito - interior, cá fora, na forma de objecto. Parte dessa força racional investia em modos de investigação sobre a obra e pensamento de mulheres livres medievais, escritoras, ativistas, bem como filosofia e hermetismo. Para Marco Pasi - professor de História da Filosofia Hermética na Universidade de Amsterdão e um dos grandes especialistas na obra de Aleister Crowley, Chiara “cuspira em Hegel”, como  Carla Lonzi o fizera - a crítica de arte italiana que se tornara ativista-feminista nos anos 70 e autora, entre outras obras, de Sputiamo su Hegel, La donna clitoridea e la donna vaginale e altri scritti.

“Para Chiara, o mundo do oculto não era apenas um jogo e não era a manipulação superficial de um tema elegante. As coisas foram muito mais profundas, em lugares onde eu (Marco Pasi) só poderia acompanhá-la na entrada, deixando-a atravessar o limiar sozinha. Não há muitos com permissão para se aventurarem nesses lugares e retornar com material válido para uma arte verdadeira”.

Este corpo, de extrema fragilidade, aventurava-se num meio com um sistema de valores exteriores à arte, o que lhe possibilitava produzir livre da força, cada vez mais normativa da arte contemporânea. A ligação da obra de Chiara ao plano do Esotérico e do Oculto foi sempre  uma barreira de preconceitos éticos, sociais e artísticos que a afastou de uns e um escudo que a aconchegou em comunidade com outros. Existia algo definitivamente político, na forma como Chiara resgatava figuras do passado e lhes dava voz aqui e agora, emancipando-as. O seu trabalho representa, de facto, um forte contributo para o Feminismo. 

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Chiara Fumai, Vista geral de Love from Sinister, Cortesia A Palazzo Gallery, Brescia

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Chiara Fumai, Zalumma Agra reads Valerie Solanas, 2013, C-print, 31 1/2 × 47 1/5 in 80 × 120 cm, Cortesia A Palazzo Gallery, Brescia

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Chiara Fumai, Vista geral de Love from Sinister Cortesia de A Palazzo Gallery, Brescia

Chiara tornara-se também, nos últimos anos, tutora no DAI, em sessões de coaching criadas por Gabriëlle Schleijpen, que pretendiam dar voz, ou dar som à voz, dos reprimidos que necessitam de ajuda na escola para encontrar a sua voz, trabalho em tudo semelhante ao que fazia com autoras do passado, como as performances que apresentou na Exhibition Moral House, construída para a Documenta13 em Kassel - uma das performances  tinha como título Shut up. Actually, talk. Esse lado político está inscrito na tradição dos anos 60, abordados por Kremer na exposição When elephants march in - Echoes of the 60’s in today’s Art – no De Appel  Art Center em Amsterdão, em 2014, título homenagem a Walter de Maria. Para essa exposição, Chiara apresentou uma série de peças de texto compostas por frases bordadas sobre páginas de romances eróticos. Os romances eram A Vénus das Peles escrito por Leopold von Sacher Masoch, em 1870, e História de Ó escrito por Anne Desclos, sob o heterónimo Pauline Réage. As frases bordadas descreviam a última performance de Acconci, (Ballroom – Florença, 1973) que foi interrompida por uma desconhecida - e, segundo consta, esta foi a razão da suspensão da atividade performática de Acconci." The Return of the Invisible Woman (também conhecido como Visites fantastiques de Vito A. au pays du foue) de 2014, foi uma tentativa de “quebrar o feitiço” sobre Acconci. Colidia com excertos eróticos de A Vénus das Peles escrito por Leopold von Sacher Masoch, em 1870, e História de Ó escrito por Anne Desclos, sob o heterónimo Pauline Réage. A justaposição destes dois contos sadomasoquistas, que narram a história de duas mulheres emancipadas sexualmente - uma activa e outra passiva, com os excertos da performance apelam a uma terceira força exterior que não resulta da soma de todas as partes. Essa procura do Outro, deriva da qualidade canibal do seu modus operandi. O desejo de incorporar esse Outro, sujeitando o seu corpo a uma situação extrema.

O arco da sua intensa e curta obra foi a performance, prática à qual submeteu o seu corpo e espírito e que incorporava as diferenças entre um corpo de trabalho e outro. Viveu muitas vidas numa vida. Como um cão - viveu oito anos por cada um dos nossos para depois partir, sem aviso. Deixou uma obra que o tempo, a distância e a sua ausência – a suspensão de produção de novas obras e vidas que pudessem baralhar o jogo  –  nos permitirão aprender a lidar com a sua obra.

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Chiara Fumai, The Return of the Invisible Woman (also known as 'Visites fantastiques de Vito A. au pays du fouet'), 2014, Courtesia De Apple Art Center, Amsterdam

Hugo Canoilas

Licenciado em Artes plásticas pela ESAD em Caldas da Rainha. Como artista tem vindo a expor regularmente com destaque para Frankfurter Kunstverein, De Appel, Le Magasin, Fundação Calouste Gulbenkian, Bienal de São Paulo, Kunsthalle Wien e Museu do Chiado Lisboa. Dirige conjuntamente com Nicola Pecoraro e Christoph Meier o projecto Guimarães em Viena onde vive e trabalha.

 

Chiara Fumai

Chiara Fumai, vista de exposição, Love Sini$ter, Cortesia A Palazzo Gallery, Brescia
Chiara Fumai, vista de exposição, Love Sini$ter, Cortesia A Palazzo Gallery, Brescia
Chiara Fumai, La donna delinquente, 2011-2013 Cortesia A Palazzo Gallery, Brescia
Chiara Fumai, La donna delinquente, 2011-2013 Cortesia A Palazzo Gallery, Brescia

“Si è presa gioco di me" - Chiara Fumai (Rome,1978 - Bari, 2017).      

When I visited Chiara Fumai's studio in 2010, I encountered a biographical narrative that indexed her artistic production. Her father, Nico Fumai, was a factory worker in southern Italy and looked after Chiara when her mother abandoned them to pursue her dream of acting. Chiara's work traces the history of ‘italo-disc’, an Italian pop music sub-genre developed in the 1970s, which gained international recognition due to its basic employment of the English language and characteristic use of synthesizers and drum machines. Chiara described her father as a pioneer of italo-disc; conferring him this title constituted a small act of revenge on her mother, as it reversed her parents’ celebrity status in the performing arts. Nico Fumai gained visibility at the symbolic and institutional level of art through performative conferences and DJ sets, which were accompanied by a set of objects, vinyl, and images collected and produced by Chiara.

Her narrative oscillated between the plausible and the false. Her mother actually worked with Pasolini and still lives in Bari, but there is little else we know about her. Chiara deceived me and I wanted to be cheated. I thought I was there in the capacity of a visiting artist who evaluates the other’s work and tries to help them in developing a greater awareness of their practice. Without realizing it, I was played; Chiara reversed our roles, and I became the subject of that encounter. There was never any malice as she reshuffled power relations, transforming the actor into the public or relegating the doctor to the role of the patient.

Chiara was a trickster – she resembled a mythological figure adopting the form of a god, goddess, spirit, man or woman, anthropomorphized plant or animal. She subjected us to her tricks and pranks, deceiving us with great intelligence. She disobeyed conventional norms, rules, and behaviors.

Together with her colleague and good friend Gonçalo Sena, Chiara attended "Good trip, bad trip", the Masters program at the Dutch Art Institute (DAI) organized by Mark Kremer. For two years the two friends explored the space between Psychedelia and Conceptualism. These movements represented two important moments in the artistic production of the 1960s, which were historically isolated from each other - one became a canon of contemporary art and the other a musical landmark. Both canons have overlapped in different instances but there remained a lack of scholarship on works and authors that attested to the coexistence of both genres.

Chiara was one of the artists who produced an echo of this forgotten intersection in contemporary production. Her work grew out of a gap between a brutal, vital impulse and a reactive force that counteracted it – her intellect was permanently in tension with the outside world, and her hypersensitive body organized her subjects outside in the form of objects.

Part of this rational force was invested in modes of investigation including Philosophy and Hermetism, and focused especially on the work and thought of free medieval women, writers, and activists.

According to Marco Pasi - a professor of History of Hermetic Philosophy at the University of Amsterdam and one of the great specialists on Aleister Crowley's work – Chiara "spat on Hegel", in the same way the Italian critic Carla Lonzi had done. Lonzi was a feminist activist in the 1970s and author of "Sputiamo su Hegel, La donna clitoridea and la donna vaginale e altri scritti", among other works. Pasi noted, "for Chiara, the world of the Occult was not just a game, and it was not merely the superficial manipulation of an elegant theme. Things went much deeper, in places where I [Marco Pasi] could only accompany her at the entrance, letting her cross the threshold alone. There are not many who can afford to venture into these places and return with valid material for true art. "

This hypersensitive body ventured into a system of values external to art, which also allowed her to produce free from the ever more normalizing forces of contemporary art. The connection of Chiara's work to the realms of the Esoteric and the Occult created a barrier of ethical, social, and artistic preconceptions that alienated her from some circles, and served as a shield that protected her among a likeminded community.

Chiara rescued figures from the past and gave them a voice here and now, emancipating them through her work in a decidedly political practice, and one that will continue to be an important contribution to feminism. In recent years Chiara was also a tutor at DAI, on a workshop created by Gabriëlle Schleijpen, who intended to give voice – or attempted to give sound to the voice – of those who are repressed and need help at school. This teaching position complemented artworks such as the performances Chiara presented at her "Exhibition Moral House" built for Documenta13 in Kassel, where one of her performances was titled "Shut up. Actually, talk. "

The political quality of her work is inscribed in the tradition of the 1960s, which was addressed by Kremer in “When elephants march in"; this exhibition, whose title paid tribute to Walter de Maria, was presented at De Appel Art Center in Amsterdam in 2014. On this occasion, Chiara presented a series of printed texts that were overlaid with fragments of embroidered text, which described Vito Acconci’s last performance (“Ballroom” - Florence, 1973), where an unknown woman interrupted the performance. This interruption is cited as the reason for Acconci ending his work in performance.

Embroidery is still disparagingly attributed as a form of minor craft to the female gender, especially to young women without sexual experience and to older women who do not have an occupation. Chiara subverts the connotations of embroidery; in her work it becomes commonplace and presents a game of sensations, while also attesting to slow and patient work that confers a special quality to the text." The Return of the Invisible Woman” (also known as 'Visites fantastiques de Vito A. au pays du fouet') in 2014 was an attempt to "break the spell" on Acconci. What she offered through material sensation collided with the erotic excerpts of "Venus im Pelz" written by Sacher Masoch in 1870 and "Histoire d'O" written by Anne Desclos, under the heteronym Pauline Réage. The juxtaposition of these stories of two sexually emancipated women (one active and another passive), with the excerpts of Acconci’s performance, seek a third force that must come into being in front of us and exceed the sum of its parts.

This quest for an absolute Other in her work came hand in hand with the cannibalistic quality of her modus operandi. As a cannibal, she wanted to incorporate this Other by subjecting her body to extremes. The arc of her intense and short career and life was also the performance to which she subjected her body and spirit, by consistently embodying the characteristics of each different work She lived multiple lives in a lifetime; like a dog, she lived eight years for each of our human years, and left without preparing us for such sudden departure. The time, distance and absence that Chiara has left us and which has suspended her production of new works and new lives that would mess up the game time and again, will allow us to learn with her work.

Tradução do autor revista por Inês Geraldes Cardoso

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One Strangling Golden Hair (tribute to Vera Morra), 2011-2013, 66 9/10 × 25 1/5 in

170 × 64 cm, Courtesy Waterside Gallery, London.

 

 

 

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One Strangling Golden Hair (tribute to Vera Morra), 2011-2013, 66 9/10 × 25 1/5 in

170 × 64 cm, Courtesy Waterside Gallery, London.

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One Strangling Golden Hair (tribute to Vera Morra), 2011-2013, 66 9/10 × 25 1/5 in

170 × 64 cm, Courtesy Waterside Gallery, London.