Ed. 04 / 2018
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Pedro Morais: a forma é o vazio, o vazio é a forma

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Maria Beatriz Marquilhas

Foi numa quinta-feira do princípio de Abril que um grupo de amigos do cientista e inventor Martial Canterel se reuniu em visita ao seu retiro de Montmorency. Ao atravessarem os imensos jardins do plácido parque dos arredores de Paris, a sensação terá sido comparável à tranquilidade que invade o visitante que cruza os jardins do Pavilhão Branco, onde se encontra a exposição Nudez - uma Invariante, de Pedro Morais. E é pelos labirintos solitários de Raymond Roussel no seu romance de 1914 Locus Solus que damos início a um périplo pela obra do artista, seguindo o rumo curatorial de Óscar Faria.

Emolduradas pela transparência do vidro da sala, quatro maquetes sucedem-se com imagens de construções. Atrás de cada uma delas, as respectivas caixas de transporte lembram-nos que a retirada surge imprevisível e que o habitante destes espaços é quase sempre um forasteiro. Uma das estruturas apresenta um corredor ladeado por oito câmaras e delimitado por dois muros circulares, na legenda lê-se: "Locus Solus é um corredor entre parêntesis - lugar do eco do silêncio", e o artista dedica-o ao mestre espiritual Hôgen Daidô. Desenvolvidas entre 1987 e 2005, trata-se de representações de lugares em que o silêncio povoa corredores compridos onde linhas de luz intersectam o espaço. Nas paredes, alinham-se os desenhos técnicos de cada uma das maquetes, que nos dão a ver as linhas do espaço e o vazio que as preenche. Poderiam ser planos de emergência, se a fuga não fosse antes a própria construção desses espaços, nos quais cada parede se ergue num místico sussurro, com um sentido para além da pedra.

Locus Solus (Célula 1) dá nome a uma das primeiras células realizadas pelo artista em 1986 e que parecem dar forma a altares de um culto pagão. Uma área quadrada delimitada por blocos de cimento e cheia de água negra exibe, no seu centro, uma chama acesa. Ao fundo, no centro da parede dianteira, uma tela enegrecida com recurso à técnica de marouflé parece ser apresentada para adoração. Do tecto, uma gota que cai pontualmente vai desenhando linhas concêntricas na água. Diametralmente oposta, a segunda célula apresenta uma folha de papel embrulhada suspensa no ar. Nesse jogo de alquimias, vemos ainda Duplicata (2012), um quadrado em vidro pintado de preto que divide obliquamente o espaço, lançando uma referência ao suprematista "Quadrado Negro" de Malevitch.

As maquetes e os desenhos técnicos de Pedro Morais situam-se numa zona híbrida em que o gesto técnico está ao serviço do mais antigo exercício do homem perante o espaço: o da projecção de espaços improváveis, de tornar habitáveis os lugares da imaginação.

Os projectos que vemos são actos de evocação de momentos passados no percurso do artista. Deserto IIIA, Deserto IIIB e Deserto IIIC são trabalhos concebidos para três salas do Museu Nacional de Arte Antiga, onde, em 1983 e 1984, coexistiram com pinturas do século XVI e XVII. MA - A Dança dos Pirilampos foi apresentada em 2011 no Chiado 8, MA - Quadrado em Azul Profundo e MU - Lua em chão de terra batida no CAM - Fundação Calouste Gulbenkian. Surgem como acidentes no espaço: um monte de pedras, um rectângulo suspenso, um túnel estreito ou um tanque de água. Nestes projectos e nos lugares que eles criam, o rigor da geometria e a abordagem formal do espaço servem uma experiência mística em que há uma consciência aguda do corpo e dos limites físicos impostos pela materialidade dos objectos.

É (3 Naturezas mortas) (2015) compõe-se por três cubos com terra seca pintada de azul sobre a qual foram lançadas sementes de oliveira, caqui e pinheiro cobertas de ouro que dão forma às três linhas de um haiku que, em Março de 2015, no Sismógrafo (Porto), celebrou o equinócio da Primavera. "A arte é de um rigor atroz, é sem medida" é uma das linhas desse tríptico e reflecte a ideia de um movimento cíclico de conciliação de contrários e de subtracção de toda a contradição, que atravessa a obra de Pedro Morais.

No primeiro piso do pavilhão, encontramos Nudez - uma variante. A obra, evocada no título da exposição, é um projecto desenvolvido entre 2013 e 2018 que cruza referências da pintura ocidental, de Leonardo da Vinci a Marcel Duchamp ou Dacosta, com a espiritualidade japonesa, presente através do Sutra do Coração, espécie de mantra do Mestre Zen Hôgan Daidô e que podemos ler e ouvir. As cores primárias e complementares - variantes dessa invariável nudez - entram num diálogo que preenche o espaço com um ordenamento simbólico de planos paralelos e perpendiculares. Numa apropriação alegórica do "sfumato", técnica utilizada por pintores renascentistas como da Vinci - a quem Pedro Morais dedica esta obra -, o fumo expelido pelas máquinas para o interior das telas, e que se espraia sobre as suas superfícies monocromáticas, devolve-nos uma imagem de impermanência, de uma transitoriedade em que vida e morte se equivalem porque, como nos diz o mestre japonês, "todos os fenómenos têm por natureza o vazio".

Lá fora, através dos vidros, o espaço que envolve o pavilhão impõe-se. E, no entanto, tal como os convidados de Martial Canterel em Montmorency, talvez não tenhamos chegado a abandonar o diáfano domínio do pensamento. Afinal, a concretude de uma pincelada espessa de tinta é tão intangível como o próprio fumo. Porque, como o artista nos tem vindo a dizer ao longo das últimas décadas, "para além do mental nada existe" e, no interior do pensamento, todas as imagens têm a concretude e o peso das pedras.

Pedro Morais

Pavilhão Branco - Palácio Pimenta

 

Maria Beatriz Marquilhas

Licenciada e mestre em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo-se especializado em Comunicação e Artes com uma dissertação sobre o conceito na experiência artística. Contribui regularmente com artigos e ensaios para revistas. Vive e trabalha em Lisboa.

 

 

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