Ed. 04 / 2018
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Bruno Zhu: Continente

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Sara De Chiara

Podemos começar por aqui: "Saímos do bairro de carro, viramos à esquerda e entramos na Rua 5 de Outubro, em direção à tua loja. Passamos pela estação de serviço que não conseguiste comprar, pela casa de saúde que agora parece um hotel e pelo colégio onde ele, o primeiro, andou". Ou por aqui: "Saia da galeria e chegará a um entroncamento retórico ou será onde a Rua Nelson de Barros cruza com a Rua Madre Deus? Desça a rua, passe o museu, vire à direita, atravesse as faixas de trânsito e apanhe o autocarro 728 em direcção à Avenida dos Descobrimentos".

A mensagem da introdução ao projecto de Bruno Zhu na Kunsthalle Lissabon, cujas primeiras linhas acima foram citadas, difere nas suas versões portuguesa e inglesa. O que as duas apresentações têm em comum é que dão indicações ao leitor, mas a sua divergência e indefinição deixam-no desorientado e perdido, um pouco à deriva. Tal como uma página de um diário de bordo, ambos os textos registam um caminho tomado, uma viagem física que ao mesmo tempo invade uma paisagem introjectada, desenhada com memórias pessoais, impressões e experiências biográficas, que são contíguas, e por vezes se sobrepõem, à verdadeira paisagem, delineando uma espécie de mapa psicogeográfico. A viagem narrada produz na mente do leitor uma dupla visão que reflecte a natureza ambivalente ou o duplo caminho no qual a própria exposição se desenvolve: por um lado, a visão panorâmica sobre uma cidade, que se revela lentamente num mapa e permite percorrer o caminho com um dedo; por outro, uma perspectiva que mergulha nas ruas, filtrada pela lente do artista que torna mais definidos os edifícios, lojas, ruas e pormenores, todos eles espaços com uma carga emocional, porções do tecido urbano por descoser. Histórias pessoais vão sendo somadas, uma história sedimentada inscrita na cidade, cuja toponímia mencionada nos textos evoca o grande passado colonial de Portugal.

Mas não nos deixemos enganar: na nossa exploração da cidade, a sede por territórios desconhecidos não será satisfeita, e a breve navegação urbana a que fomos convidados pelas palavras de Zhu levar-nos-á a um continente que não é nada mais do que a loja mais próxima pertencente à cadeia de supermercados portuguesa, Continente, que também dá título à exposição. O destino final da nossa viagem é um vulgar supermercado onde se pode encontrar bens e produtos para uso diário, não há aqui qualquer mistério. Acabamos num daqueles sítios definidos por Marc Augé como “não-lugares”, espaços «que não podem ser definidos como relacionais, históricos ou associados à identidade». Estes espaços de passagem, peculiares e anónimos, estão cada vez mais disseminados na sobremodernidade - outro termo cunhado pelo antropólogo francês que se distingue da pós-modernidade, realçando o seu factor acentuado de globalização -, e incluem aeroportos, quartos de hotel e centros comerciais. O aspecto paradoxal dos “não-lugares” deve-se ao facto de que "um estrangeiro perdido num país que não conhece só pode sentir-se em casa no anonimato das auto-estradas, estações de serviço, grandes lojas ou cadeias de hotéis. Para ele, o logótipo de uma companhia de petróleo é um símbolo reconfortante; por entre as prateleiras dos supermercados encontrará alívio nos produtos de higiene, para a casa ou alimentos de marcas multinacionais".

Nas prateleiras da estante no rés-do-chão da Kunsthalle Lissabon - o espaço a que chegamos se fizermos o caminho inverso seguindo as direcções em inglês - estão expostos alguns produtos. São frascos de compota, embalagens de sabonete líquido e creme para o corpo, produtos de uso comum e marcas familiares que são reconhecidos apenas pelas suas formas e volumes, uma vez que são envolvidos em tela branca, bordada, reproduzindo em detalhe os seus contornos e logótipos, mas que faz deles uma reprodução anónima, falsa e inútil. O contraste entre a produção industrial e o artesanato é acentuado pela forma como os objectos são mostrados: os produtos encontram-se dispostos em caixas redondas cor de marfim, acolchoadas e forradas por dentro a cetim, fazendo parecer caixas elegantes para jóias, caixas de oferta para objectos preciosos ou pequenos caixões, contentores de contentores sem conteúdo. 

Descendo as escadas, uma vez passada a cortina preta, os visitantes entram num espaço escurecido que faz lembrar as traseiras de uma loja, no qual se encontra espalhada uma constelação de objectos. A visão tem de se habituar à semi-escuridão para ver bem as peças que, também pela sua fina constituição, tendem a tornar-se invisíveis se vistas de lado. A única peça que se destaca imediatamente, pelo seu volume e cor escura, é Mascara wears shirt C&A, trousers NIKE, and Man with nails JUNZOUI, um manequim forrado a veludo azul e com roupas vestidas, incluindo luvas feitas a partir de calças e apetrechadas com unhas. A hibridização entre objectos e o corpo humano, colocados ao mesmo nível, é recorrente na prática de Zhu. É o resultado de um olhar fetichista que incessantemente anima o mundo inanimado das coisas. No dia da inauguração, o próprio artista “personificou” Mascara. As mesmas calças-luvas compõem Shy Manager screws Sly Manager, who’s screwing Mr Navy, who’s screwing Mr Wool […]: dobradas e colocadas umas em cima das outras, suspensas na parede, estas peças que não dão para vestir estão colocadas sobre dois suportes que saem simetricamente da parede, como se fossem dois braços a segurar um corpo, neste caso substituídos pelos fragmentos das suas roupas vazias, achatadas e fantasmagóricas.

À frente desta instalação estão duas finas pastas, feitas de algodão branco, expostas perto uma da outra (é possível abri-las, sob pedido), colocadas verticalmente no chão. Contêm uma cadeira bidimensional feita a partir de calças - outra hibridização que os seus títulos Chairman sees a concrete pipe (2009) e Chairman goes to London (2013) sublinham de forma irónica - e um pequeno estojo para escrita e desenho. Um nécessaire portátil para os tempos livres. 

Os últimos dois trabalhos expostos estão intimamente relacionados e enraizados na biografia do artista. Suspensa do tecto, Blueish orange mosquito é uma espécie de marioneta de luz com a forma de um mosquito gigante, ainda que a organza cor-de-rosa transparente de que é feito faça lembrar uma bailarina num tutu. Apenas os mosquitos fêmea mordem, arriscando as suas vidas, para poder alimentar os seus ovos com a proteína que o sangue contém. Próxima desta peça, colocada no chão, Standing in front of our restaurant (c. 1997) é uma fotografia da mãe do artista posando à frente do restaurante chinês que os pais desta, que se mudaram da China para Portugal, tinham em Viseu, cidade onde Bruno Zhu cresceu. A identidade do artista, português de origem chinesa, está na base da sua reflexão. Neste projecto, a alteridade é transmitida pela alteração entre línguas e planos. Uma perspectiva que muda de duas para três dimensões, de “Planolândia” para “Espaçolândia” como aconteceu no percurso, do mapa para a rua, e como repetimos quando nos aproximamos de alguns dos trabalhos que só podem ser vistos de frente ou por cima. É o corpo humano o terreno onde esta confrontação acontece, o corpo que é camuflado com os objectos do seu desejo. Nas mãos do alfaiate (a formação de base de Zhu é em design de moda), o corpo torna-se bidimensional, transforma-se num mapa, numa cartografia emocional que nos devolve aos textos introdutórios: «[…] a totalidade do ser» enquanto um território composto por diferentes elementos ou fragmentos é a única descrição que as duas versões têm em comum.

Sara De Chiara
Critica de arte e curadora, é doutoranda em História da Arte Contemporânea na Faculdade de Letras e Filosofia na Universidade La Sapienza di Roma. Recentemente colaborou com a publicação do novo catálogo raisonné do artista Umberto Boccioni (2017) e escreve com regularidade para catálogos e revistas de arte contemporânea. Trabalhou como assistente editorial na redação da revista científica “Storia dell’arte” (2012-2013) e durante vários anos trabalhou na DEPART Foundation onde organizou projetos e exposições na American Academy in Rome e no MACRO Museum, ambos em Roma (2012-2015).

 

Tradução do inglês por Gonçalo Gama Pinto

 

Bruno Zhu

Kunsthalle Lissabon

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Bruno Zhu. Vistas da exposição Continente. Kunsthalle Lissabon. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia do artista e Kunsthalle Lissabon.

 

Continente by Bruno Zhu at Kunsthalle Lissabon

We can start from here: "We exit the neighborhood by car, we turn left and enter Rua 5 de Outubro 5, towards your store. We pass the service station that you could not buy, the hospital that now looks like a hotel and the school that he, the first, attended". Or from here: "Leave the gallery and you will arrive at a rhetorical junction, or is Rua Nelson de Barros intersecting Rua Madre Deus? Head down the street, walk past the museum, turn right, cross the high speed lanes and take the 728 bus towards Avenida dos Descobrimentos".

The introduction to Bruno Zhu’s project at Kunsthalle Lissabon, the first lines of which have been quoted above, says different things in the Portuguese and English versions. What both presentations have in common is that they provide directions to the reader but, nevertheless, their divergence and vagueness leave him or her rather disoriented and lost, gently adrift. Similarly to a page of a logbook, both texts record a path taken on the route, a physical journey that at the same time trespasses into an introjected landscape, sketched with personal memories, impressions and biographical experiences, which is contiguous, sometimes superimposed, to the actual one, outlining a sort of psychogeographic map.

The narrated journey generates in the reader’s mind a double vision that reflects the twofold nature or the double track on which the exhibition itself develops: on the one hand, a bird’s-eye view of a city, slowly unfolding on a map and allowing the path to be followed with a finger; on the other, a perspective plunged into the streets, filtered by the the artist’s lens that brings into focus buildings, shops, streets and details, all emotionally charged places, unpicked portions of the urban fabric. Personal story is added to another, sedimented history inscribed in the city, whose toponymy mentioned in the texts evokes the great colonial past of Portugal. But let us not deceive ourselves: in our city exploration, the thirst for unknown territories will not be satisfied, the little urban navigation we have been invited to by Zhu’s words will lead us to a continent which is nothing but the nearest store of the Portuguese supermarket chain of the same name, Continente, which also gives the title to the show.

The final destination of our trip is an ordinary supermarket where one can find products and goods for everyday use, there is no mystery involved. We end up in one of those places defined by Marc Augé as “non-places”, spaces «which cannot be defined as relational, or historical, or concerned with identity». These peculiar, anonymous spaces of transience are increasingly widespread in surmodernity – another term coined by the French anthropologist to distinguish it from postmodernity, marking its accentuated globalisation factor – and include airports, hotel rooms and shopping malls. The paradoxical aspect of “non places” is due to the fact that: «a foreigner lost in a country he does not know can feel at home there only in the anonymity of motorways, service stations, big stores or hotel chains. For him, an oil company logo is a reassuring landmark; among the supermarket shelves he falls with relief on sanitary, household or food products validated by multinational brand names».

On the shelves of the bookcase at the ground floor of Kuntshalle Lissabon – the place where we dock if we go back on our steps following the English directions, but backwards – some products are exposed. These are jam jars, liquid soap and body lotion packages, products of common use and familiar brands, that can only be recognised by their shapes and volumes, since they are cocooned in a white, embroidered, canvas which reproduces their outlines and the logos in detail, but make them anonymous, a fake and useless reproduction. The contrast between mass production and craftsmanship is emphasized by their display: the products are arranged in round and ivory coloured boxes, padded and covered with satin inside, pretending to be elegant case for jewels, gift boxes for precious objects or small coffins, containers of containers without contents.

Going downstairs, once passed a black curtain, viewers enter a dim space that looks like the back of a store, in which a constellation of objects is scattered. The sight must get used to the semi-darkness to properly see the works which, also by their very thin constitution, tend to become invisible if approached from the side. The only piece that immediately stands out for its volume and dark color is Mascara wears shirt C&A, trousers NIKE, and Man with nails JUNZOUI, a mannequin covered in blue velvet and wearing clothes, including gloves made from trousers legs and fitted with nails. The hybridization between objects and human body, put on the same level, recurs in Zhu’s practice; it is the result of a fetishist gaze which incessantly animates the inanimate world of things. The day of the opening, the artist himself “embodied” Mascara. The same trousers-gloves compose Shy Manager screws Sly Manager, who’s screwing Mr Navy, who’s screwing Mr Wool […]: folded and stacked on top of one another, suspended on the wall, these not wearable garments lie down on two supports that stick out symmetrically from the wall, as if they were two arms holding a body, in this case replaced by fragments of its empty, flat and ghostly clothes.

The last two works on display are deeply intertwined and rooted in the artist’s biography. Suspended from the ceiling, Blueish orange mosquito is a sort of light puppet in the shape of a giant mosquito, even if the transparent pink organza with which it is made evokes a ballerina in tutu. Only female mosquitoes bite, risking their lives, in order to feed their eggs with protein found in blood. Not far from it, placed on the floor, Standing in front of our restaurant (c. 1997) is a found photograph of the artist’s mother posing in front of the Chinese restaurant that his parents, that moved from China to Portugal, owned in Viseu where Bruno Zhu was raised. The identity of the artist, Portuguese with Chinese origins, is at the base of his reflection. In the project, this alterity is conveyed by a shifting of languages, of plans; a perspective that moves from two to three dimensions, from “Flatland” to “Spaceland”, as it occurred in the journey, from the map to the street, and as we repeat when we approach some of the works that can only be seen frontally or from above. It is the human body the ground on which the confrontation takes place, the body that is camouflaged with the objects of its desire. In the hands of the tailor (Zhu’s background is in fashion design), the body becomes two-dimensional, turns into a map, an emotional cartography that brings back to the introductory texts: «[…] the totality of your being» as a territory composed by different elements or fragments is the only description that the two versions have in common.

Bruno Zhu

Kunsthalle Lissabon 

 
 
 
 
 
 

 

 

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