Ed. 01 / 2018
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On Exile

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Zohar Yanko

“A compreensão, por oposição à posse de informação correcta e conhecimento científico, é um processo complicado, que nunca produz resultados inequívocos. Trata-se de uma actividade contínua através da qual, numa mudança e variação constantes, aceitamos e nos reconciliamos com a realidade, ou seja, tentamos estar em casa no mundo.” - Hannah Arendt


A exposição de José Carlos Teixeira intitulada On Exile, patente no MAAT de 8 de Novembro de 2017 até 5 de Fevereiro de 2018, aborda dois temas aparentemente independentes relacionados com o conceito de exílio: a crise global dos refugiados e os índices crescentes de depressão. A exposição apresenta dois vídeos-ensaio mostrados separadamente: refugiados num dos lados do espaço e, do outro, pessoas que sofrem de depressão e outras perturbações mentais. O acto de juntar estes dois grupos e colocá-los em diálogo dá uma nova perspectiva ao estado de exílio como uma forma humana de estar no mundo, um estado que não é necessariamente definido pela pertença territorial e nacional. Ao cruzar de forma brilhante os mundos mental e físico, Teixeira coloca em questão a noção de exílio limitada ao domínio material, expandindo-a de forma radical e incluindo estados não-físicos de se estar distante de casa.

A decisão de Teixeira de colocar a peça dentro de um museu desafia a tradicional separação e categorização disciplinar de antropologia, psicologia, sociologia e arte. Ao postular a arte como um lugar crucial para a análise da condição humana, On Exile provoca uma discussão alternativa, abordando questões políticas e culturais urgentes. O trabalho de Teixeira demonstra que não só é importante falar sobre estes tópicos, mas também questionar o modo como estes são discutidos e os espaços que tendem a evitar ou limitar essas discussões.

No lado direito do espaço expositivo, uma compilação de entrevistas com refugiados da Síria, Sudão, Somália e Iraque. As entrevistas desenrolam-se em fragmentos, destacando visualmente o corpo, as mãos e os olhos. De vez em quando, paisagens deslumbrantes de céu e mar tomam conta do ecrã. Para alguns refugiados, o mar foi a primeira paragem nas suas viagens em direcção à liberdade, e a última para muitos outros. Estas poderosas imagens convidam o espectador a afastar-se da história individual contada no ecrã para perceber um contexto mais alargado, lembrando-o da vasta natureza que existe para além das nossas efémeras circunstâncias culturais, sociais e políticas.

 

ON EXILE refugee_sahar half smile
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ON EXILE refugee_lake sunset
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No lado esquerdo, indivíduos que lutam com depressões clínicas partilham a sua história em frente à câmara. Cada capítulo deste vídeo-ensaio começa em silêncio. A primeira coisa visível é o plano das costas do entrevistado, e só depois um rosto, até que por fim os olhos se abrem. Muito à semelhança do próprio corpo do trabalho, estes breves momentos de silêncio prestam homenagem a um espaço primordial que precede a linguagem e a cultura, a ciência e a arte.

Este plano de abertura recorrente alude ao humano que existiu antes do seu próprio diagnóstico, oferecendo assim um ponto alternativo a partir do qual se pode dar início a uma discussão sobre a própria natureza da condição humana denominada de ‘depressão’. Tal como na abertura silenciosa, a cena final estende-se para além do verbal: o visual desaparece e o espectador fica sozinho na escuridão do enorme edifício industrial do museu, apenas com auscultadores e uma música a tocar nos seus ouvidos. Quando a imagem regressa ao ecrã, o som é cortado e o entrevistado surge de auscultadores, escutando a mesma música que acabou de tocar aos ouvidos do espectador. Através desta abrupta manipulação áudio/visual, o espectador é activamente colocado em diálogo com a experiência humana que ecoa vinda do ecrã. No entanto, o acto de retirar o som assim que a imagem regressa sugere a capacidade limitada do espectador em aceder verdadeiramente à experiência do outro, de compreender o estado isolado da depressão. Desmascaradas e expostas, as pessoas no ecrã partilham o seu conhecimento e experiência, as lutas que travaram e que ainda continuam. Descrevem como se sentem, o que é viver a depressão e o que fazem quando esta os visita. Quebram o silêncio.

É importante notar que ao utilizar o conceito de exílio como metáfora corre-se o risco de tornar simbólicas estas experiências que são bastante reais. Nem todos nós temos gravadas nos nossos corpos as marcas da guerra e do trauma, e nem todos conhecemos a depressão na sua expressão mais íntima, intimidante e devastadora. No entanto, é precisamente esta a capacidade de On Exile, a de alcançar e representar esta complexidade ao trazer para o primeiro plano as vozes silenciadas e os corpos do nosso tempo.

A associação feita entre os estados físico e mental do exílio revela aquilo que está no cerne de ambas as experiências: a luta permanente pelos vínculos humanos e pelo reconhecimento, a necessidade básica para se existir no mundo, para ser tratado e compreendido enquanto humano. Possivelmente isto só se torna possível depois de sermos capazes de empatizar com o sofrimento do outro. O trabalho de Teixeira apresenta uma oportunidade excepcional e determinante: testemunhar estes relatos visualmente belos de medo, isolamento e resistência, de ficarmos com eles ainda que por um breve momento, de não os evitarmos.

Deslocando-se além das fronteiras entre o territorial e o mental, o académico e o artístico, o humano e o não-humano, José Carlos Teixeira convida-nos a reflectir sobre o exílio tanto no seu sentido intemporal como contemporâneo, a confrontarmo-nos intimamente com vozes silenciadas, desesperadas por serem ouvidas, a medir a distância entre eles e nós. A considerar, nem que apenas por um breve momento, que essa distância pode ser bem menor do que estamos dispostos a reconhecer.

Zohar Yanko 

 

É actualmente estudante de Mestrado no programa de Estudos de Cultura e Performance do Lisbon Consortium na Universidade Católica de Lisboa. Licenciou-se em Psicologia e Sociologia no The Academic College de Tel Aviv-Yaffo. Possui, também, um diploma de Pesquisa e Argumento para Documentário da Universidade Aberta de Israel, da qual se formou com distinção. Tem especial interesse nas fronteiras simbólicas entre Academia e Arte, mecanismos de produção de conhecimento e teoria feminista.


José Carlos Teixeira

MAAT

 

Tradução do inglês por Gonçalo Gama Pinto

 

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ON EXILE depression_Talib 3
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original version

“Understanding, as distinguished from having correct information and scientific knowledge, is a complicated process, which never produces unequivocal results. It is an unending activity by which, in constant change and variation, we come to terms with and reconcile ourselves to reality, that is, try to be at home in the world.” -

Hannah Arendt



José Carlos Teixeira’s work titled On Exile, showing November 8, 2017 through February 5, 2018 at Lisbon’s MAAT, examines two seemingly separate issues in relation to the notion of exile: the global refugee crisis and the rising rates of depression. The exhibition showcases two video-essays, each displayed separately; refugees- on one side of the space, and people struggling with depression and other mental illnesses-on the other side. The act of bringing these two groups into conversation with each other reframes the state of exile as a human way of being within the world, a state not necessarily defined by territorial and national belongings. By brilliantly weaving mental and physical worlds, Teixeira challenges the notion of exile as limited to the material realm, radically expanding it to include non-physical states of being far from one’s home.

Teixeira’s choice to locate the piece within a museum defies the traditional separation and disciplinary categorization of anthropology, psychology, sociology and art. By positing art as a crucial site for investigating human condition, On Exile provokes an alternative conversation concerning pressing political and cultural issues. Teixeira’s work demonstrates that it is not only important to speak about such topics, but also to question the ways in which they are being spoken of, as well as the spaces that tend to avoid or limit such conversations.

On the right side of the exhibition floor, a compilation of interviews with refugees from Syria, Sudan, Somalia and Iraq. The interviews unfold in fragments, visually emphasizing the body, the hands and the eyes. From time to time, breathtaking landscapes of skies and sea take over the screen. For some refugees, it is the sea that was the first stop in their journey towards freedom, and the last stop for so many others. These powerful images invite the viewer to zoom out of the individual story being told on screen and into a wider context; to be reminded of the vast nature that exists beyond our own ephemeral cultural, social and political circumstances.

On the left side of the space, individuals struggling with clinical depression share the story on camera. Each chapter of this video-essay begins in silence. The first thing visible is the frame of the interviewee’s back, and only afterwards- a face, until finally the eyes open. Much like the body of work itself, these short moments of silence pay tribute to a primordial space that precedes language and culture, science and art.

This recurring opening shot alludes to the human who existed prior to his own diagnosis, thus offering an alternative point from which to begin a discussion about the very nature of the human condition termed ‘depression’. As in the silent opening, the section’s ending scene stretches beyond the verbal: the visual disappears and the viewer is left alone in the darkness of the museum’s big industrial building, with only headphones and a song playing in his or her ears. When the image returns to the screen, the sound is muted, and the interviewee appears with headphones, listening to the same song just played in the viewer’s ears. Through this abrupt audio/visual manipulation the spectator is actively led into dialogue with the human experience echoing back from the screen. Nonetheless, the act of muting the sound once the image returns, suggests the viewer’s limited ability to truly access the other’s experience in the world, to fathom the isolated state of depression. Unmasked and exposed, the people on the screen share their knowledge and experience, their struggle, that still goes on. They describe how it feels, what it looks like, what they do when it comes to visit; they break the silence.

It is important to consider that employing the concept of exile as a metaphor runs the risk of rendering symbolic these actual, real-life experiences. Not all of us carry the scars of war and trauma on are bodies, and not all of us met depression in its most intimate, intimidating and devastating form.

However, it is precisely On Exile’s capacity to grasp and represent this complexity through bringing forth transparent and silenced voices and bodies of our time.

On Exile functions as a liminal space, located on the borderland between ethnographic and artistic research, between the scientific and the philosophical; it is a space where, in the poignant words of Homi K. Bhaba, [2] “[p]rivate and public, past and present, the psyche and the social develop an interstitial intimacy”. This integration of academic, political and psychological discourses with a visual art creates an intimate space for investigation. This unique crossroad invites the visitor to join the effort, to interact with the notion of exile in ways which would not be possible otherwise. It might even lead to wonder about these separations in the first place.

The link drawn between the physical and mental states of exile reveals that which lies at the core of both experiences: the continuous struggle for human connection and recognition, the elementary need to be in the world, to be treated and understood as human. Perhaps this becomes possible only after one is capable of empathizing with the struggle of the other. Teixeira work presents an exceptional and pivotal opportunity-  to bare witness to these beautiful visual testimonies of fear, isolation and resistance; to stay with them for even a short while, to not turn away.

Moving across the boundaries between the territorial and the mental, the academic and the artistic, the human and the nonhuman, José Carlos Teixeira invites us to rethink exile both in its timeless and contemporary meanings, to intimately encounter muted voices that are yearning to be heard; to measure the distance between them and ourselves.  To consider, only if for a moment, that it might be much shorter than we are willing to acknowledge.

Arendt, H., 1994. Understanding and Politics (the difficulties of understanding). In: J. Kohn, ed. Essays in understanding 1930–1954. New York: Harcourt, Brace and Company, 203–327.

[2] Bhabha, H. K, 1994. The location of culture. London in New York: Routledge.



 

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Legendas: 

1º bloco: José Carlos Texeira, On Exile, elsewhere within here, 2017, HD video, 70min (video still), cortesia do artista + Vistas da exposição no MAAT, Cinzeiro 8. Fotografia: Bruno Lopes. Cortesia Maat.

2º bloco: José Carlos Texeira, On Exile, fragments in search of meaning, 2016-17, HD video, 47min (video still), cortesia do artista + Vistas da exposição no MAAT, Cinzeiro 8. Fotografia: Bruno Lopes. Cortesia Maat.

3º boco: José Carlos Texeira, On Exile, the book (Cirtautas). 2017, HD video, 12 min - vista da exposição no MAAT, Cinzeiro 8. Fotografia: Bruno Lopes. Cortesia Maat + Vistas da exposição no MAAT, Cinzeiro 8. Fotografia: Bruno Lopes. Cortesia Maat.

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