Ed. 01 / 2018
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Ana Guedes

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Sara De Chiara

Sobre a exposição: MOEBIUS: Fragmentos de ilusão, mapas de êxodo dos diários de Karl Marx (Capítulo I)

Ao contrário das superfícies que na geometria tradicional têm dois lados - um superior e outro inferior ou um lado interior e exterior - e que obrigam à sua perfuração ou à transposição das suas extremidades de modo a passar de um lado para o outro, a faixa de Moebius, à qual o título da primeira exposição de Ana Guedes na Galeria Baginski poderá aludir, é uma superfície bidimensional que existe apenas no espaço tridimensional e que tem uma só face. Descoberta em 1858 por dois matemáticos alemães que trabalhavam independentemente, August Ferdinand Moebius e Johann Benedict Listing, um modelo da faixa de Moebius pode ser facilmente criado ao pegar-se numa fita de papel, torcê-la e por fim juntar as duas extremidades da fita formando uma argola. Um exemplo clássico que ilustra as propriedades específicas desta forma é o acto de fazer deslizar um dedo ao longo da superfície da fita e voltar ao ponto de partida mas do lado oposto, mesmo que o objecto tenha apenas uma face, e só ao fim de duas voltas é que se regressa ao ponto exacto de onde se partiu. 

A ideia de movimento circular, de dar a volta, de uma continuidade ambígua em que o dualismo físico é resolvido numa correspondência de polaridades, constantemente reversível, reflecte-se no projecto de Guedes, no qual a história individual da artista e da sua família, que se mudou de Portugal para Angola e para o Canadá e depois regressou, está profundamente interligada com a história comum de um país que conheceu o colonialismo, em que os sentimentos de estar em casa e ser-se estranho podem coexistir, como dois lados inseparáveis da mesma moeda que rodopia no ar.

Este dualismo também está reflectido na exposição, dividida em dois capítulos que se complementam e que correspondem aos principais temas conceptuais articulados em diferentes corpos de trabalhos que ocupam respectivamente os dois amplos espaços da galeria. O fio comum do projecto é o som que, em vez de funcionar como banda sonora da narrativa que atravessa a exposição, se torna o seu protagonista, a voz narradora, muito embora seja uma voz quebrada e fragmentada, extremamente rarefeita e evocativa, e que desafia qualquer espécie de retórica.

O som está no cerne da prática de Guedes e ultrapassa o conteúdo que transmite. Em primeiro lugar, representa para a artista um material plástico pronto a ser moldado e, por outro lado, um material activo que dá forma, gerando ambientes envolventes, adensando o espaço e impregnando objectos com memórias ou acordando neles histórias esquecidas com uma forte carga simbólica.

Esta dinâmica dialética entre polaridades - entre dimensões íntimas e colectivas, sons que são emitidos e absorvidos - marca o ritmo de toda a exposição.

Na primeira sala da galeria, numa prateleira de madeira que percorre toda a parede, está exposta uma série de discos de vinil, compondo um horizonte, uma cronologia marcada por álbuns que vão dos anos 1960 aos 1990. Trata-se de uma colecção de discos que a artista herdou do seu pai que os comprou em Angola, Portugal e no Canadá. Tal como o nome desta instalação - Untitled Records: A Colecção (Mapas de Êxodo) - sugere, os discos são testemunhas de um movimento da família da artista, ao longo dos anos, de um continente para outro, contando um caminho individual que acompanha a história da música, a migração dos ritmos, a contaminação dos géneros e a popularidade de algumas canções que parecem superar ou anular as distâncias entre países diferentes.

Uma selecção de discos do arquivo desta família foi posta a tocar pela artista durante a inauguração, utilizando um complexo sistema de gira-discos re-imaginados e criados pela própria artista. Cada aparelho tem vários braços, de modo a misturar e sobrepor as faixas dos álbuns para que uma única voz se torne um coro. Intitulada Untitled Records (2016), a instalação de som performativa funciona como uma espécie de máquina do tempo, fazendo a leitura dos sulcos nos discos, acordando fragmentos de melodias, escavando sons oriundos de diferentes temporalidades, misturados num burburinho indistinto devido à sobreposição mas também aos riscos e danos dos discos provocados pela passagem do tempo. Este aparelho continuará exposto até ao fim da exposição, embora seja possível escutar a gravação da performance num gira-discos à parte.

À medida que os visitantes se aproximam da segunda sala são envolvidos pelas vibrações sonoras que vêm da instalação Shipwreck beach: dos diários de Karl Marx (Capítulo I) (2017), parte de um projecto evocativo que conta histórias sobre pesca em Angola a que Guedes deu início por ocasião da sua residência na De Fabriek em Eindhoven, em 2017. Karl Marx é o nome de um navio que naufragou misteriosamente na Praia de Santiago, a norte de Luanda, um dos maiores cemitérios de navios em África, uma forte metáfora para a reflexão sobre o processo histórico, económico e social do país.

A presença física do navio é recordada pela instalação bidimensional formada por velhas tábuas de madeira deitadas sobre uma estrutura ligeiramente elevada do chão que ocupa de forma quase completa o espaço. A instalação ganha vida através do som de uma sirene, gravado numa fita em loop, criando um diálogo desorientante de ecos. A imaterialidade do som é tornada em algo tangível, vibrante, produzindo até efeitos físicos e criando uma atmosfera que é simultaneamente sedutora e sinistra. Shipwreck beach está em diálogo com Portuguese Sea Net (2017), outra instalação que é composta por várias peças de iscos artificiais coloridos pendurados na parede, a sua disposição aludindo a uma partitura silenciosa.

Sara De Chiara
Critica de arte e curadora, é doutoranda em História da Arte Contemporânea na Faculdade de Letras e Filosofia na Universidade La Sapienza di Roma. Recentemente colaborou com a publicação do novo catálogo raisonné do artista Umberto Boccioni (2017) e escreve com regularidade para catálogos e revistas de arte contemporânea. Trabalhou como assistente editorial na redação da revista científica “Storia dell’arte” (2012-2013) e durante vários anos trabalhou na DEPART Foundation onde organizou projetos e exposições na American Academy in Rome e no MACRO Museum, ambos em Roma (2012-2015).

 

Tradução do inglês por Gonçalo Gama Pinto

 

Ana Guedes

Galeria Baginski

 

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Ana Guedes at Baginski, Lisbon

MOEBIUS: Fragmentos de ilusão, mapas de êxodo dos diários de Karl Marx (Capítulo I)

by Sara De Chiara

Unlike surfaces that in traditional geometry have two sides – an upper and a lower one, or an internal and an external one – and it is necessary to pierce them or override their edge to pass from one face to the other, the Moebius strip, to which the title of Ana Guedes’ first exhibition at Baginski might refer, is a two-dimensional surface that exists only in three-dimensional space, and has only one face. Discovered in 1858 by two German mathematicians, August Ferdinand Moebius and Johann Benedict Listing while working independently, a model of Moebius strip can be easily created by taking a paper ribbon, giving it a half-twist, and lastly joining the two ends of the band to shape a loop. A typical example to illustrate the particular properties of this form is the act of dragging a finger along the surface of the strip and returning to the starting point but on the opposite side, even if the object has only one face, and only after two turns heading back to the exact starting point.

The idea of circular movement, of looping, of an ambiguous continuity in which the physical dualism is resolved in a correspondence of polarities, constantly reversible, is reflected in Guedes’ project, in which the individual history of the artist and her family, that moved from Portugal to Angola and Canada, and returned, is deeply interwoven with the common history of a country that had experienced colonialism, in which feeling at home and feeling like strangers can coexist, like two inseparable sides of the same coin spinning in the air.

This dualism is also reflected in the exhibition, divided into two chapters that complement each other, and that correspond to the main conceptual issues articulated in different bodies of works that respectively occupy the two large rooms of the gallery. The common thread of the project is the sound which, rather than functioning as the soundtrack of the narrative underlying the exhibition, becomes its protagonist, its narrating voice, even though it is a broken and fragmentary voice, extremely rarefied and evocative, and that defies any kind of rhetoric.

Sound is at the core of Guedes’ practice and beyond the content it can convey, it firstly represents for the artist a plastic material ready to be shaped, and, conversely, an active material that gives shape, generating immersive environments, thickening the space and infusing objects with memories or awakening in them forgotten stories with a strong symbolic charge.

This dialectic dynamism between polarities – intimate and collective dimensions, emitting and absorbing sounds – sets the pace of the whole exhibition.

In the first room of the gallery, on a wooden shelf that runs along the wall, a series of vinyl records is on display, composing a horizon, a timeline marked by albums ranging from the 60s to the 90s. It is a collection of records that the artist inherited from her father, who purchased them in Angola, Portugal, and Canada. Like the name of this installation – Untitled Records: A Colecção (Mapas de Êxodo) – suggests, the records witness the movement from one continent to another of the artist’s family over the years, telling an individual path that overlaps with the history of music, the migration of rhythms, the contamination of genres, the popularity of some songs that seem to surpass and cancel distances between different countries.

A selection of records from this family archive was played by the artist during the day of the opening, using a complex system of re-imagined record players, created by Guedes herself; each turntable is multiarmed, in order to weave together and superimpose the tracks of the albums, so that a single voice becomes a chorus. Named Untitled Records (2016), the performative sound installation works like a sort of time-machine, reading the grooves on the records, bringing out fragments of melodies, digging up sounds from different temporalities, blended in an indistinct buzz due to the superimposition as well as  to the scratches and damages caused to the vinyl records by the passage of time. This device will remain on display for the length of the exhibition, while it is possible to listen to the performance recording on a separate record player.

As visitors approach the second room, they get enveloped by sound vibrations coming from the installation Shipwreck beach: dos diários de Karl Marx (Capítulo I) (2017), part of an evocative project telling stories about fishing in Angola, that Guedes started on the occasion of her residency at De Fabriek in Eindhoven in 2017. Karl Marx is the name of a vessel mysteriously shipwrecked on Santiago Beach, north of Luanda, one of Africa’s largest and  ship cemeteries, a significant metaphor for a reflection on the country’s historical, economic and social process.

The physical presence of the ship is recalled by the two-dimensional installation formed by old wooden planks lying down on a structure slightly raised from the floor that almost completely occupies the room. The installation is enlivened by the sound of a horn, recorded on a looping ribbon, which is transmitted to different small speakers placed on the planks that act as a sounding board, creating a disorienting dialogue of echoes. The immateriality of sound is turned into something tangible, vibrant, producing even physical effects, creating an atmosphere that is captivating and sinister at the same time. Shipwreck beach is in conversation with Portuguese Sea Net (2017), another installation consisting of several pieces of colourful fishing lure hanging on the wall, their regular layout alluding to a silent score.

 

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Imagens: Ana Guedes, vistas da exposição "MOEBIUS: Fragmentos de ilusão, mapas de êxodo dos diários de Karl Marx (Capítulo I)" na galeria Baginski, Lisboa. Cortesia da artista e galeria Baginski.

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