Ed. 03-04 / 2019
Crítica — por Sofia Nunes
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A artista franco-marroquina Yto Barrada é uma exímia coletora e contadora de histórias. Mas nem as histórias articuladas pelos seus trabalhos obedecem a uma ordenação racionalizada dos assuntos, no que respeita às temáticas ou às épocas, nem, por outro lado, se encaixam nas categorias de factos verídicos ou ficcionais. De estrutura compósita, baralham episódios, tempos e registos, confundem o que é biográfico com o social, assumem o inverosímil como plausível e mesclam referências geográfico-culturais, criando um mosaico de planos distintos onde a questão da identidade cultural, aliada a uma perspetiva feminista, se vão implicando com elevada agudeza, sensibilidade e humor.
Crítica — por Carlos Vidal
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João Onofre afirmou-se com trabalhos de forte impacto em algumas colectivas de finais dos anos 90. Poderia citar a III Bienal de Arte AIP’98, a Bienal de Arte Contemporânea da Maia: Identificação de uma Cidade (1999) ou a transdisciplinar Arritmia: As Inibições e os Prolongamentos do Humano (2000), onde surgiram obras que se revelariam tematicamente premonitórias (isto é, que fixariam o autor a questões constantes como o corpo-máquina, o corpo performativo “trabalhando” o seu limiar ou o corpo relacional nas séries Untitled de embates de corpos, de 1998-99, e também Untitled [We will never be boring, 1997]), tendo também marcado a sua trajectória internacional a primeira individual em Nova Iorque (I-20 Gallery), em 2001.
Crítica — por Sara De Chiara
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As luzes apagam-se lentamente. A sua intensidade diminui de modo a simular o pôr-do-sol sobre um horizonte transparente, um modelo de larga escala, em acrílico, do telhado de uma fábrica, com o habitual perfil serrado e pontiagudo, colocado ao nível do chão ("Tramonto", 2019). Subitamente as luzes acendem-se e começam uma vez mais a escurecer, reiniciando o processo: um pôr-do-sol contínuo que revela a natureza ficcional e teatral da exposição de André Romão, "Fauna", que começa nesta primeira sala e que serve como introdução à atmosfera nocturna da viagem que os visitantes estão prestes a começar.
Crítica — por José Marmeleira
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Como aproximar, no mesmo texto duas exposições que parecem tão diferentes, senão opostas? Roubada, devagar, à escuridão (ou ao silêncio do livro), uma receia a intrusão imparável da luz. Mostra-se em paredes pintadas numa nudez que permanece secreta. A outra dá-se ao espaço das superfícies brancas, é nele que existe, que encontra a sua casa. Foi feita para aparecer ali. Nesta distância, como se tece a proximidade entre ambas? Uma reposta pertinente talvez pudesse ser: o desenho, a prática do desenho, na sua acepção livre, interrogativa, não definida, não definitiva. O desenho como fazer, com a fragilidade, a leveza e a evanescência que lhe são intrínsecas. À beira de ser levado pelo tempo, de desaparecer no ar.
Crítica — por Isabella Lenzi
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A individual de Alexandre Estrela, inaugurada no final de março no Pivô, espaço independente de São Paulo, ocupa parte do primeiro andar de um dos edifícios mais emblemáticos da cidade, o Copan. Projetado nos anos 1950 pelo arquiteto carioca Oscar Niemeyer, o sinuoso arranha-céu de concreto e vidro é um símbolo da utopia modernista e hoje abriga mais de 5 mil pessoas. Em cartaz até maio, a mostra é composta por uma peça antiga e seis trabalhos inéditos, produzidos a partir de uma residência realizada pelo artista na cidade de Volta Grande, em Minas Gerais, entre janeiro e fevereiro deste ano.
Ensaio — por Eduarda Neves
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De que forma artistas e curadores projectam as suas relações de força na esfera económica, social e política? Que ética da subjectivação é possível? Que política e que individualização do autor? Como desindividualizar? Como dessubjectivar? Que outras linhas de fuga podemos colectivamente construir? O que está em jogo neste jogo? E porque não pensar a curadoria como filosofia das energias vitais ou como operação metalúrgica evocada em Mille Plateaux.
Crítica — por Sara De Chiara
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Julgo ter visto pelo canto do olho, enquanto descia as escadas da Kunsthalle Lissabon, uma referência a estes trabalhos de Boetti, dada a proliferação intensa de imagens e as cores vibrantes, um sentido lúdico, de abertura e inclusão, em vez de exclusão, uma dinâmica de diálogo e colaboração que atravessa a exposição. "Rocambole" é o segundo episódio de uma exposição colectiva apresentada pela primeira vez no verão de 2018 no Pivô, em São Paulo. Flora Rebollo, Thiago Barbalho e Yuli Yamagata conheceram-se em 2017 durante o programa de residências de pesquisa no Pivô.
Crítica — por Hugo Canoilas
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Hammons começou por expor nas caves de igrejas e no centro de recreação judaica em Los Angeles — os únicos locais que davam oportunidades de exposição a artistas negros no final dos anos 60. Estar fora, ser marginal, é o seu local de eleição. E a sua obra vai-se desenvolvendo sempre nos limites do visível e o invisível, nos muitos episódios que alimentam o mistério em torno da sua obra e persona, como na materialidade, estética e conotação social da sua obra.
Crítica — por José Marmeleira
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Há nove anos, numa troca gentil de emails, perguntou-se a Diogo Pimentão se o título "Diferido", que dava o nome a uma exposição na desaparecida galeria Marz, não nos falava de vestígios e evocações de experiências passadas, experiências essas que concebiam o desenho como outro corpo. Corpo com um aspecto particular, físico e material; desenhado, moldado, esculpido, tocado com o movimento das mãos e dos dedos, mas, também, com o movimento do pensar.
Crítica — por Isabel Nogueira
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É sempre o som. Podíamos iniciar por aqui uma reflexão sobre o trabalho de Ricardo Jacinto (n. 1975). E este som apresenta-se, a nosso ver, como um consistente filão da sua pesquisa. Filão é, de resto, o título desta exposição individual na Galeria Bruno Múrias. Ricardo Jacinto torna o som plástico, envolvente e produtivo de memória e de registo, muitas vezes, e novamente agora, utilizando o violoncelo como mediador.
Crítica — por Maria Beatriz Marquilhas
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"dois anos e meio" é simultaneamente o título e o tempo de investigação e produção da exposição que Nuno Nunes-Ferreira apresenta na galeria Balcony, até 20 de Maio, com curadoria de Luísa Santos. Com trabalhos compostos por milhares de recortes de jornais, revistas e publicidade, "dois anos e meio" é um trabalho em expansão. Num movimento de descentralização, o espectador é enviado para uma torrente de ocorrências de menor ou maior relevância, marcos, datas festivas e anúncios publicitários, nos quais abundam as alusões a diversas temporalidades.
Ensaio — por Isabel Nogueira
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Agnès Varda (1928-2019) deixou-nos recentemente. Iniciou a sua carreira como fotógrafa, mas rapidamente enveredaria também pelo cinema. Professora, feminista, humanista, cidadã politicamente comprometida, Varda incorporou o pioneirismo do cinema moderno. O seu primeiro filme, "La Pointe Courte" (1955), foi realizado quando era ainda muito jovem e imediatamente antes da emergência do implicativo movimento francês da nouvelle vague, do qual também fez parte activa.
Crítica — por Miguel Mesquita
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A investigação artística que Mariana Silva tem vindo a desenvolver, projectando-se na esfera antropocénica, explora a circulação e a crise do modelo neoliberal na relação com colectivos, bem como dos sistemas socioeconómicos a que estamos submetidos, estabelecendo meios de interrogar processos autocráticos e, simultaneamente, compreender e percepcionar as estruturas que condicionam a acção humana sejam elas sociais, antropológicas, políticas ou económicas.
Entrevista — por Antonia Gaeta
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Ângela Ferreira (AF): A minha relação com as políticas de identidade tem sido muito cuidadosa. Evidentemente que trabalho com uma forte consciência da minha condição como mulher, embora não me considere uma activista. No entanto, nestes meus trabalhos de homenagem a mulheres africanas existe verdadeiramente um esforço de celebrar um grupo de personalidades que, não só servem para sublinhar de forma positiva o papel das mulheres na construção de uma imagem construtiva do continente Africano e do mundo, mas também remeto para o seu papel como lutadoras contra os vários regimes opressivos em que viveram e ainda vivem.
Ensaio — por José Marmeleira
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Na Galeria Quadrum, o projecto "Assentamento" de António Bolota, com curadoria de Sara Antónia Matos, é nos seus elementos essenciais, na sua estrutura, na sua aparência e escala, um monumento que evoca e transcende a actividade construtiva. Transfigurando-a, no plano da produção artística, numa delicada e grande obra de arte. Há cincos anos, António Bolota instalou na Galeria Quadrado Azul, em Lisboa, dois volumes que, dispostos no chão, lado a lado, transformavam um dos momentos da exposição numa experiência perceptiva, óptica.
Crítica — por José Marmeleira
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"Mil Órbitas" começa numa pele de círculos recortados, como se a compor, a tecer um cenário. Suspensa, recebe o visitante na forma de preâmbulo, familiarizando-o com formas e fazeres. E é então que, no primeiro piso, os livros se abrem para fora, num palco de papel, com as imagens a tornaram-se múltiplas, a ganharem volume, fundo. Como projeções no espaço, azuis, vermelhas, com o desenho a revelar-se (num trabalho a tinta da china), num pequeno teatro em que a vida e a arte de António Poppe se cruzam, se colam, em que o processo de trabalho se desnuda. Nesta peça, em forma de diorama, vemos o desenho e a escrita como se produzidos pelas imagens e vice-versa, num fazer mútuo e ali suspenso.
Crítica — por José Marmeleira
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Dar a ver, tornar públicos os trabalhos dos artistas, assegurando-lhes uma existência que os transformará em arte. Fazê-los sair da escuridão a que o atelier os confina. Oferecer-lhes espectadores. Ora, diz-nos o senso comum, é isso o que se espera das exposições. Na Galeria Graça Brandão, a coletiva Stray Gods acolhe esse desígnio, mas de um modo que afirma a sua singularidade. É prospectiva e generosa, logrando reunir não apenas um conjunto eclético de nomes, mas um leque de artistas que escapam ou têm escapado, por força das circunstâncias, às luzes mais intensas da publicidade.
Crítica — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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Na exposição individual de Diogo Evangelista, Organic Machinery, o espaço industrial da galeria Francisco Fino encontra-se banhado por uma luz escura e rosada. Cuidadosamente dispostas no centro, seis esculturas compostas por várias combinações de cilindros e tubos de aço inoxidável, Single Breeders (I, II, III, IV, V, VI), 2019, brilham tranquilamente. Ou talvez reluzam solitariamente. É o que sugere o som do canto de acasalamento da ave Kauai O’o, transmitido pela instalação número I. A agora extinta espécie desta ave canora australiana foi vista pela última vez no Havai em 1987.
Crítica — por Cristina Sanchez-Kozyreva
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Apresentando trabalhos em pintura e escultura de três artistas portugueses — Vasco Costa (1977), Filipe Feijão (1975) e Hugo Canoilas (1976) —, a exposição “Negative Hands” na Galeria Quadrado Azul reclama um território entre o presente e o futuro, mas combinando referências do passado com grandes figuras da literatura francesa dos anos 60 e 70, do século XX, e com a pré-história. O título da exposição é emprestado do poema de Marguerite Dumas “Les Mains négatives” (1979) que se inspirou nas pinturas rupestres do período Magdaleniano (17.000 a 12.000 anos antes do nosso tempo).
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