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Onde procurar a coragem?

Djaimilia Pereira de Almeida

 

Onde procurar a coragem? Pergunto-me, sem imaginar que saberia reconhecer a resposta. Onde procurá-la, sem supor que conseguiria distinguir aquilo que me encontrou? Como a uma cara que não sei de onde conheço, encontrar a coragem, e talvez até ela falar-me, dizer-me até bom dia, mas não sei em que vida, emprego, hospital, encarnação nos conhecemos. É mais como uma cara nova e antiga que me aparece do que como uma força: mais cara menos força. Em que encarnação havemos de nos ter cruzado? Em que futuro? As respostas às perguntas são, também, caras que não reconheço: mais cara menos força. Como quem não sabe onde acorda, depois de passar pelas brasas, não saber se só passou meia hora, se já é de noite; como quem deixou passar o comboio da coragem, perguntar onde a posso encontrar.

     Nem todos os dias são propícios à colagem. Sirvo-me dela como emenda para aqueles que arrisco perder. Escrever é outra coisa: o próprio dia, ganhado ou perdido.

     De vez em quando, pergunto-me porque terei cortado assim, colado ali, truncado além. Os corações, como as pessoas, quase nunca têm explicação.

     A colagem inibe as perguntas, revelando-me como um monstro, se me atrevo a elas. Resguardo-me, então (ia escrever: sucumbo), no supremo gozo de não perguntar nada e olhar para o corte como o acidente que não é.

     Não é tantas vezes assim? Fingir que o paraíso é não ser preciso responder a ninguém, nem sentarmo-nos jamais diante juiz algum? Ou, talvez, a colagem ofereça a possibilidade de enfrentar a cobardia do arquivo, do longo rasto de desperdício necessário à realização de alguma coisa; e estas notas, a própria coragem, um daqueles jantares requentados, em que se come o que sobrou do dia anterior: beatas de estranhos, apanhadas do chão e fumadas de novo. Mas, não é uma pessoa, qualquer uma, também isso?

O senhor do saco vagueia pelo jardim ao fim-de-semana. Traz sempre um saco das compras, terá oitenta anos, caminha muito, muito devagar. Não vai pelo passeio. Atalha pelo bosque e pára diante cada árvore em sinal de respeito. Às vezes, congela. Talvez preste homenagem. Toca o tronco do pinheiro, ou as pétalas de uma flor, que nunca arranca. Ou desaparece dentro de um arbusto, como um gato.

     O que procura, olhando o chão, escondido entre os ramos? O fresco que há perto das raizes das plantas? Um esconderijo? Esperamos que reapareça e, passado algum tempo, reaparece.

     Perguntamo-nos o que o traz a estas bandas. Se será viúvo, se tem a mulher acamada, ou se nunca casou, ou se vive com uma prima velhinha, de quem toma conta. Uma vez, os jardineiros podaram os arbustos. O senhor do saco parou diante deles, com um ar tristonho. Tinham feito a barba aos seus amigos, quem os mandou, malvados.

     Outros dias, passa e não pára. Noutros, conversa com o choupo, a meio da caminhada, pousa a mão na casca do tronco.

     Vemo-lo da janela e tentamos fotografá-lo. Temos vontade de perguntar de onde vem e onde vai, o saco de compras que carrega parece estar vazio. Anda tão devagar e nunca o apanhamos a tempo.

     De tanto passear pelos mesmos caminhos, desenhou na grama os seus passos. Vai de olhos no chão, pedrinhas, troncos secos, moedas, garrafas de plástico.
     Quando a relva seca, o seu trajecto é revelado: arcos de terra pisada, trilhos concêntricos, mais e mais próximos das plantas, afastados das casas.
    

Colo bocadinhos de papel, tento refazer quem fui. Onde terei começado? Quando terei tido dezassete? Aos poucos, a vida passada regressa como a humidade ao início da noite, instalando-se sobre as coisas, a estrada, as plantas, na rua. Um almoço, numa cozinha. Um cigarro fumado a uma janela, a vista de um limoeiro, um cheiro de doce de cereja, raspões de uma manhã no trânsito, uma vagem de baunilha. Mais atrás, a torre de uma igreja em obras, uma criança a comer uma laranja, iogurte negro com framboesas, a Rua Nova do Almada repleta, num dia de chuva. Mais atrás, mais fundo ainda, as mãos de uma mulher: arranjo-as a uma mesa com um alicate de unhas. Peças de um puzzle que não sei montar, perdidos os pontos de contacto. As peças sobraram, mas perdeu-se a jogadora, aquela que as viveu.

     Seria em passeio pela sombra de Tomar, anos depois, que encontraria a imagem certa para esse apagamento. Adormecida pelo passo lento de poucos transeuntes cruzando um rossio a que cheguei como um carteiro baralhado, estarei porventura em obras e para arrendar (perguntei-me, então), entre turistas, velhos à sombra e o ocasional berço empurrado por um dos poucos casais jovens da terra. O que começou por ser um banco tornara-se uma casa de penhores: compramos ouro, dizia a montra entaipada com papel autocolante laranja-vivo, no qual reluziam anéis e gargantilhas.

     Estou apenas a caminho de perceber a mulher que me ocupou. Ela tomou o seu lugar, consumindo a minha fé na esperança de a chegar a entender.

     Talvez eu nunca tenha existido e não haja mais a conhecer. Aguarda-me uma vida quase completa com ela, com quem me dou há pouco tempo. Resisto a imaginar que algum dia ela me chegará a ser clara e encaro a tentativa de a capturar como um derradeiro lance de húbris, enquanto ainda me é estranha. Estou perante ela, vendo-a daqui, como de uma criança nascida há pouco. Sou jovem para sempre, atrevendo-me no presente e extraio do atrevimento uma doçura que raramente me visita desde que ela me convocou.

     Para onde foi quem fui? Será que continua a ser onde são as coisas que ficam a meio deste lado, e que aí terminará um dia sem que em mim bocado algum apodreça? Terá realmente morrido? Ou terá ganhado nova vida: nutrindo terra, aumentando o caudal de um rio, mesmo se apenas como uma única gota? Terá continuado como queda, perenemente a inclinação de uma árvore? Ou subsiste como movimento, velocidade, acção?

 

 

Djaimilia Pereira de Almeida é escritora. Autora de, entre outros, Luanda, Lisboa, Paraíso e A visão das plantas, distinguidos com o Prémio Oceanos. Escreve sobre fotografia e literatura na Quatro Cinco Um.

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