Ed. 12 / 2017
13 / 15

Fifty-Fifty (50/50)

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Noé Sendas e Rui Calçada Bastos. Vistas da exposição Fifty-Fifty. Galeria Miguel Nabinho. Fotos: © Rui Calçada Bastos. Cortesia do artista.

Isabel Nogueira

 

A exposição dá imediatamente o mote com o título Fifty-Fifty. Trata-se de um encontro de obras inéditas, na Galeria Miguel Nabinho, da autoria de dois artistas: Noé Sendas e Rui Calçada Bastos, com curadoria de Sérgio Fazenda Rodrigues.

O pretexto terá sido o de ir à cave, mas poderia igualmente ser o de ir ao sótão. Quer dizer, a cave ou o sótão afiguram-se como metáforas de um recolhimento que é procurado e, posteriormente, tornado exposição, ou seja, transfigurado em espaço público. E, desde logo, a exposição emana intimidade, inclusivamente pelo lugar – uma cave de uma galeria – onde é materializada. A exposição a dois, digamos, resulta não apenas de dois percursos individuias, mas também de um conhecimento longo entre os dois artistas e da partilha de projectos comuns, como, entre outros, foi o caso da galeria berlinense Invaliden 1.

À excepção de uma bela fotografia do Tibete, captada nos anos noventa por Rui Calçada Bastos, as restantes peças, de ambos os artistas, são objectos tridimensionais. Quanto à imagem em questão, o universo da viagem física é claramente transportado por esta fotografia e constitui-se, de resto, como matriz do trabalho de Calçada Bastos. Mas a viagem é também um outro ponto de contacto entre Calçada Bastos e Sendas. Contudo, esta exposição oferece-nos principalmente texturas interiores, universos não necessariamente tangíveis ou visíveis, mas que comportam alguma crueza e certamente um depuramento formal grande. As peças são construídas a partir de objectos banais, oriundos do quotidiano, evocativas do conceito de objet trouvé, e transformadas em peças elegantes e, a seu modo, reveladoras e intensas.

Rui Calçada Bastos ocupa parte considerável do chão com dois conjuntos de porta-retratos, que se olham e que se organizam numa espécie de batalhão, frente a frente, mas, na verdade, e num olhar mais atento, percebe-se que cada batalhão possui afinal a parte que falta ao outro. Numa outra peça – Palavras de pedra – Calçada Bastos coloca um envelope sobre um paralelo de estrada. O envelope está aberto, num potencial convite à leitura. Ou, pelo contrário, ao registo guardado, fechado a qualquer momento.

 Noé Sendas e Rui Calçada Bastos. Vistas da exposição Fifty-Fifty . Galeria Miguel Nabinho. Fotos: © Rui Calçada Bastos. Cortesia do artista.

Noé Sendas e Rui Calçada Bastos. Vistas da exposição Fifty-Fifty. Galeria Miguel Nabinho. Fotos: © Rui Calçada Bastos. Cortesia do artista.

 

Por seu lado, Noé Sendas faz alusão ao corpo e à utilização de peças que fazem a vez metafórica de próteses na susbtituição do corpo, o qual, subitamente, é transformado em tábuas que ocupam o espaço do corpo humano numas banais calças, ou da ferramenta pé-de-cabra junto e alinhada com o sapato, fazendo a vez do pé humano. Uma outra peça chama a atenção. Trata-se de um conjunto de tábuas com um pequeno círculo retirado no centro e com cordas, como se de um instrumento musical se tratasse. A melodia mantém-se em segredo. Talvez não seja necessariamente uma melodia, mas algo de ruidoso, até inaudível e disfuncional. Nunca o saberemos. Ou, por outro lado, esta melodia pode ser a do espectador que decida tocar o objecto. A sua própria melodia.

O que se vislumbra constante na exposição é um silêncio e uma certa intimidade, um recolhimento passível de ser sentido a cada peça, a cada volta ao espaço, a cada olhar. A ida à cave é um convite a ir às entranhas, aos alicerces, aos imaginários potencialmente fortes e escondidos, mas igualmente ao depuramento face ao acessório, na verdade, bastante visível nestes trabalhos.  Finalmente, e tratando-se de uma exposição feita por dois artistas, é também intuída uma postura dialogante, empática entre as várias obras, comungando, também no todo, de equilíbrio e de leitura respirável e compassada.

A viagem, de resto, começa antes de começar, como materialização de vontade escondida, ou eventualmente adiada. A viagem – física ou interior – perpetua ou revela vivências, ilustra visões e estados de espírito, guarda segredos, fixa frases que nunca proferimos ou escrevemos, das quais temos receio de nos esquecer. As viagens dos artistas tornam-se obras e, a seu modo, o espectador faz das peças as suas próprias viagens, apropriando imaginários e reinventando-as à sua medida e de acordo com a sua sensibilidade. A deslocação ao desconhecido permite um certo grau de abandono e de vulnerabilidade, presentes em Fifty-Fifty, na contingência e singularidade da representação, claro. Tudo o resto não sabemos, nem importa verdadeiramente. É o silêncio e o intervalo; é a pausa antes de a nota musical brilhar; a contenção que antecede a acção. E assim sucessivamente. Tal como o recolhimento antes da exteriorização; as diversas viagens entes da exposição formal. Estes processos e texturas emocionais vão pontuando e ritmando toda a mostra em causa. A porta da viagem fica aberta. É só descer as escadas que dão acesso à cave e iniciar o percurso por esta elegante e depurada exposição. 

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Noé Sendas e Rui Calçada Bastos. Vistas da exposição Fifty-Fifty. Galeria Miguel Nabinho. Fotos: © Rui Calçada Bastos. Cortesia do artista.

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Noé Sendas e Rui Calçada Bastos. Vistas da exposição Fifty-Fifty. Galeria Miguel Nabinho. Fotos: © Rui Calçada Bastos. Cortesia do artista.

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Noé Sendas e Rui Calçada Bastos. Vistas da exposição Fifty-Fifty. Galeria Miguel Nabinho. Fotos: © Rui Calçada Bastos. Cortesia do artista.

Isabel Nogueira

(n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

Noé Sendas

Rui Calçada Bastos

Galeria Miguel Nabinho

 Noé Sendas e Rui Calçada Bastos. Vistas da exposição  Fifty-Fifty . Galeria Miguel Nabinho. Fotos: © Rui Calçada Bastos. Cortesia do artista.

Noé Sendas e Rui Calçada Bastos. Vistas da exposição Fifty-Fifty. Galeria Miguel Nabinho. Fotos: © Rui Calçada Bastos. Cortesia do artista.

 

Conversa a quatro a propósito da exposição "Fitfy-Fifty". 

Artistas: Noé Sendas e Rui Calçada Bastos.

Curadoria: Sérgio Fazenda Rodrigues.

Conversa conduzida por: Edgar Massul.

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