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O Walk & Talk e a comunidade da ilha de São Miguel

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por Luísa Cardoso

Pensar a relação do Walk & Talk (W&T) com a comunidade da ilha de São Miguel, nos Açores (ou qualquer outra relação entre arte e comunidade) será, antes de mais, questionar essa equação — levantar perguntas, mais do que avançar respostas.

Actualmente na sua sétima edição, o W&T iniciou-se em 2011, com intenções que, se evoluíram, acompanhando a transformação da sua programação, marcaram uma génese estruturante do projecto. No texto onde se declaram as intenções do festival no seu ano de abertura, lê-se o desejo de criar um “meio termo” entre a “bipolaridade de conteúdos eruditos e populares” que caracterizariam a cultura na ilha. Daqui decorria a vontade de promover um espaço público de confronto e discussão acessível a um público mais vasto. 

Tendo acompanhado as duas últimas edições do festival e procurando rastrear a evolução de uma programação — a qual, iniciada com murais com referentes na street-art, se alarga hoje a um circuito de arte pública com critérios curatoriais declaradamente distintos, residências artísticas, exposições, música, dança e performance, cinema e se expande nos últimos dois anos à Terceira e a uma programação de eventos fora do tempo do festival —, há algumas perguntas que emergem de imediato.

A primeira, mais geral (mas também a necessitar de clarificação em todos estes debates) será: de quem estamos a falar quando falamos de comunidade? Pois a comunidade, como a noção de “povo”, é também esse conjunto heterogéneo de identidades, em constante construção e transformação, cujo poder de participação e de representação é altamente diverso — ou seja, desigual. Entre a agencialidade que se convoca ou estimula, as cautelas com uma condescendência que por vezes acompanha as melhores intenções pedagógicas, a aceitação de um ampla diversidade de opções de participação (que passam também pela liberdade de não participar) e a difícil mensurabilidade dos resultados (quer sincrónica quer diacronicamente), os ensaios de resposta movem-se quase sempre numa zona de indefinição, onde as múltiplas variáveis são proporcionais à sua complexidade.

Decompondo algumas acepções em que a noção de comunidade poderá ser perspectivada no contexto da pergunta e do local — qual o envolvimento do W&T com a comunidade local? —, poderemos começar por inquirir a comunidade como participante do processo criativo. Como é que a comunidade é chamada para o mesmo? Através dos saberes artesanais convocados pelos artistas em residência? Como é que se faz essa convocação? A dita comunidade tem voz no processo criativo ou o seu saber específico é conduzido pelo artista, que mantém a primazia do papel autoral? Que poder/conhecimento a partilha deste processo outorga à comunidade?

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Festival Walk&Talk 2017. Residência de Artesanato. Fotos: Mariana Lopes. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Residência de Artesanato. Fotos: Mariana Lopes. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Residência de Artesanato. Fotos: Mariana Lopes. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Residência de Artesanato. Fotos: Mariana Lopes. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Residência de Artesanato. Fotos: Mariana Lopes. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Residência de Artesanato. Fotos: Mariana Lopes. Cortesia de Walk&Talk

Sofia Botelho, directora do W&T, refere o exemplo das residências artísticas de designers com artesãos locais: a vontade de uma aprendizagem oficial dos primeiros juntou-se a uma partilha na descoberta das possibilidades de concretização das ideias desenvolvidas. Outro caso que poderia ser evocado seria o da colaboração do coreógrafo João dos Santos Martins com o 37.25 - Núcleo de Artes Performativas, do qual resultou #dancewithsomebody na edição de 2016. A reflexão sobre a história da dança e da criação coreográfica articulava-se com a experiência concreta dos membros dos 37.25 ao nível da aprendizagem da dança em São Miguel, sendo o resultado final uma simbiose de ambos os referentes. 

Outra acepção para interrogarmos a comunidade seria a do grupo que desfruta, quer do que é proposto na efemeridade do festival, quer do que dele permanece no local. Aí estaremos já a interrogar-nos sobre a aprendizagem de um olhar, sobre a possibilidade de experienciar um tipo de produção artística anteriormente inexistente, sobre a criação de um espaço público de debate e sobre as reconfigurações da identidade do local e da comunidade decorrentes do circuito de arte pública. E poderemos ainda reflectir sobre a evolução do carácter deste circuito: a comunidade que se identifica com os murais disponibiliza-se para ver, por exemplo, a obra House for Ferraria de Teresa Braula Reis ou a instalação sonora Medusa (Reflexo) de Ricardo Jacinto, integradas no circuito de arte pública de 2017? Serão comunidades diferentes as que usufruem da arte pública e, por exemplo, das exposições, dança, performance, cinema, música e debates? Terão de coincidir? 

A acepção da comunidade como “público” ou “públicos criados” espreita sempre, mas esta será talvez a menos mensurável e cujos resultados se podem manifestar com lapsos de anos. Podemos questionar se os públicos das artes performativas ou das exposições são diferentes agora do que outrora, mas devemos recordar que há diversos públicos para as diferentes propostas do W&T e que a mera possibilidade de “ver” algo amplia as referências, podendo abrir para um “olhar” mais tarde. 

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Festival Walk&Talk 2017. Espectáculo Equanimidade de Vânia Rovisco. Fotos: Filipa Couto. Cortesia de Walk&Talk

Há a outra face de toda esta questão, que se poderia articular como um inquérito à consciência política dos artistas. Também aí as questões se multiplicam. Como se pode apreender uma estrutura social no tempo de uma residência artística (se é que o trabalho com a comunidade integra a intencionalidade do projecto)? O que é que os artistas vão buscar a uma comunidade? Um saber? Uma “matéria prima” para a criação, um capital simbólico acrescentado à sua produção? E o que é que devolvem a essa comunidade? Uma representação, uma experiência, a partilha de um processo, um espaço renovado, um saber, uma emancipação, um poder? Por outro lado, como adverte Claire Bishop, quando a crítica enfatiza o processo colaborativo sobre o produto artístico cria frequentemente uma dicotomia dificilmente conciliável entre critérios de avaliação éticos e critérios de avaliação estética.

No fundo, e voltando ao início, recordo-me sempre de uma das primeiras conversas que tive com o Jesse James, director do festival. Eu, acabada de chegar à ilha, ele a explicar-me como é que o W&T tinha surgido. Eu conhecia pouco da ilha, ou só a conhecia de férias, o que é muito diferente de nela viver. E ele explicava-me essa bipolaridade que sentia existir em 2011 entre cultura popular e cultura erudita (outro ângulo de abordar a ilha e as suas estratificações sociais), dizendo-me que então ou havia um circuito de arte contemporânea onde o público alargado não participava ou a festa do chicharro. E acrescentou no final: “Eu sou dos Arrifes, percebes?” Eu nem sabia onde ficavam os Arrifes, mas percebi o que queria dizer. Assim, talvez a pergunta mais pertinente seja: o que é que mudou em sete anos de W&T na estrutura de classes da ilha? Criou-se esse espaço intermédio entre os pólos do binómio, não só ao nível da produção artística que hoje aqui se pode contemplar como ao nível da comunidade que com ela se relaciona? Se sim, ou seja, se esse quadro hoje é mais complexo e diverso, o W&T vai cumprindo as suas intenções. A relação da comunidade com a criação artística proporcionada pelo festival é necessariamente diversa, mas há relação (aceitação, desconforto ou rejeição são várias formas de relação). E hoje, quer uma pessoa se identifique com um mural de 2011 ou com as fundações metafóricas de uma casa na Ferraria de 2017, pode, aqui, contemplar ambas. A construção de uma relação leva muito tempo. E nunca é linear. Como afirma Bishop, o “desconforto e a frustração — juntamente com o absurdo, a excentricidade, a dúvida ou o puro prazer – podem (...) ser elementos cruciais do impacto estético de uma obra e são essenciais para ganhar novas perspectivas sobre nossa condição."

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Festival Walk&Talk 2017. Espectáculo Equanimidade de Vânia Rovisco. Fotos: Filipa Couto. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Espectáculo Equanimidade de Vânia Rovisco. Fotos: Filipa Couto. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Espectáculo Equanimidade de Vânia Rovisco. Fotos: Filipa Couto. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Espectáculo Equanimidade de Vânia Rovisco. Fotos: Filipa Couto. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Espectáculo Equanimidade de Vânia Rovisco. Fotos: Filipa Couto. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Espectáculo Equanimidade de Vânia Rovisco. Fotos: Filipa Couto. Cortesia de Walk&Talk

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Festival Walk&Talk 2017. Espectáculo Equanimidade de Vânia Rovisco. Fotos: Filipa Couto. Cortesia de Walk&Talk

Luísa Cardoso

Luísa Cardoso é licenciada em História da Arte e doutorada em História
da Arte Contemporânea pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa, é investigadora do Instituto de História da Arte da FCSH/UNL e do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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