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João Queiroz

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por Isabel Nogueira

Sobre a exposição de João Queiroz na Galeria Vera Cortês

João Queiroz (n. 1957) apresenta um conjunto de pinturas na Galeria Vera Cortês, no qual, segundo o próprio artista, teve presente o tema do limite, da fronteira, da porosidade ou do muro. Uma parte das pinturas, como também afirma Queiroz, é de carácter terroso e mineral; uma outra, de cariz vegetal e arbóreo. Ou, acrescentamos nós, um conjunto apresenta-se mais rígido e outro potencialmente mais suave, inclusivamente ao nível das nuances cromáticas. E estão lançadas as directrizes da exposição, cujo principal objecto é efectivamente a paisagem, na sua organicidade e complexidade. Vejamos.

João Queiroz, Vista da exposição, Galeria Vera Cortês, Lisboa, 2017 . Exhibition view, Galeria Vera Cortês, Lisbon, 2017
João Queiroz, Vista da exposição, Galeria Vera Cortês, Lisboa, 2017 . Exhibition view, Galeria Vera Cortês, Lisbon, 2017
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João Queiroz, Vista da exposição, Galeria Vera Cortês, Lisboa, 2017 . Exhibition view, Galeria Vera Cortês, Lisbon, 2017

O entendimento da paisagem como género autónomo, isto é, de primeiro plano, aconteceria no âmbito da estética romântica, concretamente no que se refere ao abandono definitivo do princípio de imitação, o qual reconduzira a arte a uma reprodução mais ou menos criativa de objectos ou acções. Pensemos, neste caso, nos designados pintores de vedute, que recorrentemente utilizavam a camara obscura para reproduzir um aspecto de uma cidade ou de um local, tal como fizeram Canaletto ou Vermeer. Estas “vistas topográficas” ou “paisagens historicamente objectivas” encerravam em si sobretudo um realismo de reprodução das formas, em detrimento de uma certa subjectividade interpretativa. 

Caberia precisamente ao pensamento romântico, e não negando o carácter poético e inspirador da natureza, a compreensão da pintura como também ela criadora e reveladora de uma subjectividade interior, de uma expressão activa, e, como se referiu Novalis a este respeito: «Quase todo o homem é já em pequeno grau um artista. Ele vê a partir de dentro e não para o interior. Sente a partir de dentro e não para o interior». A pintura paisagística assumia-se, pois, como um género moderno, como a “experiência de vida da terra” e a consequente relação necessária entre o estudo científico da natureza e a sua reprodução artística. Estas ideias foram particularmente teorizadas pelo alemão Carl Gustav Carus, amigo de Goethe, em Cartas e anotações sobre a pintura de paisagem (Briefe Über die Landschaftsmalerei, 1819-1831) e encontram-se, em larga medida, igualmente presentes nas obras pictóricas de Constable e, principalmente, de Turner e Friedrich.

             A paisagem assume-se cultural e tradicionalmente como uma arte de descrição ou de contemplação, ao mesmo tempo que pode também comportar em si dados precisos sobre sociedades e modos de vida. A paisagem toma a forma de um campo expandido, pleno de possibilidades visuais, interpretativas e mesmo performativas, não obstante a paisagem “em si”,  nas palavras de Mario Perniola (Il sex appeal del inorgânico, 1994): «Ao contrário do espectáculo, que implica a existência de um olho que o olha, a noção de paisagem retira da sua proveniência geográfica uma impessoalidade que prescinde completamente do ponto de vista subjectivo. A sexualidade neutra da experiência plástica pode ser descrita como uma deslocação do sentimento para um contexto geotópico: não é mais o homem que sente a paisagem, porque ele mesmo faz parte dela».

           

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João Queiroz, Sem título / Untitled, 2016-2017, Óleo sobre tela / Oil on canvas,  89 x 116 cm

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João Queiroz, Sem título / Untitled, 2016-2017, Óleo sobre tela / Oil on canvas,  89 x 116 cm

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João Queiroz, Sem título / Untitled, 2016-2017, Óleo sobre tela / Oil on canvas,  89 x 116 cm

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João Queiroz, Sem título / Untitled, 2016-2017, Óleo sobre tela / Oil on canvas,  89 x 116 cm

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João Queiroz, Sem título / Untitled, 2016-2017, Óleo sobre tela / Oil on canvas,  89 x 116 cm

João Queiroz através de uma visão subjectiva, de uma mancha contida e de uma paleta elegante, vai delineando as suas fronteiras e as próprias fronteiras da paisagem, enquanto género tradicionalmente figurativo, que aqui toma claramente um propósito esvoaçante e consideravelmente abstracto. Quer dizer, a paisagem separa-se, através do olhar do artista, do campo da figuração objectual a que original e historicamente pertence. E evocamos a expressão de Merleau-Ponty, quando este se referiu ao “olho que vê o mundo e o que falta ao mundo para ser quadro (L’oeil et l'esprit, 1960). Ou, e recordando Alberti, enquadrando o mundo, ou seja, “abrindo janelas sobre a história”. E é só entrar com os olhos.

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João Queiroz, Vista da exposição, Galeria Vera Cortês, Lisboa, 2017 . Exhibition view, Galeria Vera Cortês, Lisbon, 2017

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João Queiroz, Vista da exposição, Galeria Vera Cortês, Lisboa, 2017 . Exhibition view, Galeria Vera Cortês, Lisbon, 2017

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João Queiroz, Vista da exposição, Galeria Vera Cortês, Lisboa, 2017 . Exhibition view, Galeria Vera Cortês, Lisbon, 2017

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João Queiroz, Vista da exposição, Galeria Vera Cortês, Lisboa, 2017 . Exhibition view, Galeria Vera Cortês, Lisbon, 2017

João Queiroz

Galeria Vera Cortês

 

Isabel Nogueira

(n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).