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Contencio1, corte e selecção.

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por Antonia Gaeta

Entrevista a Marilá Dardot

O percurso artístico de Marilá Dardot caracteriza-se pela presença de um vocabulário plástico que se encontra no limiar do poético e do literário, onde há espaço para o questionamento da linguagem e o seu uso, mas também para a relação que intercorre entre palavra e tempo, imagem e actualidade.  

Entrevisto a artista na véspera da inauguração da sua exposição individual na Galeria Filomena Soares onde se encontra a finalizar os últimos detalhes das  suas obras.

Em Abril passado houve um encontro na Galeria Quadrum, onde orientaste uma conversa com a presença de autores e de um livreiro (António Mota Redol, José Viale Moutinho, Luís Alves, Manuela Tavares, Maria Antónia Palla, Modesto Navarro e Sérgio Ribeiro) de livros proibidos ou censurados em Portugal entre 1933 e 1974. Esta conversa tomava como ponto de partida um estudo publicado em 2012 no Jornal Expresso, da autoria do investigador José Brandão que procedeu a um levantamento de 900 livros que tiveram problemas de vária ordem com a censura e a polícia política durante o Estado Novo. 

À conversa deste o título de Interdito. Agora apresentas na Galeria Filomena Soares uma exposição com o mesmo título. Julgo este ser o teu fio condutor e queria saber como é que, partindo deste encontro/conversa, desenvolveste mais ideias para a exposição.

E ainda, este projecto está relacionado com a tua residência no âmbito de Passado e Presente - Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017 no complexo dos Coruchéus?

Já tinha interesse sobre o tema dos livros proibidos antes de vir para Portugal. Na verdade, o primeiro interesse começou quando fui convidada a apresentar um projecto para a Turquia e na época interessei-me pelos livros que estavam ainda sendo proibidos na Turquia, um país com muitos escritores presos. Finalmente, este projecto não aconteceu mas tinha ficado com esta questão dos livros proibidos no meu caderno de anotações, digamos.

Cheguei a pesquisar os livros proibidos no Brasil apercebendo-me da diferença que havia entre livros escritos pelos homens e livros escritos pelas mulheres. Tinha notado que a censura, nos livros escritos pelas mulheres, era muito mais de cunho moral do que necessariamente político, assim falando em termos meramente estritos. Muito livros eram censurados por serem considerados pornográficos, obscenos e imorais. Também não fiz nada com estes livros brasileiros, mas comecei a ler livros sobre o assunto. 

Quando cheguei a Portugal e, por acaso, na esquina da minha casa, encontrei uma livraria. É a livraria LER que durante o mês de Abril prepara uma vitrina com os livros proibidos e alguns dos actos de apreensão. Uma iniciativa que o primeiro dono da livraria, o pai do actual dono, começou a fazer logo após do 25 de Abril de 1974 e que desde então faz todos os anos. Isto chamou-me a atenção. Fiz uma foto da vitrina e comecei a investigar mais. 

Quando me convidaram para participar no programa da Capital Ibero-americana nos Coruchéus, havia uma demanda muito rápida de propor alguma coisa para o serviço educativo e o primeiro projecto que me veio à cabeça foi trabalhar com esta questão dos livros proibidos. O que eu queria na altura - por ser uma questão já muito falada, discutida e documentada a vários níveis - era trazer a questão do afecto destas pessoas que tiveram os seus livros proibidos. Inicialmente queria também convidar leitores, pessoas que tinham livros proibidos consigo e perceber o que significava ter livros proibidos em casa e o livreiro que era o intermediário entres estes autores e os leitores. No final acabei enviando o convite para muitos autores porque pensei que não ia ter  resposta mas muitos aceitaram. Foram 6 autores e o livreiro e a conversa foi emocionante, quiçá muitas pessoas por pouco tempo, mas foi interessante. Nessa época estava ainda pesquisando as capas dos livros e ainda não sabia como ia trabalhar com este assunto. De repente veio-me esta imagens dos fardos de papel que é como se todo este aqui (este volume) poderia ser dito e não foi e estes muros brancos acentuam mais a questão. O silêncio destes papéis virgens, de tudo o que não chegou a ser dito. As linhas me lembram as pautas, um caderno pautado em branco empacado. Comecei depois a comprar estes livros (proibidos ou censurados) e também quando houve a conversa em Abril, pesquisando mais a lista dos livros proibidos, dei-me conta que a percentagem de mulheres autoras era mínima. Entre esta lista de 900 havia só 23 escritos por mulheres, decidi então focar-me nestes. A partir desses 23 consegui comprar 15 das edições originais e a exposição foi toda trabalha a partir destes 15 livros.

São 15 livros de autoras mulheres proibidos em Portugal durante o regime ditatorial do Estado Novo. O que me interessou para este projecto foi a escrita feminina e perceber o que era feminino, o que era subversivo nesta escrita. 

O Leitor

Marilá Dardot, O Leitor (detalhe). Vista da exposição “Interdito”, Galeria Filomena Soares. Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

O Leitor

Marilá Dardot, O Leitor (detalhe). Vista da exposição “Interdito”, Galeria Filomena Soares. Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

O Leitor

Marilá Dardot, O Leitor (detalhe). Vista da exposição “Interdito”, Galeria Filomena Soares. Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

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Marilá Dardot, interdito. Vista da exposição "Interdito". Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

Interdito

Marilá Dardot, Interdito detalhe. Vista da exposição "Interdito". Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

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Marilá Dardot, Vista da exposição "Interdito". Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

Dito

Marilá Dardot, Dito. Vista da exposição "Interdito". Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

Dito

Marilá Dardot, Dito. Vista da exposição "Interdito". Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

Porque achas que a maioria dos livros de mulheres foi proibida por questões morais, obscenas e pornográficas? Havia algumas palavras que se repetiam ou alusões ao sexo e/ou partes do corpo?

Havia tanto de palavras quanto de situações. Tomo como exemplo os Novas Cartas Portuguesas de Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa. O texto do censor explica que é um livro que em todos os campos levanta questões sobre a emancipação da mulher. E isto era uma ameaça ao status quo!  

Então comecei a ver... li os 15 livros que tinha encontrado e fui anotando entre eles palavras que se repetiam, não necessariamente a palavra com a qual o censor implicava, mas palavras que para mim saltavam naqueles livros e que se repetiam em muitos e que, também, ligavam-se ao meu universo de interesses de palavras - tenho outros trabalhos de arquivos de palavras. Por exemplo, a palavra silêncio é uma palavra que não é censurável mas que para mim é interessante no contexto da exposição. 

Em conversas prévias que tivemos nos ateliers dos Coruchéus falaste das ideias que estavas a trabalhar para esta exposição. Acompanhei sumariamente as etapas e as dificuldades em concretizar a tua ideia inicial. Esses imprevistos levaram-te a reformular alguns aspectos formais como, por exemplo ter que usar fardos brancos e nunca utilizados (alguma coisa que é  per se um desperdício). Portanto, a meu ver, ao escolher este tipo de fardos falas igualmente de ecologia social, de excesso de produção, de trabalho. Achas pertinente?

Esta é uma leitura possível porque está na matéria. Escolhi uma matéria que traz esta leitura mas que não é o foco do trabalho embora goste que o mesmo trabalho tenha várias entradas de assuntos diferentes. Acho que quando coloco os livros esmagados entre os fardos é uma tentativa de iluminar um pouco mais essa leitura da opressão, de calar um discurso, etc. mas obviamente não da para descartar esta outra leitura que é criada pelo próprio material.​​​​​​​

A opressão sim, obviamente, mas é também a contenção – recorro à etimologia latina da palavra contenção. Prendes estes fardos com arames e é tudo muito contido. Uma contenção que eventualmente poderá ter uma dupla interpretação: uma contenção de ideias, um controle estrito, logo a censura, e/ou a contenção do próprio material, a prensa, uma contenção que parece uma chamada de atenção.

Talvez! Na verdade o trabalho é um ready made, nada disso foi feito nem planejado por mim, os fardos já eram assim. Quando olhei para a forma dos fardos com o arame pensei nas linhas das folhas e numa possível abertura para escrever o que se quiser escrever, por ser papel branco e poder receber qualquer coisa. Aqui, as linhas (os arames) funcionam, ao contrario, como para conter um discurso.​​​​​​​

Fala-me da obra Leitor (2017). Aqui estão guardados os títulos dos livros que encontraste? 

Sim. Leitor (2017), é um trabalho feito a partir dos relatórios dos censores que dactilografei sobre papel azul usando tinta vermelha para destacar questões apresentadas como censuráveis que no relatório entram como problema, “expressões eróticas”, “insinuações de ordem política com tendência dissolvente”, “livro apaixonado”, “revolucionário”. A pesquisa para este trabalho foi feita na Torre do Tombo em Lisboa. Foi muito difícil pesquisar os arquivos porque os documentos não estão bem organizados e não se consegue fazer uma pesquisa por editor ou por autor, nem por ano. É bem caótico! Os documentos estão misturados com relatórios de livros proibidos e livros autorizados. No início, fui procurar os relatórios sobre os 15 livros.  Alguns dos quais não consegui encontrar - talvez até estejam nesse arquivo mas dentro desta babélica não consegui encontrar. No total apresento 11 relatórios encontrados e 6 não localizados.

The landscape is moving

Marilá Dardot, The landscape is moving. Frieze Sculpture Park, Londres. 

Tratado

Marilá Dardot, Tratado de pintura e paisagem (detalhe). Cortesia da artista e Galeria Vermelho

a Origem

Marilá Dardot, a Origem. Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

a Origem

Marilá Dardot, a Origem. Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

Mais uma vez parece-me que conténs o discurso na própria forma dos objectos que apresentas. Penso nas obras A origem da obra de arte (2002/2011), The landscape is moving (2013), Tratado de pintura e paisagem (2009) ou ++ (2002/2014). 

Não sei. Nunca tinha pensado nisso como contenção. Sempre pensei que tinha mais que ver com cortes e selecções, ou de colocar uma leitura em foco dentro um universo de possibilidades. Ou a questão do apagamento que é uma coisa recorrente e consciente no meu trabalho e que diz respeito aos discursos que se vão apagando.

Como, por exemplo, no vídeo Diário (2015) que apresentas na exposição Tensão e conflito, no MAAT. A banalidade da tragédia e a efemeridade das notícias escritas com água no muro de cimento da Casa Wabi. Um muro de 312m que o arquitecto Tadao Ando, pensa como separação horizontal entre programas públicos (lado norte) e programas privados (lado sul). Mas também a efemeridade de absorção das notícias num lugar idílico que preclude a vista de outras coisas.

Aquele muro não cerca mas separa acabando por funcionar como um bunker, uma tentativa de conter tudo o que pode chegar de mau nesse lugar idílico, paradisíaco. O muro, esta barreira arquitectónica muito forte, levou-me naturalmente a pensar o trabalho. Comecei a fazer o vídeo no primeiro dia em que acordei na casa. Foi uma reacção imediata a uma coisa muito física.

Falaremos mais à frente sobre o vídeo Diário (2015)... Mas agora voltamos para a outra sala da tua exposição.

Esta obra chama-se Dito (2017) e é uma colecção de palavras . São 12 arquivos criados a partir de 12 palavras seleccionadas como subversivas: alegria, amor, canto, corpo, desejo, liberdade, mulher, orgasmo, palavra, poeta, silêncio e minorias (ou seja um arquivo genérico com as palavras homossexual, lésbica, puta, negro, travesti, mexicanos, etc.). 

Fui digitalizando os livros, marquei primeiro todas estas palavras e a seguir digitalizei as páginas imprimindo-as no tamanho do livro original aberto. 

Na mesma sala tenho a obra Biblioteca Maldita (2017) onde se encontram os 15 livros que  reuni com as marcações que fiz. No caso da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica de Natália Correia, usei só os textos de mulheres ou os anónimos dos quais era-me impossível saber o género.

Porque recorres frequentemente aos marcadores?

Porque são um instrumento de trabalho. São uma parte do processo do meu trabalho, sempre os usei ao trabalhar com os arquivos de palavras. Com o tempo os marcadores tornaram-se interessantes também de um ponto de vista formal. 

O Exílio

Marilá Dardot, O Exílio. Vista da exposição "Interdito". Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

O Exílio

Marilá Dardot, O Exílio. Vista da exposição "Interdito". Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

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Marilá Dardot, Vista da exposição "Interdito". Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.

De facto, eles aparecem nas obras Ulysses (2008) e Grande Livro (2008) ambas apresentadas na Galeria Vermelho em São Paulo.

Na obra Grande Livro (2008) os marcadores transformavam o muro exterior da galeria numa lombada de um livro. Diversamente, na Biblioteca Maldita (2017) uso os marcadores para marcar as palavras dos livros que me interessam. Os livros podem ser manuseados e são mostrados segundo ordem alfabética.  

Ainda nesta sala mostro uma peça sonora Canto, que fiz em parceria com João Pimenta Gomes. Um dos livros que escolhi, Minha Senhora de Mim de Maria Teresa Horta, vinha com um EP com quatro poemas musicados. Neste trabalho utilizamos o mesmo processo da obra Dito (2017): o gira-discos toca um disco editado e manipulado que fica rodando em silêncio a maior parte do tempo. De repente ouve-se uma ou outra palavra. 

Na última sala tenho o trabalho O exílio (2017). No processo da concepção da exposição, fi-lo sem estar conectado com o resto, porque dizia respeito a uma experiência pessoal, ao facto de eu estar fora do meu país, não como exilada mas tentando, num outro lugar e numa outra cultura, reconstruir uma casa. O meu lugar, não necessariamente físico, os meus afectos, o meu quotidiano, enfim, tudo. No processo da exposição apercebi-me que esta obra tinha que ver com o fio condutor da exposição.

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Marilá Dardot, still do vídeo Diário, 2015, Exposição "Tensão e Conflito”, MAAT. Cortesia da artista e MAAT-Fundação EDP.

Voltando ao vídeo que apresentas no MAAT.

Quando fui convidada para a residência na Casa Wabi, em Janeiro de 2015, a curadora Patricia Martin pediu aos artistas que deixassem um diário sobre a experiência naquele lugar. A ideia de diário me remeteu aos jornais, aos eventos sobre os quais lemos todos os dias e depois esquecemos. Acordei na minha primeira manhã com a notícia do ataque terrorista na sede do jornal Charlie Hebdo em Paris, facto que desencadeou uma comoção mundial. Pensei em como os discursos da imprensa e as reacções das pessoas são diferentes dependendo de onde ou a quem uma tragédia, um assassinato, um escândalo aconteça. E como, não importa o quanto as reacções pareçam fortes no início, logo que a notícia torna-se fria e desaparece dos media as esquecemos. Então decidi fazer os vídeos, todos os dias escolhia uma manchete de um jornal mexicano e a escrevia com água naquele muro de betão que as absorvia. Coincidentemente, no último dia, outro ataque terrorista, desta vez numa mesquita no Paquistão (o atentado na mesquita chiita em Shikarpur), matou mais de 40 pessoas. O tratamento dessa notícia na imprensa contrastava com o do ataque de Paris, como se a morte daquelas 40 pessoas não fosse tão grave. Os media manipulam a atenção e dão à vida um valor diferente segundo o lugar geográfico. O que é importante nessa versão de 3 ou 7 ecrãs é o confronto entre o primeiro e último dia. As 23 manchetes que escolhi reescrever contam os absurdos e os horrores que somos levados a esquecer para continuar vivendo e que precisamos lembrar se queremos mudar o mundo.

O teu trabalho bem como a pesquisa que está por detrás é muito coerente. Tem que ver com a linguagem, com a escrita, com a literatura mas também com a história contemporânea e com a actualidade. Quanto à censura, a importância que tu dás às palavras, a história da censura em Portugal mas também no Brasil, pode ter, não digo condicionado, mas, de alguma maneira, pautado o teu trabalho?

O meu trabalho esteve sempre ligado à questão da narrativa, da linguagem, da palavra. Acho que num primeiro momento, estava no universo da ficção, da literatura, enfim é o que aconteceu desde um dos primeiros trabalhos que é o Livro de Areia (1999), um objecto que é um livro de espelhos. Começo a actuar como artista num contexto optimista do Brasil, um contexto no qual algumas coisas, pequenas coisas, estavam gradualmente mudando na desigualdade enorme que há no país. Havia esta esperança de ser um assunto que estava a ser cuidado pelo governo, combatido, embora tivéssemos (os brasileiros) por hábito não discutir política. Nessa fase o meu trabalho explora o universo da literatura e da ficção, da invenção e da colaboração, da natureza, da potência da linguagem como criadora e transformadora a partir de um olhar muito mais optimista sobre o mundo. Depois de 2015, mais visivelmente a partir da obra Diário (2015), há uma certa mudança do meu olhar que sai deste universo íntimo e ficcional e da minha própria biblioteca para os jornais e as coisas que estão acontecendo na actualidade, no mundo "real", digamos assim.  Quando fui para o México (para a residência em 2015) eu sabia que ia ouvir discutir política, sentia essa questão forte na sociedade e era muito recente a notícia dos 43 alunos desaparecidos (o massacre de Iguala de Setembro de 2014). Todos estes factores misturados com a presença física do muro (de Tadao Ando na Casa Wabi) traduziram-se no trabalho Diário (2015) que, de certa forma, colocou-me num lugar onde eu não estava antes, até um pouco perigoso, mas que não pude evitar, não foi uma coisa programada mas algo que apareceu muito naturalmente. Um lugar onde os temas sociais e políticos entram com muita força. 

Depois de tudo o que tem acontecido, falando do Brasil principalmente, vejo que esta mudança no meu trabalho tem muito que ver com a mudança do contexto histórico e político que vivemos. Há por aí um retorno da opressão e do fascismo, um retorno da direita que é uma coisa que não esperávamos ou que não víamos chegar. Durante o processo de criação da exposição Interdito, várias vezes me perguntei por que estava trabalhando com o tema da censura, que pensava estar tão distante, resolvido. Infelizmente, acho que intuitivamente levei a pesquisa adiante porque hoje essa questão da censura, que parecia remota, está ameaçando voltar no Brasil, com exposições sendo fechadas ou ameaçadas por serem consideradas imorais e obscenas.

Não sei se esta fase é evolutiva com respeito ao trabalho precedente. Acho que é uma consequência de um momento histórico, não sei se vai durar para sempre ou se vou voltar para uma poética um pouco mais...não sei. Vivo uma certa crise no meu trabalho e o passado é um lugar onde não consigo voltar agora. 

Marilá Dardot, Livro de Areia. Vista da exposição "Interdito". Cortesia da artista e Galeria Filomena Soares.
Marilá Dardot, O Livro de Areia. Cortesia da artista. 

Acabas de inaugurar uma exposição no México, queres falar um pouco do teu projecto?

A exposição chama-se Bienvenidos e é na galeria Arredondo / Arozarena, na Cidade do México.

Na minha última viagem ao México comprei o último livro da escritora mexicana Valeria Luiselli, uma autora que já conhecia, da qual já tinha lido outros livros e da qual gosto muito. Por isso, quando soube que ela tinha publicado um novo livro comprei sem saber muito bem de que se tratava, esperando ser mais um livro de literatura. Quando o comecei a ler dei-me conta que era um livro sobre um facto real que aconteceu nos Estados Unidos  onde ela actualmente mora. A escritora tinha sido convidada para a Casa Wabi e iria coincidir comigo na residência. Mas finalmente ela teve que renunciar porque não podia sair dos Estados Unidos por estar à espera do seu green card. Durante 2014, Valeria fez uma viagem de carro com o marido e a filha e durante a viagem começou a ler as notícias sobre a crise migratória de crianças entre México e Estados Unidos com um aumento enorme do número de crianças que atravessavam a fronteira sozinhas. O que estava a acontecer é que estas crianças, ao cruzarem a fronteira, entregavam-se à polícia (U.S. Immigration and Customs Enforcement, ICE) porque a possibilidade de sobrevivência no deserto é, de facto, muito escassa. A chance que estas crianças tinham de conseguir ficar nos Estados Unidos, vivos, passava por se entregarem à polícia, e, no prazo de três meses, conseguirem um advogado de alguma ONG para tentarem justificar que corriam risco de vida se voltassem para o país de onde vinham.

Durante esta crise migratória, o Governo Obama diminui este tempo de três meses para uma semana. A maioria destas crianças é deportada. Na mesma altura, os Estados Unidos começaram a pressionar o México para fechar a fronteira sul – a raíz disso foi a criação do plano governamental, conhecido por Plan Frontera Sur, que segundo o discurso do presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, é um plano humanitário que vai ajudar os imigrantes, mas enfim, os relatos que encontrei de ONGs que trabalham com os imigrantes nessa fronteira nos contam outra história.

Durante esta viagem, Valeria Luiselli ciente das notícias, começa a envolver-se pessoalmente com as ONG e a trabalhar como tradutora - há um questionário de 40 perguntas e a partir deste questionário a polícia decide quem pode pleitear o green card

O livro da escritora (Los niños perdidos, 2016) é sobre tudo isso. De certa forma, encontrei similaridades entre o seu processo e meu, o facto de estar num universo que era inteiramente ficcional e de referências literárias e de pronto, inevitavelmente, ter que falar de uma coisa muito dura, muito real e actual. Portanto, pensei esta exposição na Cidade do México a partir de coisas que fui encontrando neste livro. 

Então o primeiro trabalho que mostro na exposição é Bienvenidos, que consiste num letreiro com a típica palavra que nos recebe nas fronteiras, porém vedado com plástico preto. No México é muito comum ver letreiros de comércios que ainda não abriram tapados com esse plástico preto. Bienvenidos pero todavia no, agora não, quem sabe algum dia...

A exposição segue com uma mesa com cinco desenhos relacionados com o tema da imigração no México e Estados Unidos. Os visitante podem sentar e colorir os desenhos mas eu só disponibilizei lápis pretos. 

Uma das notícias que a escritora lê durante a crise, é uma notícia disponibilizada pela agência Reuters na qual um jornalista acompanha a primeira deportação de 21 crianças para Honduras. O jornalista relata a chegada das crianças com extrema ingenuidade descrevendo como as crianças parecem contentes brincando com os balões que tinham ganho durante a viagem de volta. Desta história resulta o trabalho Ominosos (2017) que consiste em 21 balões de chumbo pousados no chão. No segundo piso da galeria apresento o vídeo Diário (2015).

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Marilá Dardot, Bienvenidos. Vista da exposição “Bienvenidos”, Aredondo \ Arrozarena, Cidade do México. Cortesia da artista e Aredondo \ Arrozarena.

Antonia Gaeta

(Itália, 1978) é Licenciada em Conservação dos Bens Culturais pela Universidade de Bolonha, Mestre em Estudos Curatoriais pela FBAUL e Doutorada em Arte Contemporânea no Colégio das Artes da UC. Desenvolveu projectos de investigação e exposição com diversas instituições artísticas em Portugal e no estrangeiro e tem textos publicados em catálogos de arte e programas de exposições. Foi coordenadora executiva das representações oficiais portuguesas nas Bienais de Arte de Veneza (edições 2009 e 2011) e de São Paulo (edições 2008 e 2010) para a Direcção-Geral das Artes. Em 2015, foi curadora adjunta do Pavilhão de Angola na 56ª Bienal de Veneza. Desde 2015 desenvolve projectos curatoriais para a colecção de arte bruta Treger/ Saint Silvestre.

Marilá Dardot
Galeria Filomena Soares

[1] Tensão, esforço, cura, zelo, insistência, contenção, disputa, controvérsia, confronto, comparação.