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6 faces, 12 arestas, 8 vértices, 10 anos

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por Susana Mendes Silva

O EMPTY CUBE é um projecto expositivo de uma noite que começou em Outubro de 2007 com dois Joões: o João Silvério e o João Seguro. Nessa noite inaugural, num espaço na Travessa da Manutenção cedido pela Galeria Filomena Soares, foi apresentado "Out of The Corner of the Eye" que partia das seguintes premissas:

Este projecto foi iniciado com um convite que dirigi ao artista João Seguro para expor num determinado lugar. Um espaço que já foi uma galeria de arte contemporânea, em Lisboa, e que apresentava uma particularidade em termos expositivos, a montra. Actualmente este local encontra-se fechado à sua anterior relação com o espaço público. As suas características iniciais, embora sejam reconhecíveis, em nada afectam o cubo de três metros de aresta que acolhe o projecto do autor.

Portanto, o espaço estava assim reconfigurado enquanto pequeno cubo e a exposição de Seguro trabalhou-o na sua especificidade. Esta primeira intervenção reflectia sobre uma série de questões da escultura contemporânea enquanto memória, corpo físico e a sua decorrente performatividade. De alguma forma há aqui uma enunciação (quase uma presciência) das possibilidades oferecidas pelo cubo e que foram sendo exploradas ao longo destes dez anos.

Até Janeiro de 2009 são apresentados mais cinco artistas — Daniel Barroca, Lara Morais, Nuno Sousa Vieira, Vasco Barata e Ana Pérez-Quiroga — na Travessa da Manutenção que utilizam o espaço de forma mais ou menos contextual. Daí em diante, a definição do espaço não muda — continua a ser um cubo de 3 metros de aresta e branco no seu interior — o que muda é a sua natureza, ou seja é criado um cubo desmontável, pela dupla de arquitectos Isabel Domingos e João Appleton, que passa a ter a sua base na Appleton Square em Alvalade. Curiosamente a sala principal deste espaço é ela mesmo um white cube com aproximadamente 9 metros. E assim vai permitir uma extensão do cubo à espacialidade do cubo da Appleton Square e mesmo até ao seu exterior, à Rua Acácio Paiva.

No entanto, o cubo torna-se também uma plataforma móvel — que viajou para a Galeria do Instituto Politécnico de Tomar, para o Colégio das Artes em Coimbra, para o CAPC - Círculo de Artes Plásticas de Coimbra e para o Espaço Alkantara — e como conceito e reminiscência física do EMPTY CUBE com André Gonçalves no Laboratório de Curadoria em Guimarães.

Ao longo destes 10 anos, o cubo foi utilizado de múltiplas formas: como uma peça que se desmonta, como estrutura despida, como palco, como invólucro, como caixa, como espaço interno, como espaço musealizado, como discoteca, como sala de música, como improvável caixa de luz, ou ainda como espaço dentro de outro espaço. E por artistas plásticos, por músicos, coreógrafos, arquitectos ou designers: Rita GT, Pedro Gomes, Mauro Cerqueira, Carlos Bunga, John Wood and Paul Harrison, Miguel Palma, Ana Anacleto, Miguel Rios Design, Manuel Mota, Pedro Gadanho, Henning Lundkvist, Francisco Queirós, Pedro Tudela, André Gonçalves, Julião Sarmento, Luís Paulo Costa, Susana Mendes Silva, Gonçalo Barreiros, Filipe Alarcão, Ignasi Aballí, Ivan Šuletić, Miguel Vieira Baptista, José Valente, Mark Themann, Nuno Nunes Ferreira, Miguel Pereira e João Ruivo/Fora, Hannes Egger e Fala Mariam. Constituiu-se também como plataforma para projectos especiais: imagens que são feitas especificamente para uma divulgação por correio electrónico e apresentou projectos de  Rui Calçada Bastos, Nuno Cera, Vasco Araújo, Rita Gaspar Vieira, João Paulo Serafim e Sergio Belinchón.

O EMPTY CUBE  tem-se mantido uma estrutura essencialmente independente — teve entre 2009 e 2010 o patrocínio da Jular, mas é financiado na sua maioria pelo próprio curador e conta com o importante apoio logístico da Appleton Square. Pontualmente recebeu pequenos apoios como por exemplo do coleccionador António Albertino, ou para "Auto-retrato /  Self Portrait" de Julião Sarmento que movimentou uma série de participantes — o Museu Nacional de Arte Antiga, emprestou a obra “Retrato de Lucas Vosterman, o Velho” de Anton Van Dyck (c. 1630), através de um protocolo com o Estado Português, a AXA que apoiou com o seguro da obra do MNAA, e a Iterartis que providenciou o transporte.

Por outro lado, e reflectindo sobre a ligação entre prática curatorial e investigação académica, João Silvério apresentou a tese "EMPTY CUBE: um projecto curatorial" orientada pelo Prof. José António Fernandes-Dias e co-orientada pelo arquitecto e curador Pedro Gadanho no âmbito do mestrado em Estudos Curatoriais da FBAUL/Fundação Calouste Gulbenkian em 2010.  

No passado dia 24 de Junho, no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, no âmbito da comemoração dos 100 anos da Revolução Russa, foi apresentada, no Quarto 22, a exposição “UM QUADRADO NUM CUBO NUM QUARTO” com curadoria do artista e professor universitário António Olaio com a colaboração de José Maçãs de Carvalho (também docente do CA/UC e artista plástico). No quarto — um espaço circular construído com uma cortina — dispunham-se imagens dos vários momentos do projecto ao longo do tempo em torno da maquete do cubo ao centro. Como afirma António Olaio: ”Um cubo neste quarto é-o mesmo, ao se apresentar, aqui, o cubo, que é a maquete deste Empty Cube. Um cubo neste cilindro de cortina, e um cilindro é um sólido de revolução. Redundância nas exposições desta nossa Rrevolução!, ou forma de associar a revolução ao mero processo de gestação de um sólido geométrico, coisa que resulta na solidez dos sólidos. Revolução que se extingue ao concretizar-se.”

Dito tudo isto, há que esclarecer que eu sou suspeita porque a 69-12, que apresentei no Colégio das Artes, foi uma das performances que mais gostei de fazer: nunca teria sido possível sem todas as pessoas que se juntaram nessa noite naquele espaço cúbico a dizer e a gritar frases de ordem que ecoavam desde a crise académica de 1969 até à noite austera e fria de Dezembro de 2012.

Parabéns Cubo!

 

Susana Mendes Silva 

(Lisboa, 1972) é artista plástica e performer. O seu trabalho integra uma componente de investigação, e de prática arquivística, que se traduz em obras cujas referências históricas e políticas se materializam em exposições, acções e performances através dos mais diversos meios de produção. O seu universo contempla e reconfigura contextos sociais diversos sem perder de vista a singularidade do indivíduo. A sua intimidade psicológica ou a sua voz são inúmeras vezes veículos de difusão e recepção de mensagens poéticas e políticas que convocam e reactivam a memória dos participantes e espectadores. Susana estudou Escultura na FBAUL e frequentou o programa de doutoramento em Artes Visuais (Studio Based Research) no Goldsmiths College, Londres, tendo sido bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. É Doutorada em Arte Contemporânea, pelo Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, com a tese baseada na sua prática performativa – A performance enquanto encontro íntimo. É Professora Auxiliar na Universidade de Évora no curso de Arquitectura Paisagista.

EMPTY CUBE