Ed. 04 / 2018
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Rodrigo Hernández

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João Mourão e Luís Silva

Studio Visit

João Mourão e Luís Silva cartografam a expansão que a comunidade artística da capital atravessa, visitando os estúdios de artistas que se mudaram recentemente para Lisboa. 

Rodrigo Hernández (Cidade do México, 1982) é um artista mexicano a residir em Lisboa há cerca de um ano. A sua relação profissional com a capital iniciou-se quando começou a preparar uma exposição individual para a galeria Madragoa, intitulada Plasma. O projeto inaugurou em maio de 2017 mas, já muito antes disso, Hernández começou a fazer visitas frequentes à cidade com o intuito de preparar a produção da exposição. A sua primeira estadia mais prolongada, antes da mudança definitiva, foi o resultado da necessidade de supervisionar a execução das peças, produzidas nos arredores da capital, numa latoaria na Malveira (Mafra). A mudança definitiva foi assim uma consequência natural do trabalho desenvolvido para a galeria Madragoa, bem como das necessidades de produção e manufactura inerentes à sua prática artística. O passo seguinte foi conseguir um apartamento e um estúdio para trabalhar, que encontrou entre a Graça e Santa Apolónia, bem perto do icónico edifício Gaivotas do Tejo, na Rua Leite de Vasconcelos, onde alugou um espaçoso apartamento num prédio dos anos cinquenta do séc. XX, que funciona simultaneamente como habitação e local de trabalho.

A nossa relação com o artista é anterior à sua mudança para Lisboa, tendo-lo conhecido no final de 2014. Apesar disso, da proximidade com a sua prática e da colaboração pontual em alguns projetos, nunca tínhamos realizado uma studio visit. Foi por isso que nos encontrámos com ele no seu apartamento na Leite de Vasconcelos, num final de tarde de janeiro. Ainda a habituar-se ao frio das casas portuguesas, fez-nos uma visita rápida à parte “privada” do apartamento, onde vive, seguindo depois para a divisão que funciona como o seu estúdio e cuja luz especial Hernández não se cansa de elogiar. É aqui que pinta, desenha e prepara os projetos mais ambiciosos, posteriormente executados por técnicos especializados, como serralheiros ou carpinteiros.

Hernández trabalha geralmente em pequena escala, mas esta pode, por vezes, e se o projeto assim o exigir, crescer, geralmente de uma forma cumulativa, em que pequenos elementos são adicionados, à semelhança de um puzzle, construíndo assim um todo que excede formal e narrativamente os elementos individuais que estão na sua origem. Hernández diz-nos que um dos motores do seu trabalho é o impulso para escapar, de um ponto de vista físico, à linguagem. Para si, é muito mais fácil explicar algo através de um gesto ou de um desenho do que através de palavras. O resultado desta dificuldade materializa-se através da criação de imagens repletas de paradoxos que convocam momentos duradouros de dúvida e incerteza. Não é assim de estranhar, por exemplo que na sua exposição individual Every forest madly in love with the moon has a highway crossing it from one side to the other/Todo bosque locamente enamorado de la luna tiene una autopista que lo cruza de un lado a otro, apresentada na Kurimanzutto em 2016, tenha apresentado um corpo de trabalho que combinava imagens do Futurismo e do livro Indian Art of Mexico and Central America, de Miguel Covarrubias. É esta justaposição aparentemente intuitiva que resulta na ambiguidade do estatuto do seu trabalho, simultaneamente familiar e irreconhecível, estranho e quotidiano.

Atualmente e como é habitual, Hernández encontra-se a investigar várias referências aparentemente desconexas. Por um lado, tem vindo a desenvolver uma pesquisa extensa em torno dos padrões geométricos e do caleidoscópio de cores do designer italiano Emilio Pucci, e da riqueza e exuberância dos têxteis que criou, enquanto por outro, se encontra completamente imerso na simplicidade minimal da atmosfera de uma das mais icónicas pinturas zen, pintada na primeira metade do século XV por Josetsu e intitulada Catching a Catfish with a Gourd (Apanhando um Peixe-Gato com uma Cabaça). Criada como uma espécie de adivinha, pretendia estimular o observador a desenvolver novas formas de “ver”. Pensando no trabalho de Hernández, não é de estranhar que ele se mostre completamente obcecado por esta obra.

Estas pesquisas, sobretudo a que se prende com o trabalho de Emilio Pucci, já se materializou, ou encontra-se em processo de se materializar, em pequenas pinturas que o artista nos mostra enquanto fala connosco. No entanto, o objetivo principal deste trabalho de investigação diz respeito a alguns projetos individuais que Hernández irá apresentar durante o Verão, como o solo project com a galeria Madragoa na seção Statements da Art Basel ou a exposição individual que acontecerá simultaneamente no espaço SALTS, também em Basileia. A imaginação é automaticamente estimulada e olhando para os inúmeros esboços preparatórios que partilha connosco somos assaltados por um sem número de interrogações. Que acontece quando um caleidoscópio de formas geométricas e cores encontra a pintura zen japonesa? Onde é que Emilio Pucci e o budismo zen japonês se cruzam? Pode um peixe-gato mergulhar na cor? As respostas, como o próprio trabalho de Hernández, são ambíguas e paradoxais mas, muito provavelmente, tal como a cabaça e o peixe-gato, nos sugiram novas formas de olhar para o mundo.

Rodrigo Hernández

Bio

Portfolio

Galeria Madragoa

 

João Mourão (Alegrete, 1975) e Luís Silva (Lisboa, 1978) são um duo curatorial que trabalha em Lisboa, onde são co-diretores da Kunsthalle Lissabon, instituição que fundaram em 2009. Uma seleção de exposições que apresentaram inclui individuais de Nathalie Du Pasquier, Céline Condorelli, Jacopo Miliani, Iman Issa, Katja Novitskova e Marwa Arsanios, bem como exposições coletivas em instituições como a Extra City, em Antuérpia ou a David Roberts Art Foundation, em Londres. Para além da sua prática curatorial João Mourão e Luís Silva são também contributing editors da revista CURA. E co-editores da série de publicações Performing the Institution(al). Foram os curadores da ZONA MACO SUR (2015 - 2017), a secção de solo projects da feira de arte contemporânea da Cidade do México e são os curadores da nova secção Desegni da Artíssima em Turim.

 

 

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Rodrigo Hernández. Imagens do estúdio do artista. Cortesia do artista.

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