Ed. 04 / 2018
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Oficina Arara

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João Seguro

“Os que sonham de dia são conscientes de muitas coisas que escapam aos que sonham apenas à noite”

Podia começar por dizer que a Oficina Arara é um coletivo de artistas, sediado no Porto, que tem como principal ocupação a produção e circulação das atividades criativas dos seus membros. E que, enquanto autores pertencentes a uma movimentação grupal, produzem um conjunto de obras e atividades fruto dessa vontade coletiva, servindo os desígnios e necessidades individuais desses mesmos autores.

Não estaria completamente errado mas seria muito redutor tentar explicar a dinâmica criativa da Oficina Arara nesses termos. São do Porto, são um coletivo, e tanto fazem trabalhos como coletivo, como desenvolvem as suas obras e dinâmicas individuais; além disso ainda integram obras de artistas amigos e de outros amigos que, não sendo artistas, têm algo a dizer ou a fazer na sua extensa e diversa atividade. Uma prática que começa por ser oficinal (a feitura de objetos em técnicas como a serigrafia, numa oficina de utilização comunitária ou cooperativa) e que, por várias razões naturais, se estende a outros territórios das artes visuais, ao design, ao ativismo sócio-político, à música, e a outras dinâmicas de grupo para afirmar a sua movimentação.

Hoje, o coletivo é composto por Irina Pereira, João Alves, Luís Silva, Miguel Carneiro, Pedro Nora e Raquel Relvas, mas no passado (num passado que se faz sentir na direção das atividades que a Oficina desenvolve hoje), estiveram a bordo Bruno Borges, Dayana Lucas, Daniela Duarte e os Von Calhau!. Amanhã poderão ser outros. O grupo parece funcionar como uma máquina autossuficiente que arrebanha aquilo que encontra na sua esteira (discursiva, claro) e vai libertando os seus membros à medida que os projetos autorais individuais reclamam um “alívio” do frenesi inventivo que aqui se respira. A aparência é essa, a de uma família que deixa os seus membros rumarem a outras latitudes para explorarem a autonomia e para perceberem que há laços que não se desfazem. Podem não estar fisicamente na Oficina mas não deixam de por lá aparecer. Começamos pelo fim se dissermos que é isso que esta exposição, patente na ZDB, descerra, permitindo uma visão panorâmica das atividades da Oficina Arara desde 2010.

A exposição, com curadoria de Natxo Checa e Bruno Marchand, pode sugerir uma pequena retrospetiva, tem aparentemente todos os ingredientes de uma exposição desse tipo, mas não é. Segundo Pedro Nora - “seria estranho olhar para trás com o veículo em andamento” – ao que acrescentamos – há características nas atividades da Oficina Arara que recuam perante classificações normativas e que, pela sua condição contextual e performativa (o que aconteceu, onde aconteceu, como se relacionam com o espaço da oficina, como se relacionam com a cidade que habitam, como interagem com os seus pares e com a comunidade) não são passíveis de ser documentadas e arquivadas para usufruto futuro. Há aqui um presentismo que, embora não sendo radical, também diz muito acerca da dinâmica e da ética de trabalho da Oficina.

Na entrada da galeria, detemo-nos perante uma imagem constituída pelas letras A e R recortadas em vinil, agrupadas de forma anagramática com a configuração de um quadrado assente num dos vértices. Lê-se ARARA, mas pode-se ler AR, RA, ARA, ARAR, RARAR, e uma infinidade de outras palavras, existentes ou inventadas. Este exercício introduz a forma de pensar que perpassa toda a exposição; uma infinidade de leituras. Lembramo-nos aqui da célebre ideia de Deleuze que dizia, em Pourparlers, que existem duas maneiras de ler um livro: uma que o considera uma caixa que remete para o seu interior (e que nesse interior procuraremos o seu sentido, significado ou até significante); e uma segunda que sugere uma leitura com gravidade (- a manifestação de algum acontecimento mas não necessariamente dentro dele) que permite questionar o seu modelo de funcionamento, como se este fosse a explicação do seu sentido, virado para um exterior. Este livro existe em permanente diálogo e confronto com essa maquinaria exterior a si, mas à qual pertence e habita em fluxo e contra-fluxo incessante.

Assim é a ARARA, uma máquina que tem necessariamente um funcionamento e um interior mas que vive dessa intensidade inexorável que é o relacionamento em fluxos e contra-fluxos com o seu exterior.

 

 

Por detrás da secretária, que funciona como receção da galeria, uma canoa (Profundezas do Douro/Barco do Lima, 2015), construída por Carlos Lima e pintada por João Alves a convite de Ruca Bourbon, oferece-nos uma imagem das inusitadas ligações ao exterior que a Oficina Arara cultiva. Subimos a primeira fiada de escadas e encaramos com uma pintura mural (Buraco da Corte, não datada), realizada para essa parede através de acrílico pintado diretamente na parede, por várias camadas de cor planas, com a forma de três máscaras que, sobrepostas, criam uma retrato ou efígie da própria entidade ARARA, um ser de fisionomia diabólica e excêntrica, que nos enquadra no universo mágico, surrealizante, dadaísta e patafísico do coletivo.

Entramos no primeiro piso e numa primeira sala passa um filme de Frederico Lobo (Fogo nos Cornos, 2012), num televisor no chão, colocado sobre uma madeira. É um registo das festividades populares com o mesmo nome que acontecem todos os anos em Freamunde, nas quais os habitantes manejam vestimentas armadas de explosivos e fogo de artifício, e serve para contextualizar a correspondência ao universo popular do conjunto de posters (A mão direita não sabe o que a esquerda anda a fazer, 2017) de João Alves, Miguel Carneiro e Pedro Nora, feitos a partir do espólio fotográfico e documental de Ernesto de Sousa para a última Bienal de Cerveira. Estas duas peças indicam que o que vem a seguir insere-se na mesma lógica de miscigenação. As proveniências não são todas familiares, sendo que, na segunda sala, aos desenhos, pinturas e imagens serigrafadas de Miguel Carneiro, Bruno Borges, João Alves e Pedro Nora, núcleo duro atual da Oficina, junta-se também Joaquim dos Bichos, um escultor popular (o que quer que esse rótulo queira dizer) com quem Miguel Carneiro estabeleceu uma relação de afinidade artística e pessoal e, por essa razão, o trouxe para o seio das atividades sociais da Oficina.

As esculturas de Joaquim dos Bichos, que voltam a aparecer numa das salas do piso superior, são esculturas de animais que estão a meio caminho entre a expressividade ingénua da dita arte bruta e o ardor da estatuária ritual. Percebe-se a afinidade que as suas obras têm com o universo dos desenhos de Miguel Carneiro e com as pinturas de João Alves e até com a carga escatológica da obra da dupla Von Calhau!, que ecoa especialmente no segundo piso da exposição. Neste piso, as três salas são pontuadas por obra acima de tudo gráfica: posters em várias técnicas, cartazes, edições e pinturas, uma sala é dedicada às publicações que saíram da Oficina entre 2011 a 2018, especialmente “Buraco”, uma zine de números temáticos editada por autores individuais que exemplifica bem o carácter metamórfico que a Arara assume, com forte pendor para a intervenção social e política, e de onde saem alguns dos objetos artísticos que, nas paredes, nos contextualizam acerca da natureza colaborativa da publicação. Além desta publicação existem outros materiais (publicações e edições, coletivas e individuais) das quais podemos destacar as insolentes b.d.’s de Bruno Borges, que podemos consultar calmamente numa pequena sala de leitura preparada para o efeito.

Chegamos à ultima sala, deste piso, com uma torrente de posters e cartazes, mais precisamente setenta e três, que perfazem uma visita guiada a uma das atividades que mais visibilidade pública terá – a edição e circulação de cartazes – alguns com fins absolutamente artísticos, outros de intervenção social, outro focados na comunicação de acontecimentos (exposições, concertos, e outro tipo de atividades). A montagem, que podemos apelidar de discricionária (e ainda bem que assim é), pretende enfatizar a diversidade de tipologias que a Oficina transpira para o espaço público e passa bem sem uma organização formal ou arrumação cronológica. Será apenas de referir que, as cinco secções/paredes nas quais os materiais habitam, partem de um poster singular de 2011 que dá conta da Abertura da Oficina Arara, e termina com outro, de título Aniversário, de João Alves, já de 2017. Pelo meio, um festim de temas e abordagens, de formas e estilos – uns mais convencionais e informativos, outros totalmente abstratos, alguns alusivos a acontecimentos, uns politizados, de recurso a linguagens de articulação comunicacional direta e quiçá comercial, mas sempre com uma marca muito forte, que agarra este núcleo de imagens como simbólico da engrenagem de maquinaria complexa que é a Arara.

Meia volta e subimos ao segundo piso acompanhados por uma pintura mural de grandes dimensões que ocupa o canto entre os dois pisos.

Uma enorme e gargantuana boca aberta, pontuada por uma dentição omnívora, prepara-nos para a noite que nos vai engolir de seguida.

O piso dois, ao contrário da claridade apolínea do primeiro, propõe-nos a visão de um conjunto de obras que, pela sua natureza noturna e marginal, nos vão arrebatar para uma dimensão paralela onde a Arara também habita; a mostra inclui trabalhos de algumas das individualidades da Oficina, que manifestam esse lado embriagado da noite e uma certa extravagância das atividades que associamos ao obscuro e ao oculto. Igualmente presente o aspecto da noite festiva da Oficina, que organiza festas e atividades e, por vezes, não satisfeita com a utilização das suas premissas de convívio social, de amigos, associados, partidários dos caminhos da mão esquerda e toda uma banda de seguidores fieis, ainda consegue intoxicar outros vizinhos a embarcar na viagem de abrir portas para estes encontros. O que acontece neste piso reflete esses encontros.

Na primeira sala, num negrume denso, misterioso e solene que a transforma numa espécie de câmara ritual, somos recebidos por um desenho de Miguel Carneiro, apropriadamente intitulado Quarto Caminho (2017). Passada a entrada uma série de pinturas de João Alves sugerem-nos todo o tipo de referências ocultas; a imaginários medievais, egípcios e orientais. Serpentes, seres danados, demónios e labirintos, seres alados, ferro e fogo. É uma pintura que está em contraciclo com grande parte da pintura contemporânea e que tem uma espessura de alusão que não se compadece com os ritmos do tempo presente e que, talvez por isso, constitua uma imagem tão grave. Numa das pinturas, um demónio de olhos de relógio abre a boca para nos deixar vislumbrar uma imagem misteriosa de três homens sentados a uma mesa. E esta imagem obriga-nos a olhar à volta e a reparar que em duas zonas escuras da sala existem duas portas, revestidas por uma tapeçaria com as feições de um monstro em cuja boca teremos que entrar para prosseguir. Ao escolhermos entre a porta da esquerda ou da direita, percebemos que qualquer uma delas nos transporta a pontos diferentes da mesma sala onde, ao centro, uma mesa suporta uma infinidade de parafernália móbil, luminosa e sonora, artefactos de culto, bric-à-brac luminescente, ruínas e retalhos de objetos misteriosos, eletrónica vária, uma dream machine, uma caravela rodopiante habitada por uma caveira que brilha no escuro, uma marioneta de um esqueleto fantasma que bambaleia, globos que giram, cristais psicadélico-kitsch, amuletos de chifrudo! Um sem fim de pequenas referências meramente burlescas mas que são uma espécie de condutor de energia que infeta tudo o que está à sua volta. E à sua volta estão novamente as criaturas de Joaquim dos Bichos: uma serpente, um mocho, um crocodilo e um jocoso inferno, bem acompanhadas pelas singulares caixas de Ruca Bourbon, recheadas de estranhezas e bizarrias inusitadas com títulos alusivos aos seus conteúdos; Eremita das Grutas Impossíveis, Oratório de São Droid ou Santo Padroeiro dos Robots Humanoides.

Estamos em plena noite e seguimos para uma outra sala onde uma pintura de João Alves passa o testemunho a um conjunto maior de desenhos de Miguel Carneiro; desenhos a preto e branco, com o fulgor do cinema expressionista, crípticos e alegóricos, de um rijeza autoritária, apaziguada por um escárnio que se vai compreendendo a cada imagem tentativamente descodificada. Um conjunto de mãos mimetizam letras que perfazem a palavra WORK. Há um lirismo absurdista que salta do mais inocente traçado de objetos comuns, para composições confecionadas que questionam a substância pesada que rege os nossos padrões sócio-culturais, sem disso nos apercebermos. Na próxima sala (a última da exposição) habitam nas paredes peças de Ruca Bourbon, Miguel Carneiro e João Alves, que vão sofrendo iluminações e obscurecimentos através da rotação de uma intervenção escultórica do coletivo Arara que, no centro da sala, faz rodar um conjunto de espelhos, pendentes sobre vasos de plantas falsas iluminadas por um foco. Produzem um jogo de cintilações que alteram radicalmente a forma de perscrutar os objetos e imagens ao nosso redor. 

Ao sair da exposição, atravesso as salas em direção à saída do segundo piso, desço as escadas, regresso ao primeiro piso para uma última observação e lembro-me de uma ideia de Poe que dizia que “Os que sonham de dia são conscientes de muitas coisas que escapam aos que sonham apenas à noite”. A Oficina Arara tem a sorte de pertencer a essa linhagem.

Oficina Arara

Galeria ZDB

João Seguro

(1979), vive e trabalha em Lisboa. É artista e professor. Tem mostrado o seu trabalho em exposições, individuais e coletivas, nacionais e internacionais, estando representado em diversas coleções particulares. Lecionou desde 2006 as cadeiras de Estética, Estudos de Arte, Teoria e Crítica da Imagem, Pintura e Seminários de Arte Contemporânea no Instituto Politécnico de Tomar e na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

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Vistas da Exposição Arara. Colectivo Oficina Arara. Galeria ZDB. Imagens cortesia de ZDB, excepto as imagens 2, 6, 8 e 14.  

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