Ed. 04 / 2018
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Antoni Muntadas: Espectáculo/Poder/Mass Media

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Isabel Nogueira

Há um par de dias, Cristiano Ronaldo fazia um espectacular pontapé de bicicleta que deixou o mundo – do futebol e não só – em espanto e suspensão. Antoni Muntadas (n. 1942) é o artista que, sob curadoria de Carolina Grau, se apresenta na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art com uma mostra precisamente intitulada Espectáculo/Poder/Mass Media. Uma vez mais, Muntadas aproxima-se do conceito de “artefacto”, ou seja, de obras cuja semântica e complexidade poderão variar consoante o contexto em que se apresentam e se movimentam. O sentido da comunicação é um vector efectivamente implicativo no trabalho do artista e o futebol surge, nesta exposição, e a par de outras propostas, precisamente como linguagem de espectáculo, exaltação, poder e emoção.

Um destes trabalhos, em vídeo, tem justamente o título evocativo de On translation: celebracions (2009), e permite ver e vivenciar estes momentos celebrativos do golo. E a imagem do futebol ganha uma outra dimensão estética e, eventualmente, até poética e hipnótica. Também na peça On translation: FIFA (2014), uma impressão em papel fotográfico constituída por diversas partes/imagens futebolísticas, é legível a frase “Uno contra uno no es un juego. Es una batalla”, que evidentemente nos transporta igualmente para o fora de jogo, ou para outros jogos, ou seja, para os espaços relacionais das emoções, do poder, da subjugação, do domínio, etc., com presença em todas as áreas da vida. A palavra na associação à imagem aparece recorrentemente em Muntadas, assim como uma componente bastante humana, precisamente porque permite uma ligação estruturante com aspectos vivenciais importantes e consideravelmente universais. E aqui entramos inclusivamente num domínio da empatia com o Outro, ao mesmo tempo que se verifica também uma exposição de diversos modelos relacionais, assim como o modo como esses modelos são mostrados, por exemplo, através dos media.

A par destas e de outras obras, à entrada no espaço expositivo são visíveis  Portraits (1995). Trata-se de nove serigrafias que captam o momento em que diversas figuras públicas tomaram da palavra, em variados contextos não identificáveis. As obras são ampliadas, pelo que ficam com uma configuração visual próxima de um pontilhismo desfocado.  O microfone é claramente uma marca de poder e de comunicação, mas a boca também surge como fonte de poder político, social, ideológico, e inclusivamente erótico, talvez até sexual. Estas imagens possuem algo de encantatório e desejável, quer dizer, possuidoras de um qualquer poder em si mesmas. E o desejo implica também algo de distante, uma qualquer impossibilidade de leitura.

Na obra La societá transparente (1989) Gianni Vattimo propõe a tese de que na sociedade dos mass media – que caracterizam a “sociedade transparente”, na verdade pós-moderna, caótica, contaminada – se abre caminho a um ideal de emancipação, que tem por base a oscilação, a pluralidade e, por fim, o desgaste do próprio “princípio de realidade”, isto é, o homem pode tornar-se consciente de que a liberdade não consiste efectivamente em conhecer a estrutura do real e adaptar-se a ela. A nossa esperança de emancipação e de liberdade poderá ancorar-se neste relativo caos, nesta perda de sentido da realidade, na capacidade de desenraizamento – libertação das diferenças, das minorias, fim da ideia de uma realidade histórica totalizadora –, embora sem o abandono de todas as regras. Na verdade, como afirma Vattimo: «(…) com a multiplicação das imagens do mundo perdemos o “sentido da realidade”, como se diz, talvez isso não seja afinal uma grande perda», até porque somos capazes de viver na experiência de oscilação, ou seja, sem um dogma definidor. E aqui encontramos um dos paradoxos do poder ou, por outro lado, a sua sublimação: o poder de não ser (afinal) poder.

Entre o poder da palavra e da não palavra, o poder das emoções, do futebol como muito mais do que um desporto, do público e do privado, do modo como os media veiculam imagens e informação, Muntadas conduz-nos por um denso labirinto de possibilidades, que se revela a cada visão renovada, permitindo a consolidação de um universo consistente, crítico e interpelador, numa prática artística que se desenvolve em diversos suportes e visualidades. E, tal como já antevíamos, naturalmente que o golo de Cristiano Ronaldo não foi apenas um golo, como uma imagem não é apenas uma imagem. É a condensação visual e energética de um universo mais vasto e reconhecível.

Isabel Nogueira

(n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

Cristina Guerra Contemporary Art

 

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Antoni Muntadas. Vista da exposição Espectáculo/Poder/Mass Media. Cristina Guerra Contemporary Art. Fotos: Bruno Lopes. Cortesia do artista e Cristina Guerra Contemporary Art.

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