Ed. 01 / 2018
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Prémio Sonae Media Art: Imagens digitais do e no mundo

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José Marmeleira

No Museu do Chiado, ao colocarem os novos media ao serviço de questionamentos metafísicos e políticos, os cinco artistas selecionados para o Prémio Sonae Media Art permitem ao visitante transcender a mera experiência das obras.

Há algo que ressalta na exposição da segunda edição do Prémio Sonae Media Art, no Museu do Chiado: a presença incontestável da tecnologia digital e dos meios eletrónicos, que determinam as ferramentas, as imagens, os processos, as experiências das obras dos cinco artistas selecionados. Os visitantes podem mover uma personagem usando um mouse, jogar um videojogo, ver uma escultura que parece perder materialidade, contemplar um cemitério digital, acionar uma sequência de imagens. E, no entanto, fazem tudo isso sobre o chão, num mundo físico, tangível. A presença manifesta ou invisível de computadores, de programas informáticos ou robots, a evocação da imaterialidade do digital, a criação de ambientes, não apagam e não excluem, pelo contrário, a existência de uma realidade física, exterior, mundana.

Memorial Feed, de André Martins (1994) é um trabalho que exemplifica, de modo eloquente, essa relação com e no mundo. Numa sala, vê-se projetada uma galeria de rostos. Há algo de familiar nos retratos e um olhar mais atento descobre a sua proveniência. São fotografias de pessoas que faleceram, mas cujas contas públicas do Facebook continuam, até hoje, vivas, acessíveis na rede. Mediante um rastreador de dados, o artista reuniu-as, criando um cemitério digital e anónimo que vai crescendo enquanto o webcrawler não é desligado. Esta é uma das experiências de Memorial Feed: enquanto imagem e processo infinito de memórias. A outra ocorre fora do museu, com a exploração voluntária do website, gesto em que o voyeurismo, a angústia e o esquecimento se confundem. Noutra latitude, mas não muito distante, mostra-se a proposta de Sofia Caetano (1987). Trata-se de uma instalação que o espectador percorre, ativa e experiencia. Um corredor leva a uma espécie de altar, em forma de tríptico, sobre o qual se descobre um botão com a palavra GOD. Premido, os três ecrãs mostram imagens alusivas aos setes dias da criação do universo: erupções solares, galáxias, o sol, seres vivos desfilam em imagens analógicas, de tons avermelhados pelo tempo, encenando, com ironia e simplicidade, o poder prometaico da criação humana. Este é um dos trabalhos mais instigantes da exposição.

 

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Também a solicitar a interatividade, encontra-se o trabalho de Nuno Lacerda (1983). Sobre um plinto, um rato permite ao visitante clicar sobre um imagem que, projectada na parede, revela uma paisagem e uma figura humana. Corrija-se: não é bem uma imagem, mas um compósito de imagens de diferentes escalas e enquadramentos que o artista registou na praia da Samarra, em Sintra. Não há um guião ou um modo correto de as manipular. O visitante fica livre de deambular (ou clicar) na superfície, fazendo aparecer outras imagens, em loop ou em sequências. Por vezes, insinua-se a possibilidade de uma narrativa ou a sensação de que manipulamos ou controlamos aquela figura (representada pelo próprio artista), como se de um jogo se tratasse, o que não acontece. Nuno Lacerda contesta e subverte as nossas expectativas em relação ao que vemos, propondo uma outra relação com as imagens do mundo, mais distante, mais paciente, mas não menos criativa. Artista eletrónico com um percurso sólido na música e no campo dos novos media, André Sier (1977) exibe Wolfanddotcom, uma instalação, constituída por duas esculturas e um videojogo, que solicita dois tipos de receções. Uma lúdica, que se concretiza na sua utilização e experiência, a outra mais intelectual, remetendo para questões como o Antropoceno e a possibilidade de um mundo pós-humano. Ora, a coexistência destas duas abordagens nem sempre alcança o equilíbrio e a eficácias desejáveis, e as referências textuais e teóricas escapam, por vezes, à experiência visual e desconcertante que a instalação disponibiliza.

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Uma tensão semelhante surge em O Estivador de Imagens, de Rodrigo Gomes (1991), o artista vencedor do Prémio Sonae Media Art de 2017. Projetada sobre uma estrutura escultórica feita de espelhos, altifalantes e acrílico, uma imagem ganha uma natureza tridimensional, objetual, ao mesmo tempo que a escultura se desmaterializa. Reflexos da imagem estendem-se, indistintos e luzentes, à volta da sala, como se acompanhassem o zumbido rumorejante que sai das colunas. Há algo de orgânico e maquinal na escultura e, ao mesmo tempo, de visualmente sedutor. Os espelhos criam um efeito de vertigem, expandem o espaço enquanto as membranas transparentes de acrílico simulam o movimento de uma metamorfose. Mas a imagem tem uma origem específica, uma história. Corresponde a uma vista área de uma mina abandonada no Arizona e introduz um significado político à instalação. Acoplando câmaras a foguetes, a CIA desenvolveu, nos anos 60 do século passado, um projeto de vigilância dos cidadãos dos EUA que antecipa as atuais tecnologias de vigilância e controlo. A imagem é um vestígio dessa história que se materializa sobre a escultura, entre as membranas e os espelhos, deixando o espectador indeciso entre o encantamento e a reflexão.

José Marmeleira

Jornalista e crítico nas áreas da música pop e da arte contemporânea. Colabora no jornal Público e na revista Time Out Lisboa. Lecciona Fundamentos do Jornalismo na Universidade Europeia e está a realizar o doutoramento em Sociologia no Instituto de Ciências Sociais (ICS-UNL).

 

Prémio Sonae Media Art

Mnac-Museu do Chiado

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1º bloco de imagens: André Martins

2º bloco de imagens: Sofia Caetano

3º bloco de imagens: Nuno Lacerda

4º bloco de imagens: André Sier

5º bloco de imagens: Rodrigo Gomes. 

Cortesia dos artistas, do Prémio Sonae Media Art e de Mnac-Museu de Arte Contemporânea do Chiado.

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