Ed. 01 / 2018
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Mariana Silva: Olho Zoomórfico/Camera Trap

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Sofia Nunes

A ficção especulativa assume-se hoje como uma estratégia artística em vias de proliferação. Não que os artistas interessados neste género narrativo retomem a projeção de futuros longínquos e afastados das condições históricas atuais. A sua apropriação prende-se, na verdade, com a vontade de fabular novas realidades através da extrapolação de dados que de algum modo já operam entre nós, mas cujos desenvolvimentos ainda estão por organizar até formarem realidade social.

É com esta temporalidade, de futuro-presente, que alguns artistas portugueses mais novos trabalham, como o caso de Mariana Silva, recentemente convidada pelo Museu Calouste Gulbenkian a apresentar uma nova exposição. Olho Zoomórfico/Camera Trap, com curadoria de Leonor Nazaré, é o título da mostra e reúne três instalações, de 2017 numa única sala escurecida e de ambiente hi tech rigoroso, como vem sendo característico do trabalho da artista. A sala encontra-se seccionada longitudinalmente por uma cortina recortada em lâminas largas, de cor alaranjada, na qual a artista imprimiu imagens de arquivo e imagens computorizadas, de pássaros e insetos. Uma vez contornada a divisória escultórica, intitulada Media Insecto (Flocks, Herds and Schools), acedemos a uma zona com o chão alcatifado em amarelo canário ácido, cujo efeito cromático, de ressonância animal/artificial, logo se propaga a todo o espaço envolvente, bem como às duas vídeo-instalações aqui apresentadas frente-a-frente.

Camera Trap (como caçar com um câmara entre outros), consiste numa estrutura circular côncava, apoiada diretamente no chão, onde a artista projeta um vídeo que nos mostra uma sequência de páginas de livros sobre a armadilha fotográfica, os primórdios da técnica moderna de fotografia da vida animal selvagem, filmadas com recurso a uma lente olho de peixe. A distorção convexa que as páginas dos livros assumem inverte assim o sentido da estrutura que lhes serve de ecrã devolvendo-lhes uma dimensão estereométrica que suscita a forma do globo terrestre. A partir deste ponto de vista, tridimensional e aumentado, visionamos avestruzes, ursos, alces, pumas, que, por sua vez, nos olham de volta, instaurado um jogo de olhares no qual se esboça também uma equação triádica entre homem, animal e técnica que encontra os seus desenvolvimentos na segunda vídeo-instalação.         

Olho Zoomórfico, situado na outra ponta sala, é projetado de forma intercalada em dois ecrãs circulares individualizados que parecem flutuar no ar. Tal como estes, a narrativa do vídeo está também suspensa num futuro pouco definido, mas estranhamente próximo. Sabemos apenas que as suas personagens, Ngueve e Margot, duas amigas biólogas que partilham a mesma casa com um gato, e Gani, um fotógrafo de animais, vivem num tempo em que o rendimento básico universal foi implementado, assim como a limitação da entrada de humanos nas reservas naturais. Se uma maior igualdade entre humanos se desenha no horizonte, os direitos de registo dos animais parecem já não estar ao alcance dos homens, mas apenas do das máquinas e computadores. Três posições sobre esta realidade ganham materialidade através das conversas que os três amigos vão estabelecendo na convivência diária. Gani, sente-se ameaçado pelas novas máquinas virtuais de captação da natureza e nutre nostalgia pelo tempo em que esse trabalho não prescindia da intervenção humana. Ngueve, pelo contrário, está em casa de pé partido, sofre de insónias e estabelece uma ligação de continuidade quase plena com as tecnologias virtuais.

Recebeu por drone um par de óculos de realidade virtual que não larga, oferecidos por Margot, e cujas imagens proporcionadas a deixam num estádio de fronteira entre a sonolência e a vigília. Embora nunca as vejamos, Ngueve descreve-as como simulações de enxames, bandos de aves, carreiro de formigas, que nos fornecem formas diferentes de conhecimento sobre a vida animal e a sua extinção. Algo que se assemelha às imagens digitais que correm em paralelo aos diálogos e simulam por algoritmo os movimentos coletivos de vários insetos e pássaros. Margot, por sua vez, está igualmente preocupada com o desaparecimento em massa das espécies animais, mas mantem uma relação mais distanciada com os sistemas de representação computacionais, embora não os desconsidere. Simplesmente relativiza-os como parte de uma arqueologia de técnicas que contribuem para o estudo científico das espécies.

No entanto, as dúvidas e reflexões dos três amigos, que talvez merecessem um trabalho de interpretação mais exigente, vão também desvelando as estruturas de poder associadas a este campo da representação, desdobrando-se em problematizações de ordem política. Interroga-se o papel da posição colonial e predadora moderna da câmara fotográfica na relação com o animal ou a função mercantil que as imagens dos animais desempenham na sua distribuição desde a modernidade ao presente da narrativa, até ser colocada uma última questão. No final do vídeo Ngueve, de óculos postos, especula: “um futuro próximo da tecnologia talvez possa reprogramar os nossos cérebros para compreender alteridades tão radicalmente diferentes da nossa, como a dos insetos”. Mas que tipo de imagem ou experiência poderá resultar daí, acrescenta a personagem?

Mariana Silva não fornece conclusões. Porém, lança uma pista abstrata que, no curso da narrativa, tende a contrariar o sentido declarativo e a coerência teórica dos posicionamentos assumidos por cada personagem, introduzindo, por conseguinte,
uma relativa margem de perturbação sobre o conhecimento já estabelecido, aspeto sempre desejável em matéria de arte. A um dado momento, Ngueve fala então em “interferências”, uma espécie de ocorrências surgidas de uma ligação subjetiva entre tecnologia, pessoas e ambiente envolvente, ou seja, de uma relação simétrica entre os termos da equação sem que tal implique a tomada da posição do outro, como adiante critica.

Sem cair em determinismos e recusas face à tecnologia ou em projeções naturalizadas do animal, a artista desloca o problema da representação da alteridade para a esfera da biologia, com elevada astúcia, descentrando-o do homem. No curso desta procura, que é sobretudo uma interrogação, desierarquiza também os animais relativamente à inteligência, dando visibilidade aos comportamentos e métodos de organização dos insetos ao invés de olhar, por exemplo, para a classe dos mamíferos, para além de perscrutar a criação de modelos orgânicos de compreensão e visualização da organicidade do “outro” animal, expandindo-os com consequência e sensibilidade ao próprio design da exposição. Lembremo-nos, por exemplo, de como a cortina que secciona a sala, assume uma forma ondulatória próxima da mancha visual que os bandos de pássaros deixam no céu, para não falarmos do já mencionado efeito cromático gerado pela alcatifa ou de como ecrãs de projeção rapidamente ganham o sentido de olhos. Falamos assim de uma exposição, cujos enunciados se alinham com uma consciência não instrumentalizadora e descentrada da relação entre humanos e não-humanos, bem como com um entendimento fortemente crítico dos mecanismos de representação visual que aqui se abrem a possíveis relações de vida novas.  

Sofia Nunes

Crítica de arte e doutoranda em História da Arte/Teoria da Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL e na Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Exerceu assistência de curadoria e produção de exposições no Museu do Chiado – MNAC, Ellipse Foundation e Centro de Exposições do Centro Cultural de Belém (2000 a 2007). Foi professora convidada no Mestrado de Arte Contemporânea da Universidade Católica Portuguesa de Lisboa (2009 a 2011). Escreve com regularidade para publicações de arte contemporânea e académicas.

 

 

Mariana Silva

Fundação Calouste Gulbenkian

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Mariana Silva, Vistas da exposição Olho Zoomórfico/Camera Trap. Museu Calouste Gulbenkian. Cortesia da artista e Fundação Calouste Gulbenkian.

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