Ed. 01 / 2018
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Entrevista a Julião Sarmento

Descem por Ela as Maos da Noite,1987.jpg
Isabel Nogueira

A poucos dias de inaugurar a exposição Reel Time, na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, Julião Sarmento, um dos artistas visuais mais proeminentes da contemporaneidade, conversou connosco, num momento em que assinalou, em 2017, 50 anos de carreira e, no final do ano, comemorará 70 anos de vida.

Qual é a primeira memória que tem?

Deixe-me pensar. A primeira coisa de que me recordo é de estar ao colo da minha avó, que tinha um pequeno jardim. Eu tinha ainda meses e a vizinha de cima faz "coucou". Olhei para cima, e pareceu-me que a senhora tinha o rosto tapado com uma espécie de pano de veludo preto. Apanhei um susto tão grande! Foi uma imagem que me marcou e que, de resto, deu origem a uma das performances que apresentei em Serralves [2012], que era uma mulher que corria com um pano preto na cara.

Quando decidiu que seria artista?

Creio que isso não se decide. Acontece e pronto. Era a coisa que eu mais gostava de fazer.

Se não fosse artista era o quê?

Artista.

De um modo geral, o que o incomodava mais na ditadura?

O isolamento em que se vivia. Isolamento intelectual e social. Era difícil. Não se podia falar abertamente, ter acesso às coisas, aos filmes, por exemplo. Era tudo censurado e empobrecedor. Havia algumas pessoas com quem falar, mas era muito difícil. No meu caso, era, por exemplo, o Calhau [Fernando]. Éramos como irmãos.

Eram ambos assistentes do pintor Joaquim Rodrigo. Como era trabalhar com o Joaquim Rodrigo?

Sim, trabalhávamos os dois como assistentes dele. Foi o Calhau quem me arranjou o emprego. Éramos um bocado mal pagos, mas foi muito importante e inesquecível como experiência. Mas não era assim um trabalho muito criativo, pois o Joaquim Rodrigo sabia exactamente o que queria; era bastante directivo, portanto não havia espaço de manobra.

O Julião é assim directivo com os seus assistentes?

Não, de todo. O meu trabalho é muito diferente. Tenho uma assistente que faz o trabalho de escritório e tenho um assistente braçal, mas que não faz o meu trabalho. Por exemplo, ajuda-me na movimentação de peças, ou a pintar uma mancha de preto, mas não faz o que nós fazíamos no ateliê do Joaquim Rodrigo. É muito diferente.

Admirava bastante o Joaquim Rodrigo, suponho, e creio que a primeira peça que adquiriu é dele.

Sim, é verdade. E não me fez um desconto [risos].

Por que motivo, neste período, nunca foi viver para o estrangeiro – Londres, Munique e, sobretudo, Paris –, ao contrário de outros artistas, por exemplo, Costa Pinheiro, Lourdes Castro, Manuel Alvess ou René Bertholo?

Não queria repetir o que, do meu ponto de vista, eram erros dos outros artistas, sem querer pessoalizar. Nunca desejei sair do meu país. Sou português e sempre procurei afirmar-me, ser o melhor artista que conseguisse, daqui para fora, para o mundo. A maioria dos artistas que saiu vinha expor a Portugal, e isso não me fazia sentido. Não era a minha estratégia enquanto artista, a minha maneira de estar.

Uma vez, no seu ateliê, vi um mapa-múndi na parede, com uma série de alfinetes a assinalar muitos locais. Há algum sítio onde gostasse particularmente de ir e que nunca tenha ido?

Ainda tenho esse mapa! Sim, gostava de ir a tantos sítios. Gostava de ir à China, sem ser Macau e Hong Kong, onde já fui. Gostava imenso de ir à Rússia, ao Vietname ou ao Camboja, à Austrália, por exemplo.

A pergunta clássica: onde estava no 25 de Abril?

Era noctívago, deitava-me sempre às seis ou sete da manhã. Gostava muito de trabalhar durante a noite. Desde que tive filhos que sou diurno. Nessa madrugada, estava a trabalhar no meu ateliê, que na altura era em minha casa –  que ardeu no incêndio –, e que dava para a Rua Nova do Almada e para as Escadinhas de São Francisco. Estava a trabalhar e ouço a notícia na rádio. Fui à janela e passado um bocado comecei a ver os tanques passar. Foi uma alegria. Depois fui para onde todos iam, o Largo do Carmo.

Pouco tempo depois, em 1977, fez-se a exposição Alternativa Zero: Tendências Polémicas na Arte Portuguesa Contemporânea, organizada por Ernesto de Sousa, da qual precisamente se assinalaram os 40 anos em 2017. Como vê hoje, à distância, essa importante exposição, na qual participou?

Foi uma exposição importante e sinto que historicamente tenho um bocadinho que ver com a sua realização. Adorava o Ernesto de Sousa. Tinha imensa admiração por ele. O Ernesto era um agitador cultural brilhante. Não sei quando aparecerá outro assim. Ele era um entusiasta. Eu era bastante mais novo do que ele, mas o Ernesto gostava de conviver com pessoas mais jovens, porque era estimulante para ele. Ficámos amigos e estávamos quase todos os dias juntos. Como sabe, ele tinha feito duas exposições seminais: Do Vazio à Pró-Vocação [EXPO AICA SNBA, 1972] e Projectos-Ideias [EXPO AICA SNBA, 1974]. E eu, que não tinha entrado em nenhuma, porque na altura não o conhecia pessoalmente, queria muito entrar numa exposição organizada pelo Ernesto. Queria mesmo e andava sempre a dizer-lhe isso. Depois, houve uma vez, no intervalo de dois filmes – na altura íamos ver mais do que um filme seguidos –, no Cinema Imperial, que ficava perto da Praça do Chile, que eu lhe disse que ele tinha mesmo de fazer a exposição. E ele, que já não me conseguia aturar, disse que fazia o raio da exposição. E foi assim que surgiu a Alternativa Zero. Foi uma exposição efectivamente marcante.

É uma exposição que sobretudo retrospectivamente é que seria realmente valorizada.

Claro.

A propósito do episódio que acabou de partilhar, mas também no contexto da sua obra, percebe-se que o cinema é uma constante. Sei que sempre gostou muito do Antonioni, mas certamente há outros.

Sim, claro. Gosto imenso do Antonioni, mas não gosto de personalizar, porque limita. Por exemplo, gosto do Antonioni e gosto do Fellini. São absolutamente geniais. Mas identifico-me mais, mesmo enquanto artista, com a obra do Antonioni, porque ele limita-se a mostrar e a não ajuizar ou a moralizar, contrariamente ao Fellini, que mostra e dá-nos a sua opinião sobre uma personagem e, portanto, indicações de como reagir a essa personagem. O meu olhar é mais antonioniano do que felliniano.

Na literatura também prefere não personalizar? Há algum livro que o tenha particularmente marcado?

Sim, é a mesma coisa. Prefiro não ser específico para não ter que deixar tanta coisa de fora, de que gosto. Assim de repente, por exemplo, o Ernest Hemingway foi importante para mim em determinado período da minha vida. Não quer dizer que considere os seus livros extraordinários, mas em certo momento foram importantes, assim como o Georges Bataille. Mas não quero isolar, pois isolando qualquer coisa atribui-se-lhe uma importância desmesurada.

E revê-se ou inspira-se em alguma corrente filosófica ou estética?

Não. A única obra sobre a qual me debrucei em termos práticos foi Remarks on colour, de Ludwig Wittgenstein, que está presente agora na exposição [Cristina Guerra Contemporary], no vídeo R.O.C – 40 plus one [2011].

Porquê Wittgenstein? Interessa-lhe o seu posicionamento e estudos em torno da filosofia da linguagem?

Sim, porque a arte é efectivamente uma linguagem como todas as linguagens. Como a escrita é uma linguagem, ou a fotografia.

Voltando ao seu percurso, como vivenciou o designado movimento do “regresso à pintura” no contexto de um pós-modernismo dos anos 80? Na época conhecia pessoalmente alguns dos artistas ligados ao neo-expressionismo nos Estados Unidos e na Alemanha ou à transavanguardia italiana, como David Salle, Julian Schnabel, Anselm Kiefer, Jorg Immendorff ou Francesco Clemente?

Não, na altura ainda não os conhecia pessoalmente. Conhecemo-nos mais tarde, porque entrávamos nas mesmas exposições. Na época houve a exposição Zeitgeist [Berlim, 1982], e procurava-se de facto o espírito do tempo e todos andávamos à procura do mesmo, por coincidência. A arte é uma linguagem e, como qualquer linguagem, precisa de ser adaptável à sua existência e ao seu próprio tempo. Na altura não se podia pintar, porque a pintura estava morta. Sendo a arte, por definição, um exercício de rebeldia, era o momento de voltar a pintar. Por outro lado, o conceptualismo ficou gasto. Tornou-se demasiado pensado, aborrecido, tinha perdido a espontaneidade, até a graça. Deixou de haver surpresa. E sentíamos que tínhamos de nos espantar, de nos surpreender, de ter o gesto que o Velasquez tinha quando fazia a pata do cavalo assim, e depois apagava e fazia de outra maneira. E isto estava a ser impossível.

A arte tinha-se racionalizado. Perdera parte da sua magia.

Exactamente.

 

Identifica este momento com o conceito de Kunstwollen [vontade da arte] desenvolvido pelo historiador de arte Alois Riegl?

Sim. Todos andávamos à procura de outra linguagem artística.

Nesta altura aconteceu em Lisboa [Sociedade Nacional de Belas-Artes, 1983] a exposição Depois do Modernismo, na qual participou já com a pintura de 1982 Noites brancas (a vigília). Mas o trabalho seu de que mais gosto destes anos é a Descem por ela as mãos da noite (1987). Foi, aliás, a primeira obra que conheci sua.

Também gosto muito dessa obra.

Nesta obra, o centro é ocupado por um quadrado negro que separa as duas imagens. Quando olho para a peça não consigo deixar de me lembrar da teoria de Theodor Adorno, quando afirmou que no intervalo a negro dos fotogramas pode estar efectivamente a subjectividade, talvez a história. O que pensa disto?

Completamente. Embora não me tenha inspirado na Escola de Frankfurt, concordo. Aquele preto é a revelação de qualquer coisa que não está lá. O preto não está lá por acaso.

Assim, algo como o Lacan dizia, que o desejo se fundamenta na ausência?

Sim! Eu sou completamente lacaniano. Tenho uma grande paixão por Lacan. Tenho, aliás, trabalhado muito sobre ele.

Quando se referem ao seu trabalho, normalmente há a necessidade de reafirmar a sua relação, até fixação, na representação feminina. Não está cansado desta afirmação, ou revê-se realmente nela?

Não me revejo e até considero um bocado absurdo e reducionista. É óbvio que gosto de mulheres. As mulheres são historicamente uma inspiração, desde a Vénus de Willendorf, passando pelo Ticiano, Velasquez e pela escola espanhola. A representação feminina deve ser a coisa mais comum – digo eu – na arte. Mas nada mais do que isso. Confesso que nunca percebi essa necessidade. Talvez porque, em determinado período da minha vida, mesmo enquanto jovem artista, nunca tive medo das minhas tendências criativas, nem medo de assumir as coisas que me interessam, os meus fetiches, os meus gostos. Não os escondo, não tenho uma dupla vida escondida, em que sou um puritano do lado de fora e um devasso do lado de dentro. Sou completamente devasso, por fora e por dentro!

Ao longo do seu percurso quer destacar algum momento especialmente impactante para si?

A seu modo são todos. Mas destacaria quando representei Portugal na Bienal de Veneza, em 1997. Em 50 anos de carreira foi a única vez que representei o meu país. A única. E acho que fiz um bom trabalho.

Como viveu a grande retrospectiva que teve em Serralves, Noites Brancas, em 2012?

Vivi-a super bem e super mal. Vivi bem, porque foi fantástico ter a hipótese de fazer uma retrospectiva em Serralves; ter como comissários o João Fernandes e o James Lingwood. Vivi mal, porque fui muito mal tratado por Serralves, pela administração da altura. Foi muito difícil de fazer. Mas foi espectacular, fiquei muito contente.

Para terminar, fale-nos um pouco desta exposição, Reel Time, que agora inaugura na Galeria Cristina Guerra.

Há uma peça importante nesta exposição que é uma performance, que se chama Cometa (2009), cuja música pedi ao Paulo Furtado para fazer. E a Cristina [Guerra] há muito tempo que queria apresentar esta peça em Lisboa. Esta peça, na qual só entra uma pessoa de cada vez, foi criada para a Pinacoteca de São Paulo, depois foi mostrada em La Casa Encendida, em Madrid, depois numa exposição que fiz na Cidade do México, a quarta vez que foi mostrada aconteceu precisamente na restrospectiva de Serralves, e agora é a quinta vez que vai ser mostrada. Mas há também vídeos, o filme super8 de 1976, Faces, por exemplo, entre outros trabalhos que considero relevantes [num arco temporal de 1976 a 2011].

Tem algum projecto artístico de momento, que lhe apeteça partilhar?

Estou a recomeçar a trabalhar. Por questões da minha vida pessoal estive um ano parado. Tenho já várias exposições agendadas, dentro e fora do país. Há muita coisa que quero fazer, mas isto recomeça com uma certa tranquilidade.

Obrigada, Julião.

Isabel Nogueira

(n. 1974). Historiadora de arte contemporânea, professora universitária e ensaísta. Doutorada em Belas-Artes/Ciências da Arte (Universidade de Lisboa) e pós-doutorada em História da Arte Contemporânea e Teoria da Imagem (Universidade de Coimbra e Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne). Livros mais recentes: "Teoria da arte no século XX: modernismo, vanguarda, neovanguarda, pós-modernismo” (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2012; 2.ª ed. 2014); "Artes plásticas e crítica em Portugal nos anos 70 e 80: vanguarda e pós-modernismo" (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013; 2.ª ed. 2015); "Théorie de l’art au XXe siècle" (Éditions L’Harmattan, 2013); "Modernidade avulso: escritos sobre arte” (Edições a Ronda da Noite, 2014). É membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte).

 

Julião Sarmento

Cristina Guerra Contemporary Art

 

 

Imagens:

- Julião Sarmento, Descem por Ela as Mãos da Noite, 1987. Cortesia do artista.

- Julião Sarmento, Faces (still), 1976. Cortesia do artista.

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